Produtores e empresários avaliam a possibilidade de cancelamento do Carnaval

A CNN conversou com quem trabalha com grandes eventos para saber o que pensam esses profissionais sobre mais um ano sem a festa mais popular do Brasil

Bloco paulistano A Espetacular Charanga do França
Bloco paulistano A Espetacular Charanga do França Alexandre Pereira/Divulgação

Alexandre Matiascolaboração para a CNN

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Mesmo com a aceitação e o avanço da vacinação no Brasil, que tem permitido a volta de eventos que realizam grandes aglomerações a partir de restrições específicas sobre protocolos de segurança em relação ao Covid-19, a variante Ômicron acendeu a luz amarela em relação às festas de fim de ano e ao Carnaval do ano que vem.

Apesar da letalidade da variante ainda não seja preocupante e que boa parte dos brasileiros já tenham tomado as duas doses da vacina, existe a possibilidade de novas variantes surgirem, o que faz com que produtores e empresários tenham cautela redobrada em eventos que reúnam um grande número de pessoas.

Tanto que prefeituras e governos em todo o País já estão cancelando as festas de fim de ano e cogitando a possibilidade de não termos Carnaval pelo segundo ano consecutivo. CNN ouviu alguns destes profissionais sobre restringir a realização destas festas populares nos próximos meses.

 

Gilberto Gil e Expresso 2222

Gilberto Gil durante show em Lisboa – turnê do cantor durou 50 dias / Reprodução/Instagram

“A gente acabou de chegar da Europa, depois de dois anos guardadinhos em casa. Retomamos uma turnê pela Europa que deveria ter começado em março de 2020, e fizemos 20 shows em 50 dias. Vamos agora para a Sala São Paulo, com a Orquestra, com plateia reduzida e depois Salvador, onde passamos Natal e Ano Novo – sem nem pensar em fazer shows. Em janeiro, teremos festivais ao ar livre e que não são gratuitos, com checagem de cartão de vacina…”

Tanto produtores quanto artistas têm responsabilidade de ambos os lados. A pandemia não acabou e a aglomeração multiplica a doença. E o Carnaval é ‘a’ aglomeração no verão no Brasil. Não dá para fazer uma festa em que você peça para o folião usar máscara. Folião quer beber cerveja, beijar na boca, quer azaração. A gente não está fazendo o Carnaval de máscara em Veneza no inverno.”

 

Talvez tenham preferido cancelar o Réveillon pra tentar fazer o Carnaval…

 

“Pode ser um jeito de ganhar força para fazer o Carnaval – talvez esse seja o raciocínio de alguns governantes e prefeitos. Eu acredito que quanto mais rigor, juízo e responsabilidade a gente tiver agora, a gente vai colher ali na frente. Não dá pra chutar o balde. A gente só está seguindo com a contratação quando a gente tem a certeza da seriedade do contratante em relação tanto à saúde dos artistas e da plateia. Já dispensamos convites para shows e festas fechadas, porque para a gente não interessa. Tem que ter respeito, eu tenho pela minha vida e tenho que ter pela vida dos outros, por isso, não sei se vai ter Carnaval no Brasil, mas o Expresso 2222 não vai sair, com certeza, te garanto.”

Flora Gil, empresária, produtora e esposa de Gilberto Gil, organiza o camarote Expresso 2222

 

Coquetel Molotov

Marina Sena, uma das atrações do festival Coquetel Molotov neste ano, em Recife / Fazemos/Divulgação

O Coquetel Molotov foi o primeiro festival independente a realizar uma edição presencial, por isso sentimos a responsabilidade e foi muito importante seguir todos os protocolos exigidos rigorosamente. Para entrar no festival era obrigatório apresentar a carteira de vacinação – com duas doses ou uma dose e um teste de PCR negativado, além da obrigatoriedade de usar máscara dentro do teatro. Foi incrível entender que é possível voltar com segurança. Por isso, estava superpositiva com a realização do Carnaval, mas essa expectativa foi diminuindo nas últimas semanas.”

O país está avançando na campanha da vacinação, mas ainda temos um número muito grande de pessoas que não tomaram a sua segunda dose.

