Escândalo sobre vacina da Covid-19 no governo derruba ministros no Peru

Quase 500 membros do alto escalão do governo peruano receberam a vacina da Sinopharm à margem dos estudos clínicos e campanha de vacinação

Rafael Romo, da CNN
19 de fevereiro de 2021 às 12:46 | Atualizado 19 de fevereiro de 2021 às 12:49
O presidente do Peru, Martín Vizcarra
O ex-presidente do Peru, Martín Vizcarra
Foto: Presidência do Peru - 30.set.2019 / Reuters

Só se passaram três meses desde que o ex-presidente peruano Martin Vizcarra sofreu impeachment no congresso e foi deposto do poder por acusações de corrupção, negadas repetidamente por ele. No entanto, lá estava ele novamente na segunda-feira (15), fazendo uma declaração pública culpando “uma classe política que está apenas interessada em gerar o caos” por causa de um escândalo ligado às vacinas que irritou o país vizinho do Brasil.

O caso envolve autoridades atuais e passadas, incluindo o ex-presidente, que foram vacinadas contra o novo coronavírus, embora não fossem elegíveis para receber a dose em um primeiro momento de campanha de vacinação. O escândalo que levou à renúncia de vários ministros.

O Peru está lutando atualmente com o ressurgimento do vírus, relatando mais de 6 mil casos por dia, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. O país também enfrenta uma perigosa escassez de leitos de UTI e oxigênio à medida que os casos aumentam.

O ex-presidente Vizcarra aparece em uma lista de quase 500 pessoas que “aproveitaram sua posição” para ter acesso à vacina chinesa Sinopharm, segundo disse o atual presidente interino Francisco Sagasti no início desta semana. A lista revelada inclui a elite da política peruana, como a ministra da Saúde, Pilar Mazzetti, e a ministra das Relações Exteriores, Elizabeth Astete, ambas do governo Sagasti.

O presidente impichado Vizcarra usou o Twitter para se pronunciar no domingo (14), dizendo que sua decisão de tomar a vacina “não causou nenhum prejuízo a ninguém e muito menos ao Estado”. Ele acrescentou que “não se aproveitou da situação porque era um projeto [para desenvolver] uma vacina que ainda não havia passado por todas as fases de aprovação”.

 

“Tive motivos válidos para não participar [nos testes clínicos], pois isso colocaria em risco o desenvolvimento normal da fase 3, tanto que fui alertado sobre os possíveis efeitos contraproducentes para a minha saúde”, escreveu o ex-presidente.

Na segunda-feira, mais uma vez, ele reclamou que a imprensa continuou a publicar “informações distorcidas” sobre o que aconteceu.

Em uma carta aberta, a ministra da Saúde, Mazzetti, considerou a decisão de se vacinar o pior erro de sua vida. “Não será suficiente pedir perdão a todos aqueles que decepcionei”, escreveu. Mazzetti deixou o governo.

Em comunicado publicado no Twitter, a chanceler Astete disse que está “[...] ciente do grave erro que cometi, por isso decidi não receber uma segunda dose. Por todas as razões discutidas anteriormente, informei ao presidente da nossa República que estou renunciando ao meu cargo de Ministra das Relações Exteriores”.

Elizabeth Astete
Elizabeth Astete renunciou ao cargo de Ministra das Relações Exteriores
Foto: Reprodução/YouTube

Para o presidente interino, Sagasti, o Peru está enfrentando “um momento crítico”. “Além da crise da saúde, da crise econômica, da crise social, da instabilidade e da crise política que vivemos nos últimos meses, agora temos uma crise de ética e moral”.

Sua própria presidência é um testemunho da recente série de crises no Peru: Sagasti é presidente do país há menos de três meses, nomeado líder interino após a turbulência política do ano passado.

Ele assumiu o cargo depois que o predecessor Manuel Merino foi forçado a renunciar em meio a manifestações em massa contra a classe política do Peru. O próprio Merino acabara de substituir Vizcarra; entre 9 e 17 de novembro, o Peru teve três presidentes diferentes: Vizcarra, Merino e Sagasti.

