Classificação dos EUA sobre PCC e CV pode afetar juros futuros e dólar
Decisão unilateral dos EUA muda tratamento das facções para segurança nacional e pode impactar mercado financeiro e cooperação bilateral
O PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) foram classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos. O colunista do CNN Money Gilvan Bueno contextualizou ao CNN Novo Dia a decisão sob a ótica do mercado financeiro, resgatando o histórico de mecanismos criados desde os anos 1990 para combater a infiltração do crime organizado no sistema financeiro.
A decisão, anunciada pelo governo americano com vigência a partir de 5 de junho, coloca o Brasil na lista de países que abrigam entidades sob essa classificação e pode ter consequências tanto no mercado financeiro quanto nas relações diplomáticas entre os dois países.
"Nos anos 90, o crime organizado, junto com venda de armas e tráfico de drogas, trouxe muitos problemas pelo mundo", explicou. A resposta global foi a criação de princípios como o "Chinese Wall" — separação de funções dentro das instituições — e mecanismos como a FATCA, que obrigam as instituições a comunicar operações suspeitas.
No Brasil, surgiram áreas de compliance e práticas de "conheça o seu cliente", voltadas a identificar a origem de recursos movimentados no sistema financeiro.
Impacto nos juros futuros, no dólar e no mercado de ações
Gilvan Bueno avaliou que a nova classificação pode interferir nas projeções políticas dos próximos meses, gerando volatilidade de curtíssimo prazo. Segundo ele, essa instabilidade pode se traduzir em pressão adicional sobre os juros futuros e sobre a cotação do dólar.
"Se vier um novo candidato e isso mudar as pesquisas, traz essa volatilidade de curtíssimo prazo", afirmou. Além disso, empresas do setor de segurança, armamento e cibersegurança também podem ser afetadas, uma vez que a reclassificação altera toda a dinâmica da indústria.
O colunista destacou ainda que as fintechs foram exploradas pelo crime organizado por meio de brechas regulatórias, reforçando a necessidade de todo o sistema financeiro fortalecer suas barreiras contra a lavagem de dinheiro.
Cooperação bilateral ameaçada
O analista sênior de Internacional da CNN, Américo Martins, destacou que a decisão americana tem implicações práticas significativas para a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado.
Segundo ele, ao elevar o PCC e o Comando Vermelho à condição de organizações terroristas, os EUA passam a tratar o tema como uma questão de segurança nacional, e não mais como um assunto policial ou judicial.
"Isso tem implicações nas operações dos Estados Unidos, inclusive nas informações que os EUA não podem mais repartir com autoridades brasileiras, até por conta da legislação dos Estados Unidos, que impõe sigilo a muitas operações desse tipo", explicou Américo.
O analista ressaltou que a PF (Polícia Federal) já trabalha em conjunto com o FBI, a CIA e outras organizações americanas na troca de informações para combater os aspectos econômicos do crime organizado — e que essa cooperação pode ser prejudicada pela nova classificação.
"Essa cooperação entre o Brasil e os Estados Unidos pode ser prejudicada e não alavancada com essa decisão, que foi uma decisão unilateral dos Estados Unidos", afirmou.
Risco de operações no território brasileiro
Américo Martins alertou para a possibilidade, ainda que considerada remota no curto prazo, de que os Estados Unidos realizem operações no Brasil contra alvos ligados às facções. Como precedente, citou ações militares americanas no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, nas quais embarcações supostamente envolvidas com o tráfico de drogas foram bombardeadas.
"Mais de 200 pessoas já teriam sido mortas nessas operações e não se sabe sequer quem são essas pessoas, porque não existe transparência nesse tipo de operação", disse. Para o analista, a decisão americana também representa um empecilho diplomático, uma vez que o governo brasileiro não desejava essa classificação, pois, segundo a legislação nacional, as organizações não se enquadram como terroristas.