“Acredito que a junção de vacinados com imunizados está mostrando ser eficaz, pois os números de hospitalizados diminuíram bastante, mas é arriscado realizar uma aglomeração do tamanho do Carnaval. A nova variante já demonstra ser supercontagiosa e menos letal, mas provavelmente teremos diversas variantes daqui pra frente. Parece ser mais sensato só pensar em um Carnaval em 2023. Isso vai ser muito trágico para o nosso mercado, não ter Carnaval pelo segundo ano é uma perda financeira muito grande para os artistas e turismo. Imagino que festas privadas irão acontecer, mas isso não representa as manifestações populares, nem movimenta da mesma forma artistas, produtores e equipes técnicas.”

Ana Garcia, organizadora do festival pernambucano Coquetel Molotov

 

Bloco A Espetacular Charanga do França, São Paulo

Bloco A Espetacular Charanga do França, que sai pelas ruas de São Paulo/ Alexandre R. Pereira/Divulgação

Desde o princípio a prefeitura de São Paulo deixou claro no cadastro dos blocos que o Carnaval só seria realizado se fosse viável do ponto de vista sanitário, e é nesse espírito que eu estou preparando a Charanga, para sair se puder. Estava achando estranho haver agora, em dezembro, maior preocupação com o Carnaval no fim de fevereiro do que com o Réveillon, que acontece em menos de um mês, mas isso tem a ver com o forte elemento político que o Carnaval carrega e que o Réveillon não tem.”

 

Para além da pandemia, é importante entender que existem decisões políticas sendo feitas disfarçadas de preocupação sanitária, como, por exemplo, cidades cancelando Carnaval sem nunca ter tido evento.

 

“É essencial lembrar que setores conservadores da sociedade são abertamente contra a festa, e essa decisão conversa diretamente com o eleitorado em ano de eleição. Mesmo em cidades que são famosas pelo Carnaval, isso vem vetando eventos públicos e permitindo os privados, que é uma briga antiga entre quem faz Carnaval e quem se aproveita economicamente da festa. E nesse sentido, a pandemia se tornou uma oportunidade de ouro para ceder à pressão das marcas patrocinadoras.”

Thiago França, organizador do bloco paulistano A Espetacular Charanga do França

 

Salvador Produções

Estamos com uma expectativa excelente para o Réveillon deste ano, os eventos privados estão vendendo bem e teremos uma virada de ano fantástica, para esquecer a questão da pandemia. Com fé em Deus vamos ter um ano melhor, 2022 virá com muita luz. Para o Carnaval do ano que vem é a expectativa que teremos os eventos privados, já que não haverá Carnaval de rua. Os eventos privados serão uma alternativa para o público que virá para Salvador. Já está mais do que comprovado que os eventos que cobram a segunda dose da vacina são superseguros. A própria vacinação está vindo muito forte e muito bem aceita pelo nosso país.”

 

Não entendemos o motivo de não realizar grandes eventos, obviamente desde que se exija a obrigatoriedade da segunda dose.

“Vida normal, vida que segue para todas as pessoas vacinadas, com risco praticamente zero de acontecer algo com essa pessoa. Temos que realizar os grandes eventos, como estão acontecendo nos estádios de futebol e também em vários outros estados e aqui não pode ser diferente. A gente não acha perigoso porque a própria medicina, a própria ciência está constatando que a partir de duas ou três doses das vacinas, ela não pega nenhum tipo de variante.  Graças a Deus essa última variante ainda não tem comprovação de avanço letal, apenas de contágio, e com a vacinação em massa a gente não vê possibilidade alguma de retroceder e ter algum tipo de situação que proíba o Réveillon e o Carnaval. Achamos superprecipitado em não constatar nenhum tipo de situação letal e com isso evitar que as pessoas tenham um grande Réveillon e um grande Carnaval. Mas estamos aguardando as decisões dos governantes e das pessoas cabíveis responsáveis para tomar essa decisão.”

Marcelo Britto, CEO da Salvador Produções e presidente do braço baiano da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos

 

Rec Beat, Recife

Rec Beat, festival do Recife que chega a receber de 15 a 20 mil pessoas por dia/ José Britto/Divulgação

“O Rec Beat acontece sempre durante o Carnaval e a gente já começou a planejar a edição de 2022. Só que nos últimos dias veio a notícia dessa nova cepa do coronavírus e, no Recife, quem determina esses protocolos é o governo do estado. E eles já deram o sinal de alerta dizendo que só vão falar do Carnaval no início de janeiro. Estamos na expectativa.

