Vitória de Biden marca ano em que eleições superaram pandemia pelo mundo

Estados Unidos e Brasil estão entre os países que precisaram adaptar seus processos eleitorais para garantir a votação em meio à pandemia do novo coronavírus

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
16 de dezembro de 2020 às 05:00
Retrospectiva 2020: As principais eleições do ano
Foto: CNN Brasil

Mesmo com a pandemia do novo coronavírus modificando muitos dos aspectos diários das nossas vidas, um ponto chave para a manutenção da democracia foi mantido em 2020, ainda que com alguns ajustes: as eleições.

Para garantir a votação diante dos riscos da Covid-19, no Brasil, o Congresso Nacional aprovou a proposta de emenda à Constituição (PEC) que adiou as eleições municipais, previstas para outubro, para os dias 15 e 29 de novembro, após articulação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso.

Já os Estados Unidos ampliaram o prazo para os eleitores que votaram antecipadamente ou pelo correio e, com isso, registraram a maior participação em uma eleição presidencial em sua história: 155.505.744 pessoas foram às urnas.

Relembre abaixo as principais votações de 2020:

EUA

O presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e sua vice, Kamala Harris, em Wilmington, Delaware
Foto: Tom Brenner - 19.nov.2020/Reuters

O democrata Joe Biden foi oficializado apenas no dia 14 de dezembro como o 46° presidente eleito dos EUA, apesar de as projeções indicarem, desde 7 de novembro, que ele tinha derrotado o republicano Donald Trump na disputa pela Casa Branca.

A confirmação veio após as votações no Colégio Eleitoral. A chapa democrata, composta por Biden e advogada Kamala Harris, obteve 306 votos contra 232 dos adversários republicanos. Eles governarão o país a partir 20 de janeiro de 2021.

Desde a votação, em 3 de novembro, a equipe de advogados de Trump entrou com dezenas de ações na Justiça de vários estados e também na Suprema Corte alegando que houve fraude nas votações. Nenhuma dessas ações, no entanto, trouxe provas das alegações e acabou recusada pelos tribunais.

Os eleitores norte-americanos também renovaram todas as 435 cadeiras na Câmara dos Deputados, parte dos senadores e, em alguns estados, escolheram também seus governadores.

Apesar de a apuração ainda não ter sido concluída, os democratas mantiveram o controle da Câmara, com 222 cadeiras contra 211 dos republicanos. Já no Senado, os republicanos asseguraram 50 cadeiras contra 48 dos democratas – há duas na Geórgia que terão segundo turno, em 5 de janeiro. 

Um dos destaques na votação legislativa deste ano foi o número recorde de mulheres eleitas para o Congresso: 141, quebrando o recorde de 127 estabelecido em 2018, segundo dados do Centro para Mulheres e Política Americanas da Universidade Rutgers

Brasil

Os moradores dos 5.570 municípios brasileiros foram às urnas em novembro para escolher seus novos prefeitos, vice-prefeitos e para renovar suas Câmaras de Vereadores.

Em 13 das 26 capitais brasileiras que tiveram votação neste ano, o atual prefeito disputou a reeleição. Destes, 9 foram reeleitos – uma redução em comparação com 2016, quando 15 dos 20 prefeitos que concorreram foram reeleitos.

Os resultados da Justiça Eleitoral indicam que apenas quatro partidos governarão a maior parte da população e as maiores economias do país. São as legendas que também estão entre as que mais elegeram prefeitos.

PSDB, DEM, MDB e PSD são as únicas agremiações que somam mais de 20 milhões de habitantes nas cidades conquistadas e pelo menos 10% dos PIBs municipais cada.

Uma nova correlação de forças deve surgir na política a partir das eleições municipais, na avaliação do cientista social Marcos Nobre, professor de Filosofia Política na Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Ele disse ver o cenário político após estas eleições municipais dividido em três blocos: o do Centrão bolsonarista, o da direita tradicional e o da esquerda. Sem um líder evidente em cada um desses universos, a única saída será a formação de alianças, afirmou o professor.

Venezuela

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), legenda de Nicolás Maduro, venceu as eleições parlamentares realizadas no começo de dezembro no país. 

Além da recusa dos principais candidatos opositores em participar do pleito – acusado de ser fraudulento –, a oposição também incentivou que eleitores boicotassem a votação.

Um dia depois da votação, uma declaração conjunta divulgada pelo Ministério da Relações Exteriores do Brasil, assinada também por outros 16 países, rejeitou o resultado das eleições na Venezuela. 

Assinaram o documento, além do Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Santa Lúcia.

Horas depois, a União Europeia e os Estados Unidos também se pronunciaram contra o resultado.

Bolívia

Praticamente um ano depois de Evo Morales renunciar à presidência por suspeitas de fraudes na apuração que poderia lhe render seu quarto mandato – e de o país ficar sob comando da direita, com a presidente interina Jeanine Áñez –, a esquerda voltou ao poder em outubro com a vitória de Luis Arce, do Movimento ao Socialismo (MAS).

O político socialista, ex-ministro da Economia aclamado como o arquiteto do rápido crescimento da Bolívia sob o governo de Evo, tomou posse como presidente em novembro, em um evento que encerra um período tumultuoso para a política do país.

Evo voltou ao país, após passar um ano no exílio, um dia depois da posse de Arce. Ele liderou a Bolívia por quase 14 anos como o primeiro presidente indígena e entrou no país vindo da Argentina após uma cerimônia de despedida com a presença do presidente argentino, Alberto Fernandez.

