Disney é criticada após agradecer governo de Xinjiang nos créditos de 'Mulan'


Ben Wescott e Selina Wang, do CNN Business
09 de setembro de 2020 às 05:00
Cena do live-action de 'Mulan'

Cena do live-action de 'Mulan'

Foto: Divulgação/Disney

A Disney publicamente agradeceu a uma agência do governo chinês acusada de violar direitos humanos na região de Xinjiang pela ajuda na produção de 'Mulan' —uma revelação que provocou uma chuva de críticas na internet.

A Disney agradece a vários órgãos governamentais nos créditos do remake em live-action do desenho animado homônimo de 1998, mas alguns em particular acenderam sinais de alerta: o departamento de publicidade do governo de Xinjiang e o os escritórios de turismo e segurança pública de Turpan, uma cidade de cerca de 633.400 habitantes próxima da capital de Xinjiang, Urumqi.

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A Disney não respondeu ao contato do CNN Business pelo seu canal de atendimento à imprensa nem a assessores de imprensa americanos sobre o filme e os créditos. Não está claro quanto de 'Mulan' foi filmado em Xinjiang, apesar de relatos nas redes sociais de pessoas que trabalharam no filme e entrevistas indicarem que eles filmaram lá.

O Departamento de Estado dos EUA estima que, desde 2015, até 2 milhões de uigures, de maioria muçulmana, e outras minorias de etnia turca foram presos em campos de reeducação gigantescos em Xinjiang.

O escritório de segurança pública de Turpan foi listado pelo governo americano como uma organização envolvida nas "violações e abusos de direitos humanos" na região.

Pequim defende há tempos a repressão em Xinjiang como necessária para lidar com extremismo e terrorismo, e disse que está alinhada com a lei chinesa e a prática internacional, chamando as acusações de detenção em massa de "mentira sem embasamento" e "rumor sensacionalista". Um porta-voz do Ministério do Exterior do país reiterou nesta terça-feira (8) a defesa do que chamou de "centros de treinamento e educação em habilidades vocacionais" de Xingjiang.

O CNN Business contatou com o governo de Xinjiang e o escritório de turismo de Turpan, mas o escritório de segurança pública de Turpan não pôde ser encontrado para comentar. 

"Não há o que chamam de campos de concentração em Xinjiang", disse o porta-voz do Ministério do Exterior da China, Zhao Lijian. "O estabelecimento de centros de treinamento e de educação em habilidades vocacionais em Xinjiang, de acordo com a lei, é uma tentativa útil e exploração ativa de contraterrorismo preventivo e de desradicalização." 

Mas as conexões entre Xinjiang e 'Mulan' suscitaram amplas críticas nas redes sociais desde a estreia da produção na última sexta-feira (4) no Disney+, a plataforma de streaming da companhia. Defensores dos direitos humanos agora pedem à Disney para divulgarem quaisquer acordos com o governo chinês para fazer as gravações na região. 

"É profundamente perturbador que a Disney tenha pensado que era ok fazer parcerias e também agradecer departamentos do governo, especificamente departamentos de propaganda, e um escritório de segurança pública de uma região na China que é conivente com genocídio", disse Isaac Stone Fish, membro sênior da Asia Society, uma ONG de Nova York que foca na conscientização sobre os acontecimentos do continente.

Produção marcada por contratempos

A Disney esperava que 'Mulan' fosse um grande sucesso na lucrativa bilheteria chinesa, agora a segunda maior do mundo. A companhia se pronunciou no ano passado sobre a dedicação em fazer com que o filme fosse preciso culturalmente —declarações que foram reconhecidas na mídia estatal chinesa.

"Nós passamos muito tempo no começo com estudiosos, especialistas e pessoas da região. E nós passamos muito tempo na China", disse Sean Bailey, presidente de produção cinematográfica do Walt Disney Studios em uma exposição da Disney no ano passado, de acordo com a agência de notícias estatal Xinhua. Ainda de acordo com o veículo, Bailey acrescentou que o estúdio "não só tem um elenco chinês mas também trouxe um produtor chinês para fazer o filme com eles".

Evitando a musicalidade do filme em desenho animado de mesmo nome, um analista de bilheterias de cinema disse ao CNN Business mais cedo neste ano que o épico em live-action teria sido "feito sob medida para o sucesso". 

Mas o filme —que é baseado numa tradicional lenda chinesa sobre uma guerreira que se disfarçou de homem para ocupar o lugar de seu pai no exército —enfrentou controvérsias e contratempos.