Analisando a tendência em relação ao Réveillon é bem provável que venham restrições ao Carnaval.

“Portanto, estou continuando a prospectar bandas, para um festival aberto, como a gente faz sempre, recebendo 15 a 20 mil pessoas por dia, no que seria a 26ª edição do festival. Mas faço um evento fechado no dia 21 de janeiro, parceria entre o Rec Beat e a festa Odara, com show da Marina Sena como âncora. Adoraria fazer o festival como sempre, mas estamos achando com a possibilidade de ficar mais um ano sem ter o Carnaval em sua totalidade. Por isso, estou pensando num plano B que é fazer um Rec Beat fechado, menor, caso a gente não consiga fazer essa edição aberta.”

Antonio Gutierrez, o Gutie, organizador do festival pernambucano Rec Beat

Radioca, Bahia

Festival Radioca, em 2019 / Rafael Passos/Divulgação

“Acho prudente, infelizmente, não ter Réveillon e Carnaval. Réveillon já está em cima, tem menos de um mês e não tem a menor condição de aglomerar tanta gente. O Brasil tá bem, numa situação bem mais confortável, mas a gente não sabe o que vai acontecer em dois ou três meses. Vejo muita gente comparando show e estádio de futebol com Carnaval, mas nada dá pra se comparar com o Carnaval.”

 

Carnaval são milhões de pessoas ao mesmo tempo na rua, pessoas de vários lugares circulando, estrangeiros e turistas de tudo que é canto num ambiente que ninguém vai ter cuidado.

“É um ambiente de bebida, de troca de fluidos, muito suor e aglomeração. É inevitável que não se tenham cuidados adequados, são milhões de pessoas, uma multidão bem mais incontrolável. E mesmo os shows e grandes eventos que estão voltando devem ter mais cuidado. Estou sentindo que as pessoas não estão tendo nenhum cuidado, parece que a pandemia acabou. Fui em eventos com muita gente e a maior parte das pessoas não estavam nem usando máscara e artistas estimulando trocar beijos, trocar abraços. Acho que é preciso uma atenção para não piorar a situação. A gente está melhorando, com 2022 que parece que vai ter uma volta dos shows e dos festivais, só que a gente não pode deixar de tomar os cuidados agora. Não faz muito sentido fazer eventos da envergadura do réveillon e do carnaval.”

Luciano Matos, organizador do festival baiano Radioca

 

Bloco Ritaleena, São Paulo

Cortejo do bloco Ritaleena, no pré-carnaval de Sao Paulo, realizado na rua dos Pinheiros, em 2020 / Julia Chequer/Divulgação

Não sei se dá pra construir uma expectativa, porque a cada semana esta expectativa é quebrada, mas todo o processo tem sido bem desgastante, complexo e frustrante. De todos os Carnavais que o Ritaleena fez este é sem dúvida alguma o mais difícil. Com a nova variante, todo o planejamento do Carnaval por parte dos blocos levou um tiro. Blocos que precisam de captação, como o Ritaleena, estão com problemas com marcas, que estão muito receosas em relação a patrocinar blocos de carnaval e a gente entende porque.”

“E a gente não tem uma data pra definir isso, está tudo muito no ar. É muito frustrante. Acho que a prefeitura vai dar um posicionamento mas com um mês de antecedência e o que resta pros blocos é a encruzilhada de conseguir levantar o circo do bloco, planejar tudo e pagar tudo em um mês? Se você consegue, desfila. Senão, fica difícil. A solução são eventos fechados, que tiram a rua da jogada, o que para as festas democráticas é terrível, ainda com uma retórica conservadora que vai deitar e rolar. O que a gente tem pensado é que todo mundo fica falando que vai ter ou não ter Carnaval, mas agora a gente acha que vai ter e não ter: vai ter o Carnaval e esse não-Carnaval acontecendo simultaneamente.”

Alessa, organizadora do bloco paulistano Ritaleena

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