Tecon 10: impasse sobre leilão adia expansão do Porto de Santos

Terminal teve cronograma postergado nove vezes enquanto governo tenta construir consenso sobre regras concorrenciais do certame

Jenifer Ribeiro, da CNN Brasil, Brasilia
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Embora o leilão do Tecon Santos 10, o megaterminal previsto para o Porto de Santos (SP), seja considerado o principal projeto portuário em estruturação no país, ele se tornou um dos processos mais complexos da agenda de infraestrutura do governo federal.

Previsto inicialmente para ocorrer ainda em 2022, o certame já foi adiado nove vezes e, agora, a expectativa do Ministério de Portos e Aeroportos é realizar a licitação apenas em 2027. O principal entrave do projeto está na definição das regras de participação dos concorrentes no leilão.

O debate ocorre em um momento em que o Porto de Santos opera próximo do limite de sua capacidade para movimentação de contêineres. A escassez de áreas disponíveis levou ao aumento expressivo dos custos logísticos nos últimos anos, enquanto operadores e exportadores alertam para o risco de perda de competitividade caso novos investimentos não sejam realizados.

Neste cenário, o megaterminal tem potencial para ampliar em cerca de 50% a capacidade de movimentação de contêineres do porto e é visto como uma das soluções logísticas para a região.

Porém, embora haja consenso sobre a necessidade do novo terminal, o modelo concorrencial divide governo, operadores portuários, armadores, entidades empresariais e órgãos de controle desde o início do desenho do projeto.

Debate concorrencial

No centro da discussão está a definição sobre quem poderá disputar o leilão. De um lado, a avaliação é a de que permitir a participação irrestrita de grupos que já operam terminais de contêineres em Santos pode originar uma concentração de mercado no maior porto do país.

O professor da FGV e sócio da GO Associados, Gesner Oliveira, defendeu o modelo criado pela Antaq para o leilão do terminal com duas fases. "É urgente aumentar a capacidade do Porto de Santos. Para isso, precisa haver concorrência. Uma infraestrutura essencial como um porto não funciona bem e não é eficiente quando é dominado por poucos. Essa é a relevância do edital da Antaq, que justamente prevê um mecanismo correto, plenamente utilizado em vários casos no mundo e no Brasil, para assegurar a concorrência no mercado", disse.

Em 2025, a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) divulgou parecer técnico restringindo a participação de grupos que já operam terminais de contêineres no Porto de Santos para uma segunda fase.

O desenho inicial da agência estabelecia que empresas já presentes no porto só poderiam entrar na disputa caso o leilão terminasse sem propostas. Nessa hipótese, a participação estaria condicionada ao desinvestimento dos ativos a fim de evitar concentração de mercado.

Essa restrição atinge empresas que gerenciam os três terminais do porto (BTP, Santos Brasil e DP World), inclusive os armadores - donos de navios - que são sócios dessas áreas.

Porém, quando o projeto foi analisado pelo TCU (Tribunal de Contas da União), os ministros recomendaram à agência reguladora que todos os armadores ficassem restritos à segunda fase do certame.

A partir dessa decisão, a discussão que já estava desgastada foi inflamada. Isso aconteceu porque, se atendidas as recomendações da Corte de Contas, o leilão ficaria ainda mais restrito.

Do outro lado, há quem defenda um modelo de ampla concorrência, sem restrições prévias à participação e com travas concorrenciais, como desinvestimento posterior.

O argumento é que permitir a entrada do maior número possível de interessados aumenta a competição no certame, reduz riscos de concentração de mercado e tende a gerar ganhos de eficiência e menores custos para usuários do porto.

À CNN, o jurista José Cardozo disse que o terminal é essencial para "resolver esse problema, esse estrangulamento que existe e que acaba atrapalhando a economia do país. Urge que se faça uma licitação com dois princípios casados: a maior competitividade possível, mas, com pessoas que efetivamente tenham condições de disputar a licitação sem ferir algum dispositivo legal e o interesse público. Portanto, condição e respeito às condições de habilitação é o equilíbrio necessário para uma licitação".

Depois da nota técnica da Antaq e da análise do TCU, a Casa Civil se posicionou sobre o desenho do projeto do megaterminal. A orientação foi por um leilão aberto com a participação de todos os operadores, inclusive os que já operam no Porto de Santos - condicionado ao desinvestimento nos ativos em caso de vitória.

Essa nova orientação foi encaminhada uma primeira vez ao Ministério de Portos e Aeroportos e à Antaq. Porém, a agência reguladora pediu diretrizes mais claras para modelar o projeto com base nas novas definições da presidência.

Diante disso, após muita conversa no Executivo, ficou definida a criação de um grupo de trabalho para tratar do tema e elaborar um documento com as diretrizes da Casa Civil. Até o momento, o grupo está ativo e se reunindo, porém, nenhuma decisão concreta foi anunciada.