EUA investigam mortes de cientistas ligados a pesquisas aeroespaciais
Série de casos levanta preocupações e mobiliza FBI, Casa Branca e Comitê de Supervisão da Câmara para investigações
Um físico nuclear e professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) foi morto a tiros em frente à sua residência em Massachusetts, nos Estados Unidos.
No Novo México, um general aposentado da Força Aérea desapareceu de sua casa.
Em Los Angeles, uma engenheira aeroespacial desapareceu durante uma caminhada.
Esses são alguns dos pelo menos dez indivíduos ligados a pesquisas nucleares e aeroespaciais sensíveis dos EUA que morreram ou desapareceram nos últimos anos, levantando preocupações sobre uma possível conexão entre os casos e alimentando especulações online sobre a possibilidade de atividades nefastas.
O FBI agora afirma que está "liderando os esforços para buscar conexões entre os cientistas desaparecidos e falecidos", acrescentando que "está trabalhando com o Departamento de Energia, o Departamento de Guerra e com nossos parceiros policiais estaduais e locais para encontrar respostas".
Em outra frente, o Comitê de Supervisão da Câmara, liderado pelos republicanos, anunciou na segunda-feira (20) que investigará as notícias sobre as mortes e desaparecimentos desses indivíduos, que, segundo o comitê, tinham acesso a informações científicas sensíveis.
As notícias "levantam questões sobre uma possível conexão sinistra" entre as mortes e os desaparecimentos, afirmou o comitê em seu comunicado, solicitando informações sobre o assunto ao FBI, ao Departamento de Defesa, ao Departamento de Energia e à Nasa.
O Departamento de Defesa afirmou apenas que responderia diretamente ao comitê, e o Departamento de Energia encaminhou as perguntas à Casa Branca.
Em uma publicação na rede social X, a Nasa declarou que está “coordenando e cooperando com as agências relevantes” em relação aos cientistas.
“Neste momento, nada relacionado à Nasa indica uma ameaça à segurança nacional”, afirmou a porta-voz da Nasa, Bethany Stevens.
NASA is coordinating and cooperating with the relevant agencies in relation to the missing scientists. At this time, nothing related to NASA indicates a national security threat. The agency is committed to transparency and will provide more information as able. https://t.co/92dTXGAxQn
— Bethany Stevens (@NASASpox) April 20, 2026
Casos têm circunstâncias variadas
Os casos variam muito em circunstâncias.
Alguns envolvem homicídios não resolvidos, enquanto outros são casos de pessoas desaparecidas sem indícios de crime.
Em pelo menos dois casos, as famílias apontaram condições médicas pré-existentes ou dificuldades pessoais como explicações. As autoridades não estabeleceram nenhuma ligação entre os casos.
A Casa Branca afirmou na semana passada que também está trabalhando com agências federais para investigar possíveis ligações entre as mortes e os desaparecimentos, com o presidente americano Donald Trump se referindo ao assunto como "algo muito sério".
"É muito improvável que seja uma coincidência", falou o deputado republicano James Comer, presidente do Comitê de Supervisão da Câmara, ao programa Fox News Sunday.
"O Congresso está muito preocupado com isso. Nosso comitê está priorizando este caso agora, porque o consideramos uma ameaça à segurança nacional", disse ele.
O deputado democrata James Walkinshaw, que também integra o Comitê de Supervisão, concorda que uma investigação sobre os desaparecimentos e mortes é justificada, mas disse não estar convencido de que haja uma motivação coordenada por trás dos casos.
“Os Estados Unidos têm milhares de cientistas e especialistas nucleares”, falou Walkinshaw à jornalista Erin Burnett, da CNN, na terça-feira (21).
“Não é o tipo de programa nuclear que um adversário estrangeiro poderia impactar significativamente atacando 10 indivíduos", acrescentou.
Série de mortes e desaparecimentos
A série de mortes e desaparecimentos misteriosos começou em 2023, segundo legisladores, com a morte de Michael David Hicks, um cientista que trabalhou no JPL (Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa) por quase 25 anos.
Hicks, de 59 anos, morreu em 30 de julho de 2023. Durante sua carreira, ele se especializou em cometas e asteroides, segundo a Sociedade Astronômica Americana. A causa de sua morte não foi divulgada.
Sua filha, Julia Hicks, relatou à CNN que seu pai vinha enfrentando problemas de saúde conhecidos e que as recentes especulações a deixaram "abalada".
"Pelo que sei do meu pai, não há nenhuma linha de raciocínio que o implique nesta possível investigação federal", explicou ela. "Não entendo a conexão entre a morte do meu pai e o desaparecimento dos outros cientistas."
"Não consigo evitar rir disso, mas, ao mesmo tempo, a situação está ficando séria", acrescentou Julia.
Ela disse à CNN que, até a tarde de terça-feira (21), ninguém em cargo eletivo ou em qualquer agência federal havia entrado em contato com ela para perguntar sobre a morte de seu pai.
Nos anos seguintes, várias outras pessoas ligadas ao JPL também morreram ou desapareceram: Frank Maiwald, especialista em pesquisa espacial, morreu em Los Angeles em 2024, aos 61 anos.
Monica Reza, engenheira aeroespacial de 60 anos, desapareceu enquanto fazia uma trilha em uma floresta de Los Angeles em junho de 2025. Ela era diretora do Grupo de Processamento de Materiais do Laboratório da Nasa, segundo o Comitê de Supervisão da Câmara.
Também está desaparecido William Neil McCasland, major-general aposentado da Força Aérea, que não é visto desde que saiu de sua casa em Albuquerque, Novo México, em 27 de fevereiro, deixando para trás seu celular, óculos de grau e dispositivos vestíveis. O FBI agora está envolvido nas buscas.
McCasland esteve no centro de algumas das pesquisas aeroespaciais mais avançadas do Pentágono e chegou a comandar o Laboratório de Pesquisa da Força Aérea na Base Aérea de Wright-Patterson.

