Dólar abaixo de R$ 5 é possível, mas cenário segue incerto, dizem analistas

Divisa recuou ao menor valor em quase dois anos após alívio global com cessar-fogo no Oriente Médio

Diana Ribeiro e Gabriel Bosa, da CNN Brasil, em São Paulo
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O dólar retornou ao patamar dos R$ 5,10 nesta quarta-feira (8), na menor cotação em quase dois anos, impulsionado pelo alívio global com o acordo de cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã.

O movimento reacendeu o debate sobre a retomada da divisa ao patamar abaixo de R$ 5 - algo não visto desde março de 2024.

Especialistas ouvidos pelo CNN Money afirmam que a queda da moeda norte-americana é possível, mas o cenário ainda é incerto e o câmbio deve passar por volatilidade.

Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, aponta que a expectativa de recuo da moeda norte-americana para valores mais descontados é factível, sobretudo pelo histórico recente da moeda.

Em 2025, o dólar perdeu 11% ante o real. A tendência se manteve nos primeiros meses de 2026, com recuo de até 6% até o início do conflito no Oriente Médio, no fim de fevereiro.

Para o especialista, apesar da alta do dólar ante o real em março, na esteira da valorização da divisa em nível global, a variação não chegou ao nível de overshooting - movimento exagerado e desordenado acima do nível justificável.

"Apesar de todo o risco embutido no conflito, o real se comportou de forma saudável, alcançando patamares próximos a R$ 5,30 nos momentos mais agudos, porém se consolidando no intervalo entre R$ 5,20 e R$ 5,25", diz.

Segundo ele, os fundamentos para a moeda brasileira que favoreceram o câmbio até o início do conflito no Oriente Médio permanecem: fluxo estrangeiro, diferencial de juros e realocação de capital para emergentes.

"Agora adicionamos um novo elemento: o preço do petróleo. Apesar da queda recente, é esperado que a commodity negocie com prêmio nos próximos meses e, sendo o Brasil um exportador relevante, isso impacta diretamente nossa balança comercial e a oferta de dólares na economia."

Soma de combinações

A volta do dólar abaixo do patamar simbólico de R$ 5 depende de um alinhamento de conjunturas positivas nos cenários doméstico e global - gerando mais desafios ao câmbio.

Nessa linha, Patrícia Palomo, economista na Arau Consultoria, vê o recuo da moeda como possível, apesar de esse não ser o cenário base do momento.

Segundo ela, olhando para fora, seria preciso uma redução mais estrutural do risco geopolítico, que retire de forma duradoura o prêmio de risco embutido no petróleo e no dólar.

Do lado doméstico, o Brasil precisaria entregar um vetor de confiança mais robusto com uma combinação de disciplina fiscal crível, redução de incertezas institucionais e manutenção de um diferencial de juros ainda atrativo para fluxos.

O CIO da Gordon Capital, Marco Harbich, concorda com Palomo. Para ele, o dólar próximo de R$ 5 é algo momentâneo, sobretudo considerando os vetores de incertezas que se aproximam, como a disputa eleitoral.

"Estamos passando por um ano eleitoral, então eu acho que no curtíssimo prazo isso [dólar em R$ 5] pode acontecer. Mas se o Trump fala 'o acordo foi violado', pronto, o dólar volta a subir. Então, agora não vejo como algo permanente. Tudo vai depender dos próximos passos", avalia

Harbich alerta que o recuo do dólar nesta quarta-feira está vinculado a três pontos: entrada na bolsa, venda de petróleo e diferencial de juros. O anúncio de Trump em fazer um cessar-fogo com Irã fez com que o fluxo intensificasse. No entanto, para ele, trata-se de um acordo que permanece frágil e pode ser rompido a qualquer momento.

De acordo com o economista Danilo Coelho, o cenário fiscal e as eleições presidenciais ainda são entraves para a queda expressiva do dólar.

"Nós ainda temos bastante desafios aqui pela frente com o fiscal. Ainda tem a eleição pela frente e uma volatilidade relevante para ser considerada no preço da moeda. É pouco provável que a gente tenha essa dinâmica de dólar abaixo de R$ 5 daqui para frente", afirma.

Shahini, da Nomad, avalia, observando os preços atuais, que o mercado ainda não parece precificar de forma relevante o cenário eleitoral, o que torna difícil afirmar o quanto do risco político já está incorporado.

"Minha leitura é que isso deve ganhar mais força a partir do segundo semestre, quando o chamado “trade eleitoral” tende a se tornar mais presente nos preços."

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