ONU: Hackers norte-coreanos roubaram quase R$ 1,7 bi para pagar armas nucleares

Com o fechamento do país por conta da pandemia e a perda do lucro sobre o comércio internacional, o governo estaria em busca de novas fontes de renda

Richard Roth e Joshua Berlinger, da CNN, em Nova York
09 de fevereiro de 2021 às 11:36 | Atualizado 09 de fevereiro de 2021 às 13:14


O exército de hackers da Coreia do Norte roubou centenas de milhões de dólares durante grande parte de 2020 para financiar os programas de mísseis nucleares e balísticos do país, em clara violação à lei internacional, de acordo com um relatório confidencial das Nações Unidas.

O documento acusou o regime do líder Kim Jong Un de conduzir “operações contra instituições financeiras e casas de câmbio virtuais” para pagar por armas e sustentar a economia da Coreia do Norte. De acordo com o documento, um país não identificado, membro da ONU, afirmou que os hackers roubaram ativos virtuais no valor de US$ 316,4 milhões de dólares (cerca de R$ 1,69 bilhão) entre 2019 e novembro de 2020.

O relatório também alegou que a Coreia do Norte “produziu material físsil, manteve instalações nucleares e atualizou sua infraestrutura de mísseis balísticos” enquanto continuava “a buscar material e tecnologia para esses programas no exterior”.

A Coreia do Norte procura desenvolver há anos armas nucleares poderosas e mísseis avançados, apesar de seu imenso custo e do fato de que tal busca transformaria o país em um pária internacional, impedido pela ONU de conduzir atividades econômicas com outros países.

 

Em março, a Coreia do Norte disparou nove mísseis balísticos de curto alcance
Em março, a Coreia do Norte disparou nove mísseis balísticos de curto alcance em quatro rodadas de testes
Foto: Reprodução/ Reuters

Segundo investigadores da ONU, o país que fez a denúncia avaliou que é “altamente provável” que a Coreia do Norte possa montar um dispositivo nuclear em um míssil balístico de qualquer alcance, embora não esteja claro que esses mísseis conseguiriam reentrar na atmosfera terrestre.

O relatório é de autoria do Painel de Especialistas na Coreia do Norte da ONU, órgão encarregado de monitorar a aplicação e eficácia das sanções impostas contra o regime de Kim como punição por suas armas nucleares e desenvolvimento de mísseis balísticos.

Prédio em Pyongyang, capital da Coreia do Norte
Prédio em Pyongyang, capital da Coreia do Norte
Foto: gfs_mizuta/ Pixabay/ Reprodução

Detalhes desse relatório confidencial foram obtidos pela CNN por meio de uma fonte diplomática do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que compartilhou trechos do documento sob a condição de anonimato. O documento reúne informações recebidas de países membros da ONU, de agências de inteligência, da mídia e de pessoas que fugiram do país – não registra dados fornecidos pela própria Coreia do Norte. Esses relatórios são normalmente divulgados a cada seis meses, um no meio do primeiro semestre e outro no meio do segundo semestre.

Não está claro quando este relatório será publicado. Vazamentos anteriores enfureceram China e Rússia, ambos membros do Conselho de Segurança da ONU, levando a impasses diplomáticos e atrasos.

 

A missão da Coreia do Norte nas Nações Unidas não respondeu ao pedido da CNN para comentar a denúncia, mas as alegações no relatório estão alinhadas com os planos recentes apresentados por Kim. Em um importante encontro político no mês passado, Kim disse que a Coreia do Norte trabalhará para desenvolver novas armas avançadas para seus programas nucleares e de mísseis, como armas nucleares táticas e ogivas projetadas para penetrar em sistemas de defesa antimísseis para deter os Estados Unidos, apesar do relacionamento que ele desenvolveu com o ex-presidente Donald Trump.

O ex-presidente dos EUA tentou fazer com que Kim desistisse de sua busca por armas nucleares por meio da diplomacia de alto nível, apostando que suas habilidades de negociação poderiam ajudá-lo a conquistar algo que os presidentes anteriores não conseguiram. Em 2018, Trump se tornou o primeiro presidente dos EUA a se encontrar com um líder norte-coreano e depois reuniu-se com ele mais duas vezes – mas não conseguiu convencer o jovem ditador norte-coreano a interromper o desenvolvimento de armas nucleares.

Não está claro como o atual presidente Joe Biden avançará no diálogo com o líder norte-coreano, embora seus assessores tenham deixado claro que os aliados da Coreia do Sul e do Japão estarão fortemente envolvidos na conversa. Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional de Biden, disse na semana passada que o governo está conduzindo uma revisão de políticas e que ele não “se antecipará a esse estudo” em público.

Líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un
O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un
Foto: KCNA/via REUTERS

Uma nova fonte de renda

O painel da ONU concluiu que os rígidos controles de fronteira da Covid-19 da Coreia do Norte afetaram a capacidade do regime de trazer divisas estrangeiras, muito necessárias. Pyongyang usa esquemas complexos de evasão de sanções para manter sua economia à tona e contornar as severas restrições impostas pela ONU.

Historicamente, o carvão tem sido uma das exportações mais valiosas da Coreia do Norte. O relatório do Painel de 2019 descobriu que Pyongyang arrecadou US$ 370 milhões (cerca de R$ 1,98 bilhão) exportando carvão, mas os embarques desde julho de 2020 parecem ter sido suspensos, uma vez que a Coreia do Norte cortou quase todos os seus laços com o mundo exterior em 2020 para evitar um influxo de casos do novo coronavírus, reduzindo ao máximo até o comércio com a China, uma tábua de salvação econômica para evitar que seu povo passe fome. Embora essa decisão pareça ter mantido a pandemia sob controle, ela teria deixado a economia norte-coreana ainda mais perto da beira do colapso do que algumas décadas atrás.

Tempestades devastadoras, as sanções e a pandemia atingiram a economia da Coreia do Norte em 2020. Especialistas acreditam que o país pode estar contando ainda mais com seus hackers para gerar receita durante a pandemia por causa do fechamento da fronteira.

Míssil Correia do Norte
Coreia do Norte exibe o que aparenta ser um novo míssil intercontinental com potencial para carregar múltiplas ogivas nucleares
Foto: Korean Central TV/Reprodução

Cooperação com o Irã

O relatório citou várias nações anônimas que alegaram que a Coreia do Norte e o Irã voltaram a cooperar em projetos de desenvolvimento de mísseis de longo alcance, incluindo o comércio de peças críticas necessárias para desenvolver essas armas. A Coreia do Norte testou com sucesso três mísseis balísticos de alcance intercontinental (ICBM) em 2017 e exibiu um novo ICBM gigantesco em um evento público em outubro de 2020.

A busca do Irã por tecnologia semelhante é um grande ponto de discórdia nas disputas de longa data de Teerã com vários vizinhos árabes e os Estados Unidos. A Arábia Saudita e outros países da região do Golfo pediram a redução das armas balísticas do Irã, mas os líderes iranianos disseram repetidamente que o arsenal não está em negociação.

O governo iraniano teria negado estar trabalhando com a Coreia do Norte em tecnologia de mísseis. O relatório incluiu comentários da Missão da ONU no Irã, que alegou em dezembro que o Painel de Especialistas da instituição recebeu “informações falsas e dados fabricados podem ter sido usados nas investigações e análises do Painel”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).