Meses após o desaparecimento do homem de 68 anos, as autoridades ainda não sabem para onde ele foi, por que saiu ou se alguém mais esteve envolvido.
Sua esposa, Susan McCasland Wilkerson, contestou na época as especulações de que seu desaparecimento estivesse ligado ao seu trabalho na base, há muito tempo alvo de rumores de que abrigaria destroços extraterrestres associados ao suposto "Caso Roswell", apesar das negativas da Força Aérea.
"É verdade que Neil teve uma breve ligação com a comunidade ufológica", disse Susan em uma publicação no Facebook. "Essa ligação não é motivo para alguém sequestrar Neil. Neil não tem nenhum conhecimento especial sobre os corpos extraterrestres e destroços do acidente de Roswell armazenados em Wright-Patterson".
"Nenhum avistamento de uma nave-mãe pairando sobre as Montanhas Sandia foi relatado", acrescentou a esposa.
Susan McCasland Wilkerson não respondeu ao pedido de comentário da CNN sobre esta matéria nesta semana.
Outros dois desaparecidos, Melissa Casias e Anthony Chavez, trabalhavam no Laboratório Nacional de Los Alamos, uma importante instalação de pesquisa nuclear no Novo México.
Melissa, de 53 anos, foi vista pela última vez caminhando em uma rodovia perto de Talpa, Novo México, em junho de 2025, segundo a Polícia Estadual do Novo México. Ela deixou seus pertences em casa e um telefone que foi restaurado para as configurações de fábrica, informou a NBC News.
O Departamento de Segurança Pública do Novo México disse à CNN que há uma investigação em andamento sobre o desaparecimento de Melissa, mas acrescentou que não há suspeita de crime.
Chavez, um aposentado de 78 anos que trabalhava como supervisor de obras no local, também desapareceu em maio de 2025, segundo a polícia de Los Alamos.

Um detetive afirmou à CNN que não há sinais de crime, mas buscas exaustivas não encontraram nenhum sinal de atividade ou indícios de que ele estivesse planejando sair.
Seu amigo, Carl Buckland, disse à CNN que está feliz por as autoridades estarem investigando o caso: "Já era hora".
Especulações aumentam com mortes de cientistas
Nos últimos meses, as mortes de vários cientistas renomados também alimentaram especulações.
Nuno F.G. Loureiro, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), foi morto a tiros em sua casa perto de Boston, em dezembro de 2025, por um atirador que também abriu fogo no campus da Universidade Brown e matou dois estudantes.
O físico e cientista de fusão de 47 anos liderava o Centro de Ciência de Plasma e Fusão do MIT, onde buscava promover tecnologias de energia limpa e outras pesquisas.

Carl Grillmair foi morto a tiros aos 67 anos em sua casa nos arredores de Los Angeles, em fevereiro.
As autoridades prenderam um suspeito que, segundo a KABC, não conhecia Grillmair.
O astrofísico trabalhava no Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), colaborava com a Nasa e era renomado por seus estudos sobre a busca por água em planetas fora do nosso sistema solar.
O ex-oficial de inteligência da Força Aérea dos EUA, Matthew James Sullivan, de 39 anos, também morreu em 2024, antes de poder depor em um caso federal de denúncia sobre OVNIs, disse o deputado Eric Burlison, do Missouri, instando o FBI a investigar o caso.
Seu obituário não informou a causa da morte. A CNN entrou em contato com a família.
Eric Burlison, no entanto, afirmou à Fox News que Sullivan cometeu suicídio, considerando o caso suspeito.
“Ele estava agendado para uma entrevista. Duas semanas depois, ele cometeu suicídio de forma suspeita”, declarou Burlison, um republicano, à Fox News.
Nos últimos dias, a morte de Amy Eskridge, em 2022, ganhou destaque.
Amy, de 34 anos, foi cofundadora do Instituto de Ciência Exótica em Huntsville, Alabama, segundo seu obituário.
A família de Eskridge disse em um comunicado à CNN que ela era uma “pessoa maravilhosamente inteligente” e sofria de “dores crônicas”.
“As pessoas precisam entender que cientistas também morrem e não dar tanta importância a isso”, falou a família.
Casa Branca investiga mortes com agências dos EUA
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou esperar que os desaparecimentos e mortes sejam apenas uma coincidência.
"Espero que seja aleatório, mas saberemos na próxima semana e meia", disse Trump a repórteres na quinta-feira (16), acrescentando que teve uma reunião recente sobre o assunto.
A Casa Branca se recusou a dar mais detalhes sobre a reunião.
O governo "trabalha ativamente com todas as agências relevantes e o FBI para revisar todos os casos de forma abrangente e identificar quaisquer pontos em comum que possam existir", declarou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, em um comunicado divulgado na sexta-feira (17).
A investigação está sendo conduzida "à luz das recentes e legítimas perguntas" sobre os casos recentes e "nenhuma pedra ficará sem ser revirada", falou ela.
"Vamos procurar conexões... para verificar se há conexões com acesso a informações classificadas, acesso a informações confidenciais e/ou agentes estrangeiros", declarou o diretor do FBI, Kash Patel, à Fox News no domingo (19).
"Se houver alguma conexão que leve a conduta ilegal ou conspiração, o FBI fará a prisão apropriada", acrescentou.



