Por que o principal dia das eleições nos EUA é sempre na terça-feira

O Código de Leis do país prevê que a votação presidencial precisa ser ‘na terça-feira seguinte à primeira segunda-feira de novembro’

Jéssica Otoboni, da CNN, em São Paulo
27 de outubro de 2020 às 05:00
Pessoas aguardam em fila para votar de forma antecipada em Houston, no Texas
Foto: Go Nakamura - 13.out.2020 / Reuters

A legislação norte-americana estabelece uma data específica para as eleições presidenciais, realizadas de quatro em quatro anos. “Os eleitores de presidente e vice-presidente serão escolhidos, em cada estado, na terça-feira seguinte à primeira segunda-feira de novembro”, diz o Código de Leis dos Estados Unidos.

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A data foi estabelecida em 1845. Antes disso, cada estado do país escolhia o próprio dia de votação dentro de um período de 34 dias antes da primeira quarta-feira de dezembro. Mas o desenvolvimento da tecnologia e das comunicações levou a uma preocupação de que regiões que votassem antes pudessem influenciar as demais.

Por que terça-feira?

Na época em que a lei sobre a data foi firmada, a maioria dos cidadãos trabalhava em fazendas. Não havia muitas rodovias no país e as que existiam não estavam em bom estado. Com os meios de transporte existentes – carruagens e cavalos –, os norte-americanos podiam levar um dia inteiro para chegar a um local de votação. 

Segundo informações do governo dos EUA, a terça-feira, então, foi escolhida para evitar que os eleitores fossem às urnas no domingo (dia reservado aos cristãos para ir à igreja) ou no sábado (dia de oração para os judeus), e para que eles retornassem para casa antes de quarta-feira, dia do comércio para os fazendeiros. 

Muitos deles, inclusive, transportavam as safras de quarta a sexta-feira para vender. Sendo na terça, os eleitores podiam orar normalmente no domingo e contavam com uma janela de dois dias para voltar a tempo do comércio.

Por que novembro?

As razões para a escolha do mês também estão relacionadas à agricultura. Durante a primavera e parte do verão, os fazendeiros plantavam e cultivavam as safras. No fim do verão e começo do outono, era o período de colheita. 

Em novembro, o trabalho estava encerrado e os fazendeiros poderiam se deslocar para votar sem preocupações. Além disso, o mês antecedia a época mais rigorosa do inverno, o que dificultaria as viagens até os locais de votação.

Por que terça-feira após primeira segunda?

Por dois motivos. Primeiro, os parlamentares queriam garantir que as eleições nunca caíssem em 1º de novembro – Dia de Todos os Santos, um dia sagrado para os católicos romanos.

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Segundo, a maioria dos comerciantes tinha o costume de fazer um balanço do mês anterior no dia 1º. Acredita-se que o Congresso temia que uma trajetória positiva ou negativa na economia nos 30 dias anteriores pudesse influenciar o voto.

O dia da votação é feriado?

Sim, mas somente em alguns estados, como Virgínia, Delaware, Havaí, Kentucky, Nova York, New Jersey e o território de Porto Rico. Normalmente, órgãos públicos permanecem fechados no dia das eleições nessas regiões, mas cabe a cada uma delas determinar se os funcionários de empresas privadas têm direito a uma licença remunerada para votar.

Em uma entrevista à CNN em abril deste ano, o cientista político Norm Ornstein, do Instituto American Enterprise, grupo norte-americano de estudos sobre governo e política, disse que tornar o dia da votação um feriado pode levar a uma maior participação no pleito. Isso porque geralmente as pessoas que desejam votar precisam ir antes do trabalho ou depois, no fim do dia, e as filas ficam enormes, desencorajando muitas delas.

“Um feriado significa que as pessoas podem votar quando for conveniente. E também quer dizer que mais locais de votação, como escolas, podem ficar disponíveis”, disse Ornstein.

Por outro lado, ele afirmou que há um argumento contra essa ideia. “Acrescentar um novo feriado pode ser custoso para a economia. Poucas pessoas trabalhando pode significar menor atividade econômica.”

E a população, o que pensa sobre isso?

Segundo uma pesquisa feita pelo instituto Pew Research Center em 2018, 65% dos norte-americanos são favoráveis a tornar o dia da eleição um feriado. E o apoio é de ambos os lados: 71% dos democratas e 59% dos republicanos.

Ao longo dos anos, algumas propostas foram apresentadas ao Congresso em busca disso. Contudo, até hoje nenhuma foi adiante. 

Em julho deste ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, sugeriu adiar as eleições por causa da pandemia de Covid-19 – e também porque ele acredita que a votação pelo correio será imprecisa e fraudulenta. Mas a decisão não caberia a ele, e sim ao Congresso do país.

Apesar de o novo coronavírus ter conseguido adiar e cancelar muitos eventos pelo mundo, a possibilidade de alterar a eleição nos EUA é muito remota. Na verdade, de acordo com a emissora National Geographic, a data da votação foi mantida mesmo em situações extremas e atípicas, como durante a Guerra de Secessão, a gripe espanhola e a Grande Depressão.