Em agosto de 2019, ativistas pró-democracia em Hong Kong pedirram o boicote de 'Mulan' após a atriz principal demonstrar apoio pela polícia do território em sua conta nas redes sociais. 

"Eu apoio a polícia de Hong Kong. Vocês podem me atacar agora. Que vergonha para Hong Kong", publicou Liu Yifei, a atriz americana que nasceu na China e faz o papel de Hua Mulan, em sua conta oficial no Weibo. Na época, a polícia de Hong Kong enfrentava acusações de violência excessiva contra os manifestantes (a polícia de Hong Kong defendeu suas ações em setembro de 2019, dizendo que foram "muito comedidos").

Então, em março, a Disney foi forçada a adiar o filme após a pandemia do novo coronavírus fechar os cinemas.

Até agora, o lançamento ainda foi imperfeito. O filme foi disponibilizado pelo preço de US$ 30 (aproximadamente R$ 161) no Disney+, que só opera em alguns países, incluindo os Estados Unidos. A produção irá fazer sua estreia nos cinemas chineses neste fim de semana. (A Disney+ não está disponível na China.) 

O lançamento do filme reacendeu a controvérsia em seu entorno. Ativistas pró-democracia em Hong Kong, na Tailândia e em Taiwan novamente pediram o boicote do longa pelas declarações de Yifei no ano passado. 

E ainda não é claro se o enredo irá conquistar a audiência chinesa, que já não gostava muito da versão original por conta de seu jeito ocidentalizado e revisão infiel da lenda original. 

Após o lançamento do trailer em 2019, o veículo estatal chinês Global Times criticou o filme por usar "gestos ninja" japoneses e estereótipos chineses. 

Pedidos de transparência

As acusações de violação de direitos humanos em Xinjiang acontecem há anos. 

Nos últimos tempos, o governo da região teria começado uma ampla campanha para deter e reeducar minorias muçulmanas na região, especialmente a grande população uigure.

Evidências de violação generalizada de direitos humanos vazaram de dentro da região, incluindo detenções prolongadas, abuso, doutrinação e controle de natalidade em massa —o que os especialistas descreveram como evidências de "genocídio". 

Em 2017, o diretor de Mulan Niki Caro publicou uma foto de Urumqi, a capital de Xinjiang, e disse que ela estava procurando locações para o filme. Em uma entrevista em setembro para a publicação Conde Nast Traveler, o designer de produção Grant Major discutiu as filmagens no deserto de Talklamakan, no sudoeste de Xinjiang.

Adrian Zenz, um líder acadêmico da Fundação para Vítimas do Comunismo que ajudou a publicar várias matérias sobre Xinjiang, disse que o caso documentado mais antigo de um centro de reeducação foi em Turpan em 2013. 

Zenz disse que enquanto era possível que a Disney não soubesse sobre o número crescente desses estabelecimentos em toda a região, a opressão generalizada no território era impossível de não notar. 

"Havia delegacias e postos de controle em toda a Xinjiang no fim de 2016, impossível de não notar", disse.

O porta-voz do ministério do Exterior Zhao negou as alegações de Zenz e o acusou de ganhar dinheiro "fabricando rumores relacionados à Xinjiang e difamando a China". Ele também afirmou que não houve casos de violência ou terrorismo na região por "mais de três anos consecutivos". 

Turpan também foi o cenário de uma das piores erupções de violência étnica em Xinjiang nos últimos anos, quando 35 pessoas morreram durante um ataque a uma delegacia na cidade de Lukqun, em 2013, de acordo com a mídia estatal.

Yaqiu Wang, uma pesquisadora da China para a Human Rights Watch, pediu à Disney para divulgar que assistência recebeu das autoridades de Xinjiang e quais acordos teve de fazer com o governo local. 

Stone Fish, da Asia Society, disse que muitas empresas estão acostumadas a fazer concessões ao partido Comunista para terem acesso ao mercado chinês.

"Os estúdios acham que precisam fazer essas concessões para estarem em Pequim, mas você pode censurar um pouco os seus filmes para entrar no mercado chinês, você pode trazer filmes que não mereciam estar nos EUA por sua qualidade ruim ou elementos de propaganda aos EUA. E você pode fazer isso e manter sua integridade, em grande parte, intacta", disse.

"Você não precisa dar esses passos extra que a Disney está dando, e eles estão sendo escrachados por eles com razão."

(Texto traduzido, leia o original em inglês).