Estados Unidos podem não voltar ao normal até 2022, diz Fauci


Madeline Holcombe, Holly Yan e Amir Vera, da CNN
29 de outubro de 2020 às 16:09
Profissional analisa testes para detecção da Covid-19

Profissional analisa testes para detecção da Covid-19

Foto: Josué Damacena - 31.mar2020/Fiocruz

Como os casos do novo coronavírus continuam subindo nos Estados Unidos, o médico Anthony Fauci, principal autoridade norte-americana em doenças infecciosas, diz que há pouca chance de normalidade no horizonte.

Os EUA terão uma vacina nos próximos meses, mas há uma chance de uma “proporção substancial das pessoas” não ser vacinada até o segundo ou terceiro trimestre de 2021, segundo o especialista, que é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. Ele reiterou a cautela quanto às perspectivas do país.

“Acho que será facilmente no final de 2021, e talvez até no ano seguinte, a época em que começaremos a ter alguma aparência de normalidade”, disse Fauci durante um painel de discussão da Universidade de Melbourne na terça-feira (27). Para ele, o cenário não parece muito bom para os EUA com a aproximação do inverno.

Vinte e nove estados registraram em outubro novos recordes de casos diários, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins (JHU).

“Não estamos em uma boa posição”, afirmou Fauci durante uma sessão virtual de perguntas e respostas na quarta-feira (28). “Agora estamos com uma média de cerca de 70 mil por dia. Essa é uma posição ruim para se estar.”

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E a questão não é só de testes. O número médio de novos casos diários na semana passada aumentou 21% em relação à semana anterior, de acordo com a JHU. Mas os testes aumentaram apenas 6,63% no mesmo período, de acordo com o Covid Tracking Project.

“Estamos subindo rapidamente. Se voltarmos cerca de seis, sete semanas atrás, para o Dia do Trabalho (7 de setembro), tínhamos cerca de 35 mil casos por dia” disse o doutor Ashish Jha, reitor da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown. “Não será uma surpresa se chegarmos a 100 mil [novos casos por dia”, disse Jha.

Pelo menos 73.240 novos casos nos EUA e 985 mortes foram relatados na terça-feira (27), de acordo com a JHU.

O aumento atinge todas as regiões do país. De acordo com a JHU, na quarta-feira (28), 40 estados estavam tendendo na direção errada, com pelo menos 10% a mais de novos casos em comparação com a semana anterior.

Missouri é o único estado com pelo menos 10% menos casos, e os nove estados restantes estão relativamente estáveis. E com mais casos vêm mais hospitalizações e mortes.

Sem mudanças, 500 mil pessoas morrerão

Em outubro, 11 estados relataram o dia com mais mortes desde o início da pandemia.

Como a vacina provavelmente não estará disponível para a maioria dos norte-americanos até meados do próximo ano, a responsabilidade pessoal será fundamental para salvar vidas.

Casos confirmados de Covid-19 nos EUA continental até 28/10

Casos confirmados de Covid-19 nos EUA continental até 28-10

Foto: Reprodução/Universidade Johns Hopkins

“Se continuarmos nosso comportamento atual, quando começarmos a descer do outro lado da curva meio milhão de pessoas estarão mortas”, disse o analista médico da CNN, Jonathan Reiner, professor de medicina da George Washington University.

Para Fauci, não há dúvida de que as máscaras fazem a diferença.

“Se você não quer fechar [os negócios], pelo menos faça a coisas básica e fundamental, que é usar uma máscara”, disse. “Não podemos ter esse uso inconsistente que vemos, no qual alguns estados absolutamente se recusam a usar máscaras”.

Fauci acrescentou que a politização das máscaras deve parar. “Quase virou uma declaração política. Temos que fugir disso”, afirmou.Nas condições atuais, o número diário de óbitos nos EUA está projetado para chegar a 2.000 até 1º de janeiro, de acordo com o Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington.

Nos últimos nove meses, mais de 8,8 milhões de pessoas nos EUA foram infectadas com coronavírus, e mais de 227 mil morreram.

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Ameaças à capacidade hospitalar

Mesmo depois de montar um hospital de campanha no pavilhão de feiras do estado, Wisconsin está enfrentando uma batalha terrível relacionada à lotação de seus hospitais.

"Não dá para dourar a pílula. Estamos enfrentando uma crise urgente e há um risco iminente para você e sua família”, disse o governador Tony Evers.

Em Ohio, as internações em UTIs dobraram desde o início deste mês, de acordo com o governador Mike DeWine.

O Colorado também está preocupado com a quantidade de leitos hospitalares, já que o número de novos casos diários disparou este mês.

“Se essas tendências continuarem, vamos superar o número de internações de maio”, afirmou o governador Jared Polis.

“E o modelo sugere que, se não mudarmos o que estamos fazendo, isso excederá toda a capacidade hospitalar existente até o final do ano. Essa coisa se move rápido e precisamos mudar a maneira como vivemos.”

A cidade e o condado de Denver reduziram a ocupação máxima permitida de restaurantes, lojas e algumas outras empresas de 50% para 25%, de acordo com um comunicado na terça-feira (27).

“Estamos fazendo isso como uma chamada a todos, pois temos a responsabilidade de mais uma vez colocar as mãos nesta rocha e começar a empurrá-la morro acima", disse o prefeito de Denver, Michael Hancock.

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Vacina terá distribuição equitativa

Embora 44 vacinas tenham chegado aos testes clínicos, pode não ficar claro qual funciona melhor – ou se alguma funciona – até que elas sejam autorizadas e distribuídas para muitas pessoas, segundo informou uma equipe de especialistas na terça-feira (27).

“É difícil de avaliar a proteção contra doenças graves e morte em ensaios clínicos de fase 3 devido ao grande número de participantes necessários”, declararam os especialistas, liderados pela doutora Susanne Hodgson, do Instituto Jenner da Universidade de Oxford, em um artigo na revista “The Lancet Infectious Diseases”.

Esses dados podem vir apenas “de grandes testes de fase 4 ou estudos epidemiológicos feitos após a implantação generalizada de uma vacina”.

No entanto, se uma vacina for aprovada, as autoridades disseram que a distribuirão rapidamente, embora alguns norte-americanos tenham que esperar mais tempo do que outros.

“Vamos distribuir vacinas, adequadamente, para todos os Estados Unidos simultaneamente”, afirmou o general do Exército Gustave Perna, chefe de operações da resposta do governo federal ao coronavírus, em um evento online organizado pelo grupo conservador Heritage Foundation.

“Vamos garantir que haja uma distribuição equitativa de acordo com essa prioridade”. Depois disso, os estados “deterão a distribuição e administração finais reais até os braços individuais”.

Deixar a distribuição da vacina totalmente nas mãos dos estados pode levar à confusão e ao caos, de acordo com Kathleen Sebelius, que foi secretária de Saúde e Serviços Humanos do ex-presidente Barack Obama.

“A abordagem de estado por estado é, sendo bastante sincera, muito maluca na minha opinião”, opinou Sebelius. “Isso deixa uma alta possibilidade de distribuição muito injusta e um tipo de transporte caótico para chegar aos locais de vacinação”.

Até que uma vacina esteja disponível, os especialistas dizem que o distanciamento social, o uso de máscaras e a permanência em uma bolha selecionada de pessoas são cruciais para ajudar a acabar com a pandemia.

Amanda Watts da CNN, Shelby Lin Erdman, Lauren Mascarenhas, Devon Sayers e Amir Vera contribuíram para esta reportagem.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)