A 'guerra das maquininhas' acabou? Entenda para onde vai o mercado de pagamentos


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
07 de agosto de 2020 às 07:43 | Atualizado 10 de agosto de 2020 às 14:57
Maquininha de cartão

 

Foto: Blake Wisz/Unplash

O mesmo Banco Central que anunciou a chegada do seu sistema de pagamentos instantâneos, o PIX, para este ano, decidiu criar, para surpresa do mercado, uma nota de R$ 200. A medida, considerada contraditória por vários setores da economia, mostra o momento de transição vivido pelo setor de pagamentos em território nacional.

As empresas, inseridas num ambiente extremamente competitivo, trazem cada vez mais inovação – traduzida em novas ferramentas e possibilidades para o cliente que consegue acompanhar estes avanços. Enquanto isso, muitos brasileiros seguem não bancarizados e dependentes do papel moeda.  

Por conta deste gap, os últimos anos foram marcados por um grande domínio e expansão do mercado de maquininhas, culminando na tal “guerra” tão referida. Mas anúncios recentes demonstraram que o mercado de pagamentos tem uma enormidade de possibilidades a serem exploradas, e que essa realidade não vai demorar a chegar. 

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Além do PIX, tem ganhado tração a plataforma de pagamentos por Whatsapp, uma parceria entre a Cielo e o Facebook (ainda pendendo aprovação do BC), que promete mudanças mais profundas neste mercado. Para surpresa de ninguém, o projeto não foi bem recebido pelos outros players do setor.

E por falar nas adquirentes, existe ainda uma busca por ferramentas que ajudem a complementar sua estrutura de pagamentos e oferecer soluções cada vez mais redondas para o consumidor final. Aqui entram iniciativas como antecipação de recebíveis, pagamento por aproximação (conhecido pela sigla NFC), por link, ou por QR Code, e por aí vai…

Mas não podemos esquecer, claro, da importância do cartão para boa parte dos brasileiros. Apesar do isolamento social, as compras realizadas com cartões cresceram 14,1% no primeiro trimestre de 2020, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Número que não para de crescer anualmente.

Mais especificamente, do total de R$ 475,7 bilhões transacionados com a modalidade, R$ 297,7 bilhões (aumento de 14,1%) com cartões de crédito, R$ 170,8 bilhões (subida de 12,5%) com cartões de débito e R$ 7,1 bilhões (acréscimo de 78,9%) com cartões pré-pagos.      

Estes dados ajudam inclusive a desenhar mais objetivamente o momento atual. O brasileiro adora, e em muitos casos é dependente, do cartão de crédito, o que não deve mudar no futuro próximo. “Todas essas novas funcionalidades podem substituir rapidamente os cartões de débito, os boletos”, diz Bruno Dilda, diretor de negócios da Azulis, startup de soluções digitais para empreendedores.

“Os cartões de crédito, por outro lado, ainda têm muitas vantagens para o consumidor. Dá para citar alguns sistemas de pontos atrelados ao uso da modalidade, como os de milhagem”, diz. “E, principalmente, a possibilidade de parcelar compras, algo bem presente no Brasil.” Isso, segundo especialistas, adia as análises precoces que apontavam para a derrocada das maquininhas no curto prazo.

Futuro das maquininhas

O aumento da concorrência no setor de meios de pagamento nos últimos anos ganhou um termo próprio: 'guerra das maquininhas'. Se antes, Rede e Cielo formavam um duopólio no Brasil, a abertura do mercado no início da década fez surgir novos competidores e que se mostraram bem fortes nessa disputa – e até estão melhores do que as competidores mais antigas.

A Stone e a Pagseguro são dois exemplos de empresas que surgiram com o foco no nicho de pequenos e médios negócios e hoje valem bilhões de dólares na bolsa de Nova York. A Stone, inclusive, está avaliada em US$ 13,6 bilhões de dólares, um recorde – mais de quatro vezes o valor da Cielo, que é a líder de mercado no Brasil. A PagSeguro vem logo atrás da Stone, com valor de mercado em US$ 13,2 bilhões.

Mas essa diferença entre os valores não demonstra o quão acirrado está esse mercado atualmente. Os players do segmento não estão aguardando possíveis avanços no mercado sentados – muito pelo contrário. Cielo, Stone, PagSeguro, GetNet, Rede (e todas as outras adquirentes) entram agora numa nova fase da guerra: a tecnológica.

“Esse setor era muito fechado, fomos pioneiros ao quebrar isso”, diz Pedro Coutinho, presidente da Getnet, divisão de pagamentos do Santander. “Hoje somos muito competitivos e crescemos a dois dígitos há anos. Agora estamos trabalhando forte em uma transformação digital.”

Na divulgação dos seus resultados do segundo trimestre de 2020, a empresa afirma que implementou “diversas ações para apoiar os clientes como o POS (point of sale, as maquininhas portáteis) adicional para as vendas na modalidade delivery, além de disponibilizar uma loja digital para venda online, com acompanhamento de pedidos, sendo mais um canal de venda.” 

