Por que o mundo precisa das mulheres mais do que nunca
Durante séculos, o poder ignorou metade da humanidade. Hoje sabemos que quando as mulheres entram nas decisões, as sociedades funcionam melhor. No Dia Internacional da Mulher, esse facto tornou-se impossível de ignorar

Durante séculos, a história do poder foi escrita em salas onde quase não havia mulheres. As decisões que mudaram o destino de países — tratados, guerras, alianças, reformas — eram tomadas por homens de fato escuro, rodeados de mapas, relatórios e silêncio diplomático. As mulheres existiam nesse mundo, mas raramente apareciam nos livros que contavam a história.
Entretanto, enquanto a história oficial era escrita nesses salões, outra história estava a ser construída noutro lugar. Nas casas, nas escolas, nas comunidades. Mulheres educavam gerações, administravam recursos escassos, organizavam a vida quotidiana e mantinham viva a cultura. Durante muito tempo, essa inteligência prática ficou invisível para a política.
O século XXI começou a revelar algo que muitos economistas e sociólogos já suspeitavam: quando as mulheres participam plenamente das decisões económicas e institucionais, as sociedades funcionam melhor.
Estudos do International Monetary Fund mostram que o aumento da participação feminina no mercado de trabalho pode elevar significativamente o crescimento económico dos países. Pesquisas da McKinsey & Company indicam que empresas com mais mulheres em posições de liderança apresentam maior produtividade, melhor capacidade de inovação e decisões estratégicas mais equilibradas.
Mas talvez o exemplo mais claro venha das políticas sociais. Em vários países, programas de transferência de renda passaram a direcionar benefícios diretamente às mulheres da família. A razão é simples: evidências reunidas pelo World Bank mostram que quando o dinheiro chega às mãos das mães, ele é investido com mais frequência em alimentação, educação e saúde das crianças.
No Brasil, o programa Bolsa Família adotou exatamente essa lógica. O benefício é pago prioritariamente às mulheres. A decisão não foi ideológica, foi pragmática: famílias administradas por mulheres utilizam o recurso de forma mais consistente para melhorar a qualidade de vida dos filhos.
Esses exemplos ajudam a compreender um fenómeno maior. A presença feminina não muda apenas quem ocupa as cadeiras do poder — muda o modo como as decisões são tomadas.
Talvez por isso seja simbólico observar o que acontece hoje na diplomacia portuguesa no Brasil. Num campo historicamente dominado por homens, a equipa diplomática portuguesa apresenta uma presença feminina significativa em posições de responsabilidade. Na equipa diplomática e técnica Lusa de alto nível da embaixada é composta por oito responsáveis de topo — conselheiros, delegados e chefias de missão — entre os quais seis são mulheres, incluindo a adida militar, e apenas dois são homens.
Numa relação bilateral que é ao mesmo tempo política, económica e cultural, são mulheres que hoje ocupam vários postos-chave da representação institucional. Esse facto pode parecer discreto, mas ele carrega um significado histórico. Portugal e Brasil partilham algo raro no sistema internacional: uma língua comum e séculos de história cruzada. Administrar essa ponte exige sensibilidade cultural, inteligência política e capacidade de diálogo — qualidades cada vez mais centrais na diplomacia contemporânea.
Num mundo marcado por enormes tensões geopolíticas, a diplomacia continua a ser, no fundo, a arte de construir pontes antes que os conflitos se tornem inevitáveis. Talvez por isso não seja coincidência que muitas dessas pontes estejam hoje a ser construídas por mulheres.
E é justamente por isso que o Dia Internacional da Mulher não pode ser apenas um gesto simbólico no calendário. Ele é um sinal de esperança. A prova de que os países que confiam na inteligência e na liderança das mulheres tornam-se sociedades mais equilibradas, mais humanas e mais inteligentes.