Segundo Arce, Evo não desempenhará nenhum papel em seu governo.

Peru

Depois de o então presidente do Peru, Martín Vizcarra, dissolver o Parlamento em setembro de 2019, o país realizou eleições parlamentares em janeiro de 2020.

Embora a votação não tenha registrado grandes surpresas, não serviu para diminuir o caos político enfrentado pelo país nos últimos anos — e que voltou a ganhar destaque em novembro quando o Congresso condenou Vizcarra em julgamento de processo de impeachment.

Esse episódio fez com que o país tivesse dois presidentes diferentes e passasse um dia com a cadeira vazia em menos de 15 dias até que o congressista Francisco Sagasti assumisse o cargo.

Também desencadeou uma onda de protestos nacionais marcado por alguns episódios de violência que terminaram com a morte de manifestantes.

O ex-presidente do Peru Martin Vizcarra
Foto: Divulgação - 09.nov.2020 / Presidência do Peru via Reuters

Taiwan

Em uma derrota para o governo central da China, a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, foi reeleita em janeiro para um segundo mandato. Em seu discurso de vitória, Tsai disse que a eleição mostrou que as pessoas de Taiwan vão gritar sua determinação ainda mais alto quando sua soberania e democracia estiverem ameaçadas.

“Quero mais uma vez exortar as autoridades de Pequim a lembrá-las de que paz, paridade, democracia e diálogo são as chaves da interação e do desenvolvimento estável a longo prazo. Essas quatro palavras também são o único caminho para reunir e beneficiar nossos dois povos”, disse Tsai. 

As relações de Taiwan com a China foram um fator decisivo na eleição. Tsai capitalizou em cima dos protestos em Hong Kong, chamando o princípio de "um país, dois sistemas" de Pequim de um fracasso.

Hong Kong

Hong Kong entra na lista das eleições que foram adiadas por um longo período por causa da pandemia de Covid-19. O território tem grande importância por causa tensão causada pelos protestos registrados desde 2019 pedindo mais autonomia em relação à China.

No começo de julho, a oposição democrática organizou eleição primária que teve cerca de 600.000 votos. Isso representou cerca de 27% do número de pessoas que votaram nas eleições legislativas anteriores e muito acima da meta original dos organizadores, de 170.000.

Duas semanas depois, o governo de Hong Kong decidiu adiar em um ano as eleições legislativas marcadas para setembro, usando como justificativa a pandemia do novo coronavírus.

O anúncio foi feito pela chefe do Executivo, Carrie Lam. Ela disse que a decisão foi uma das mais difíceis que tomou, mas que teve o apoio do governo central chinês. Ela argumentou que o adiamento era necessário para proteger a saúde pública e garantir uma votação justa.

Coreia do Sul

Em abril, quando os países da Europa estavam no pico da primeira onda de casos da Covid-19, mas a situação estava relativamente controlada na Ásia, os eleitores sul-coreanos foram às urnas e deram uma grande vitória ao governista Partido Democrático, do presidente Moon Jae-in.

O resultado amplamente favorável foi uma resposta direta à forma como Moon fez a gestão da pandemia de Covid-19, coordenando os esforços do governo para identificar, rastrear e conter a disseminação de casos.

Com participação de 66% da população, a maior nas eleições legislativas em 28 anos, o Partido Democrático conquistou maioria absoluta na Assembleia Nacional, um feito inédito desde a volta da democracia, em 1987.

Nova Zelândia

Jacinda Ardern durante debate em Auckland; ela foi reeleita premiê da Nova Zelândia
Foto: Fiona Goodall - 22.set.2020/Reuters

A Nova Zelândia é outro país que adiou sua votação por causa dos efeitos da pandemia. A primeira-ministra Jacinda Ardern passou a votação de setembro para outubro após partidos alegarem que não era possível fazer campanha e garantir uma eleição livre e justa.

Em 17 de outubro, ao irem às urnas, os neozelandeses conduziram Ardern para um segundo mandato principalmente por causa da forma como ela conduziu o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus no país.

A abordagem dura da premiê para lidar com a Covid-19, que ajudou a Nova Zelândia a evitar o surto devastador visto em outros lugares, fez o país ser um dos primeiros a fechar suas fronteiras – Jacinda anunciou um bloqueio nacional em março, quando tinha apenas 102 casos. 

Ao todo, a Nova Zelândia relatou pouco mais de 2.000 casos totais e 25 mortes desde o início da pandemia.

Israel

Os israelenses foram às urnas em março para tentar acabar com mais de um ano de impasse na política após três eleições inconclusivas em que nenhum partido conseguiu formar maioria para governar.

Benny Gantz, principal adversário político do então primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, foi eleito presidente do Parlamento abrindo a possibilidade de um “acordo de rotatividade" no qual ele e Netanyahu se revezariam como primeiro-ministro.

O Parlamento de Israel aprovou em maio o novo governo de coalizão em que Netanyahu deve permanecer primeiro-ministro por 18 meses antes de entregar o cargo para Gantz.

No começo de dezembro, no entanto, os deputados israelenses adotaram uma moção de dissolução do Parlamento e de convocação de novas eleições com as tensões de fundo no governo de coalizão nacional.

Uma comissão recomendou que novas eleições sejam realizadas em 16 de março, colocando fim a menos de um ano de acordo político entre Netanyahu e Gantz.