Com criptomoedas como disfarce, golpes financeiros disparam na pandemia


Manuela Tecchio, do CNN Brasil Business, em São Paulo
05 de agosto de 2020 às 07:51 | Atualizado 05 de agosto de 2020 às 09:28
Bitcoin

Moedas com símbolo do bitcoin, um dos criptoativos usados como fachada por criminosos

Foto: Dmitry Demidko/Unsplash

A promessa era a mesma de sempre: triplicar o valor investido em curto espaço de tempo. O objetivo: livrar-se do aluguel. Foi com esse sonho em mente que uma profissional da saúde, residente no Rio Grande do Sul, entrou em um dos maiores esquemas de pirâmide dos últimos anos no Brasil, o caso da Unick Forex. “Até aquele momento, eu deixava meu dinheiro na poupança, como todo mundo. Mas eu queria comprar um terreno, construir uma casa. Meu objetivo nunca foi ficar milionária”, conta Joana (nome fictício, porque ela pediu para não ser identificada). 

Deflagrada pela Polícia Federal (PF) em outubro do ano passado, a Operação Lamanai desvendou o esquema, que usava aplicações em criptomoedas como fachada. Como esse, outros golpes passaram a surgir, de forma ainda mais numerosa, durante a pandemia do novo coronavírus. 

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Desde que a quarentena passou a afetar de forma mais grave a vida financeira dos brasileiros, o número de golpes e fraudes cresceu de forma galopante. Do início do ano até agora, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já abriu 213 processos de investigação de atividades no mercado marginal. 

Para efeito de comparação, durante todo o ano de 2019 — que já foi um período atípico, em que os processos triplicaram em relação ao ano anterior, com escândalos como os da Unick Forex, da InDeal e da FX Trading Corp —, foram 371 investigações. Em relação a 2015, o número parcial de 2020 chega a ser sete vezes maior.

“Estou no mesmo cargo há 15 anos e esse é um crescimento ímpar na história da CVM, não há precedentes. O número é impactante. A pandemia acelerou  aumento e, provavelmente, teremos um recorde [das atividades irregulares e/ou criminais] neste ano”, diz José Alexandre Vasco, superintendente de proteção aos investidores na autarquia.

Entre os alertas que a CVM emite para suspender atividades irregulares no mercado, já foram registradas 18 ocorrências só no segundo trimestre do ano, contra quatro no anterior — um aumento de 350%. Um dos golpes mais comuns ainda são os esquemas de pirâmide financeira.

No levantamento mais recente da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) sobre o tema, com dados referentes a 2019, 55% dos brasileiros que afirmaram ter perdido dinheiro em investimentos fraudulentos foram vítimas de pirâmides financeiras. O motivo apontado pelos entrevistados para ter apostado nas propostas foi a “promessa de altas taxas de rendimento”.

Foi exatamente essa ideia que atraiu Joana. “Me disseram que, em seis meses, eu dobraria meu investimento. E, como as coisas estavam dando certo, sempre que o dinheiro chegava, eu reinvestia. Mas depois de alguns meses comecei a ter problema para realizar os saques. Começaram a postergar os pagamentos e usavam problemas técnicos da plataforma como desculpa. Quando a Operação Lamanai teve início, percebi que realmente precisaria entrar com um processo”, lembra.

Agora, casos como esse parecem estar se multiplicando, muito por culpa da própria crise econômica gerada pela pandemia, diz Vasco. “No geral, épocas assim trazem um maior número de golpes, por conta da própria crise. Há aqueles desesperados em busca de ‘oportunidades’ e os fraudadores se dedicam ainda mais a esses ‘empreendimentos’ em busca do dinheiro”, explica.

Criptoativos como disfarce

Disfarçadas de investimentos com retornos milagrosos, as pirâmides ganham pretextos cada vez mais elaborados. O superintendente da CVM explica que, desde o final da década de 1970, foi possível observar “ondas” de temas usados como fachada para conferir uma impressão de legitimidade aos esquemas fraudulentos.

Em 2007, houve uma “explosão” de investigações sobre empresas que trabalhavam com mercado Forex (mercado com moeda estrangeira) e opções binárias, ou que apenas afirmavam operar nesses setores, mas, na verdade, eram pirâmides. Na época, o escândalo que ficou mais conhecido foi o da Telexfree, com número de vítimas estimado na casa dos milhões.