O escândalo da vacina – que alguns no país andino já chamam de “Vacuna-gate" (“vacuna” é vacina em espanhol) – surgiu na semana passada após uma investigação da agência de notícias local Willax TV.

Muitos peruanos dizem que estão indignados, mas não surpresos, que políticos e seus círculos íntimos, incluindo parentes, tenham supostamente se aproveitado de suas posições para ter acesso a uma vacina à qual não tinham direito.

Membros do governo do Peru teriam sido imunizados com vacina da Sinopharm
Quase 500 membros do alto escalão do governo do Peru teriam sido imunizados com vacina da Sinopharm à margem de estudo clínico
Foto: Aly Song - 19.jan.2021/Reuters

José Ugaz, advogado de direitos humanos peruano e ex-presidente da Transparência Internacional, chamou o caso de “crônica de um escândalo anunciado”, ecoando as palavras do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. “Eu já havia pedido, e várias organizações tinham feito o mesmo, que houvesse muito cuidado no manuseio das vacinas”, disse à CNN.

Ugaz disse que muitos peruanos estão acostumados a “decepção após decepção” de seus líderes eleitos.

“Vimos governos profundamente arraigados na corrupção, com fracas habilidades governamentais, mentindo de forma permanente e sistemática para o povo e colocando os interesses próprios e de seus partidos e círculos internos à frente do país. Isso também aconteceu durante a pandemia”.

A lista de líderes nacionais decepcionantes é realmente longa e, nesse sentido, Vizcarra não está errado ao dizer que o caos reina na classe política. Todos os últimos seis presidentes do Peru tiveram problemas com a lei.

Alberto Fujimori (1990-2000) cumpre pena de 25 anos por violações dos direitos humanos. Alejandro Toledo (2001-2006), que está atualmente nos Estados Unidos, enfrenta um pedido de extradição por acusações de lavagem de dinheiro, que ele nega. Alan García (1985-1990 e 2006-2011) suicidou-se em abril de 2019 quando estava prestes a ser preso por acusações relacionadas ao escândalo de corrupção da Odebrecht.

Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018) está atualmente em prisão domiciliar por sua participação no escândalo de corrupção da Odebrecht, o que ele nega. Ollanta Humala (2011-2016) foi preso em 2017 por acusações semelhantes, que ele contesta, e planeja concorrer novamente à presidência. E, finalmente, a Procuradoria Geral do Peru anunciou na segunda-feira que está investigando Martín Vizcarra pelo escândalo da vacina.

Muitos peruanos ainda se lembram do escândalo Vladi-Vídeos, uma série de gravações em vídeo que veio à tona em 2000. Os vídeos mostravam Vladimiro Montesinos, então chefe do Serviço de Inteligência do Peru, subornando parlamentares opositores para que trocassem de lado e apoiassem as políticas do então presidente Alberto Fujimori, cujo lema de campanha era “honestidade, tecnologia e empregos”.

Montesinos foi considerado culpado de vários crimes que vão além do escândalo Vladi-Vídeos. Em 2016, ele foi condenado a 22 anos de prisão por sequestro e assassinato de três pessoas. Em 2019, a Suprema Corte do Peru confirmou um aumento de sua sentença de 15 anos para 17, por sua participação no sequestro do empresário Samuel Dyer em 1992.

Ainda assim, para Ugaz, há motivos para esperança. O sistema de justiça do Peru ainda funciona apesar das adversidades. As autoridades estão avançando com uma investigação contra Vizcarra sobre o escândalo da vacina e Toledo provavelmente será julgado se ele retornar ao país. O mesmo se aplica aos outros, embora as acusações de perseguições políticas e vinganças sejam constantes.

Em 11 de abril, os peruanos terão uma nova chance ao voltarem às urnas para escolher um novo presidente e todos os 130 membros de seu Congresso unicameral. Como muitos peruanos, Ugaz espera uma grande mudança em relação à turbulência política do Peru e ao criticado tratamento dado à pandemia no país.

“Os escândalos podem ser representativos de uma classe política que está dando seus últimos suspiros”, disse.

Jimena de la Quintana em Lima e Claudia Rebaza em Londres contribuíram para esta reportagem

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).