Como resultado, a empresa afirma ter crescido em 21,8% o volume de antecipação de recebíveis e 18,2% o faturamento total (crédito e débito) em relação ao mesmo período do ano passado. A participação de mercado da empresa alcançou 12,5% em 2020. “Não acredito num mundo ‘disso ou daquilo’. Os meios digitais vão crescer e o meio físico também continuará avançando”, argumenta.

Líder do mercado, a Cielo tentou justamente apontar para o futuro no seu balanço do 2º trimestre. Citou, por exemplo, a criação de solução digital compatível com o auxílio emergencial, movimento realizado em massa pelos players do mercado. “Essa iniciativa permitiu que os 50 milhões de usuários dispusessem do benefício diretamente pelo app da Caixa, sem a necessidade de saque em dinheiro.”

Francisco Santos, head da Cielo Fintech, afirma que “não consegue imaginar as maquininhas existindo no longo prazo”, mas também defende que “as transições nesse mercado não têm sido abruptas”. “A grande disrupção promovida por novas tecnologias nos deixa cada vez mais próximos dos clientes, trabalhando para diminuir a fricção e aumentar a segurança e o volume de negócios”, relata.

O processo tem acelerado, é verdade, uma competição ainda mais dura no campo de preços. As maquininhas são oferecidas aos clientes por valores cada vez mais agressivos, reduzindo as margens das companhias. “Se a gente não chegou no limite, estamos próximos, principalmente quando você analisa tudo que a gente oferece”, argumenta Santos.

Coutinho, que também é presidente da Abecs, afirma que o setor “fez um grande papel em reduzir custos e já opera em padrões de nível internacional”. Pondera, no entanto, que para suportar a receita neste patamar, as empresas precisarão ter gastos coerentes e avançar na eficiência. A conclusão a que se chega é que essa competição deve continuar se acirrando, em meios físicos ou digitais.

WhatsApp Pay

Muito por isso, não caiu muito bem para o mercado o anúncio de uma plataforma de mercados desenvolvida pelo Facebook e inicialmente operada pela Cielo, o WhatsApp Pay. Outras instituições financeiras, como o Banco do Brasil, Nubank e Sicredi, estabeleceram parcerias com o Facebook para usar a plataforma.

A Cielo, claro, leva vantagem pela expertise e pela liderança no mercado de meios de pagamento. Mas, como o Facebook não fechou porta para outras parcerias, é possível que novas empresas entrem no jogo, segundo especialistas do setor.

A prática de um “super aplicativo”, que concentra diversos serviços como mensagens, meios de pagamento e até solicitação de táxis e comida, são muito comuns na Ásia – WeChat é o exemplo mais notório. No Ocidente, no entanto, a prática ainda não pegou. “Investimos muito dinheiro num ambiente de concorrência, com interoperabilidade e sem exclusividade. Tem que ter isso em mente”, afirma Coutinho, da GetNet.

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Santos defende que o ambiente terá concorrência sim, que a plataforma é só mais uma opção e que “o consumidor vai escolher o que usar”. “Ninguém sabe quais métodos de pagamentos vão prevalecer no mercado, então precisamos investir em algumas possibilidades”, defende.

“O WhatsApp Pay vai ser a maior jornada financeira do país”, afirma Roberto Marinho Filho, CEO da Conta ZAP, startup especializada em contas digitais através do app de mensagens instantâneas. “Mas precisa se adaptar às regras, resolver questões de compartilhamento de dados, concorrência”, afirma.

Em relação às preocupações sobre a segurança do ambiente, Marinho também afirma que não faz sentido acreditar que as fintechs terão estrutura melhor do que a gigante americana neste quesito. “Nas Américas, o Facebook só deve investir menos em segurança do que o governo americano”, diz. 

PIX

Nessa linha, o PIX é outra plataforma que permanece cheia de pontos de interrogação. Já se sabe que o sistema vai permitir a realização de transações financeiras no âmbito digital, durante as 24 horas do dia, sete dias por semana, ao mesmo tempo em que submete todas as instituições financeiras — de grandes bancos tradicionais a fintechs e redes do varejo — às mesmas regras. 

O grande mistério é como os agentes financeiros utilizarão o ambiente. “O PIX é um petróleo, as empresas vão precisar trabalhar para tirar vantagem disso”, diz Marinho. “Mas é um caminho sem volta, vai bombar. 95% das transações na China ocorrem dentro deste arranjo”, diz.

Outra transformação ainda mais profunda proporcionada pelo PIX, na visão dos especialistas, é a consolidação do open banking, que funciona como uma liberação para terceiros criarem aplicações em torno das instituições financeiras.

Ou seja, desta maneira, terceiros podem começar a criar produtos de maior valor agregado, como novas maneiras de organizar e investir o dinheiro dos clientes, com os dados financeiros dos usuários. 

Um dos players mais antigos do mercado, o PayPal vê com bons olhos a chegada de novas ferramentas. “Quando se combina PIX e open banking, abrem-se muitas possibilidades. Timing é tudo neste mercado”, diz Carlos Nomura, head de pagamentos da gigante norte-americana. “Entrar nessa discussão de substituição de plataformas é muito difícil, o sucesso depende da adoção das pessoas.”

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