Agora, a bola da vez são as criptomoedas. O caso da Unick Forex chamou a atenção pelo tamanho: a organização criminosa chegou a ter um milhão de clientes e captar mais de R$ 40 milhões por dia, sendo que o esquema operou por cerca de dois anos. Na época, foram 65 mandados de busca e outros dez de prisão em diversos estados do país.

Atualmente, a Associação em Defesa dos Direitos dos Investidores da Unick Forex (ADDI/Unick) reúne 369 vítimas do esquema. Entre elas está Joana, que só queria comprar uma casa. “A empresa apresentava essa ideia de que prestava serviços de compra e venda de criptomoedas no mercado financeiro, mas isso era fachada. Eles diziam que em seis meses o investidor teria 200% de rendimento”, conta o advogado responsável pela ação coletiva, Demetrius Teixeira.

Os afetados, agora, buscam meios legais de reaver pelo menos parte dos investimentos, por meio de um mandado de segurança, já em tramitação, e de uma ação conjunta a ser protocolada neste mês. Por esses meios, as vítimas procuram ter acesso aos R$ 250 milhões que a Justiça Federal bloqueou em contas dos sócios e de laranjas.

Perfil das vítimas

Se há alguns anos esses golpes tinham como alvo vítimas humildes, com pouca instrução, hoje isso parece ter mudado. Com o aumento da entrada de pessoas físicas na bolsa de valores e uma maior atenção da sociedade para o mundo dos investimentos, o principal foco desses esquemas tem sido gente instruída e com dinheiro no bolso, mas pouca informação sobre o mercado financeiro.

“Os investidores estão procurando ativos de maior risco, entrando na renda variável. Claro, a maior parte vai para o mercado regulado de capitais, mas uma parte dessa demanda encontra produtos fora do sistema e acaba sendo vítima de esquemas”, explica Vasco, da CVM.

O momento favorável à aplicação em ativos menos conservadores, segundo ele, coloca ainda mais o investidor iniciante em evidência aos olhos das organizações criminosas. “A taxa de juros baixa, somada a uma certa desinformação da população sobre o mercado financeiro, criou uma combinação que contribui para o aumento dos golpes.”

Da mesma forma pensa o advogado da ADDI/Unick, depois de perceber que o perfil das vítimas mudou ao longo do tempo. “Muito acontece por falta de informação. A pessoa não procura orientação nem mesmo em fontes acessíveis, como o gerente do próprio banco. Entre as vítimas da Unick há advogado, médico, muitos funcionários públicos e até contador. São pessoas que têm nível superior de formação”, conta.

Exatamente como conta a gaúcha do início do texto. “Eu tenho três especializações, não sou ignorante, não sou boba, mas aquilo era muito convincente. Ainda mais quando você vê pessoas instruídas, gente da área de finanças, investindo ali, você acredita que está tudo certo. Parecia tudo muito legalizado, a gente tinha acesso aos líderes do negócio”, lembra.

Por conta da transformação expressiva nesse cenário, a CVM prepara para os próximos meses uma pesquisa para entender melhor o perfil das novas vítimas de esquemas de pirâmide e outras fraudes comuns. “O que posso dizer é que, de fato, existe um perfil novo de pessoas de tecnologia em busca de risco, que são vítimas de golpes”, afirma Vasco.

Como se proteger

Quando questionada sobre se buscou orientação antes de aplicar o dinheiro, a profissional de saúde explica que o discurso da Unick desencorajava as vítimas a procurarem ajuda, com uma teoria da conspiração muito bem construída. 

“Eles diziam para a gente: Não adianta você falar com o gerente do seu banco, porque é óbvio que eles não querem que você invista aqui, o banco nunca vai te incentivar. E diziam que a CVM estava de olho no negócio justamente para proteger o lucro dos grandes bancos”, conta.

Para evitar passar por uma situação como essa, o superintendente da CVM recomenda sempre procurar o registro da corretora ou da empresa junto à autarquia antes de fazer qualquer tipo de investimento. “Somente esse cuidado eliminaria quase 100% das fraudes”, diz.

No site da CVM é possível consultar um manual de como diferenciar esquemas fraudulentos de investimentos legítimos. Há também um boletim que ensina a identificar, especialmente, negócios regulares de marketing multinível — uma fachada muito usada por esquemas de pirâmides financeiras. 

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