Exclusivo: Mensagens do chefe de gabinete de Trump revelam estratégia para invalidar eleições

CNN obteve 2.319 mensagens de texto que Mark Meadows enviou e recebeu entre o dia da eleição de 2020 e a posse do presidente Joe Biden em 20 de janeiro de 2021

Donald Trump e seu último chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows
Donald Trump e seu último chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows Reprodução/Instagram

Elizabeth StuartJamie GangelJeremy Herbda CNN

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A CNN obteve 2.319 mensagens de texto que o chefe de gabinete do ex-presidente Donald Trump, Mark Meadows, enviou e recebeu entre o dia da eleição de 2020 e a posse do presidente Joe Biden em 20 de janeiro de 2021.

A vasta coleção de mensagens oferece o panorama mais revelador até hoje de como o círculo íntimo de Trump, apoiadores e congressistas republicanos trabalharam nos bastidores para tentar derrubar os resultados das Eleições de 2020 e depois reagiram à violência que o esforço desencadeou no Capitólio dos EUA em janeiro de 2021.

Os registros, que Meadows forneceu ao comitê da Câmara que investiga o ataque de 6 de janeiro, mostram como o ex-chefe de gabinete de Trump estava no eixo de teorias da conspiração que alegavam sem fundamento que a eleição havia sido roubada.

Também demonstram como ele desempenhou um papel fundamental nas tentativas de impedir a certificação da vitória de Biden.

Os documentos incuem mensagens da família de Trump – sua filha Ivanka Trump, seu genro Jared Kushner e seu filho Donald Trump Jr. – além de funcionários da Casa Branca e de sua campanha eleitoral, líderes do Partido Republicano, organizadores da manifestação de 6 de janeiro, Rudy Giuliani, o CEO do My Pillow, Mike Lindell, Sean Hannity e outros anfitriões da Fox.

Há também trocas de mensagens com mais de 40 republicanos do Congresso, incluindo o senador Ted Cruz do Texas e os deputados Jim Jordan de Ohio, Mo Brooks do Alabama e Marjorie Taylor Greene da Geórgia.

Os textos incluem tudo, desde planos para lutar contra os resultados das eleições até reações surpreendentes e inesperadas em 6 de janeiro de alguns dos mais leais aliados de Trump.

Às 14h28, Greene, a conservadora incendiária que ajudou a planejar as objeções do Congresso naquele dia, enviou uma mensagem de texto a Meadows com um pedido urgente de ajuda enquanto a violência se desenrolava no Capitólio.

“Mark, me disseram que há um atirador ativo no primeiro andar do Capitólio, por favor, diga ao presidente para acalmar as pessoas. Esta não é a maneira de resolver nada”, escreveu Greene. Meadows parece não responder.

Mais mensagens chegam. “Mark: ele precisa parar com isso agora. Posso fazer alguma coisa para ajudar?”, escreve Mick Mulvaney, ex-chefe de gabinete interino de Trump na Casa Branca.

“Está muito ruim aqui. Eles invadiram o Capitólio”, escreve o deputado republicano da Geórgia, Barry Loudermilk. “O presidente está tentando resolver isso”, responde Meadows. “Obrigado. Isso não ajuda a nossa causa”, respondeu Loudermilk.

“O presidente precisa parar com isso o mais rápido possível”, afirma o deputado republicano William Timmons, da Carolina do Sul. “Estamos fazendo isso”, Meadows escreve de volta.

Pouco depois, Donald Trump Jr. opina: “Eles vão tentar f*der todo o seu legado sobre isso se piorar”.

“DIGA-LHES PARA IREM PARA CASA !!!”, envia Reince Priebus, primeiro chefe de gabinete de Trump.

Teorias de conspiração

As mensagens de texto obtidas pela CNN começam no dia da eleição, 3 de novembro de 2020. Mesmo antes dos resultados serem anunciados, Meadows foi inundado com teorias da conspiração sobre fraude eleitoral, estratégias para contestar os resultados e pedidos para que Trump continuasse lutando.

As mensagens – de ativistas republicanos, doadores e membros republicanos do Congresso – parecem agir como uma câmara de eco reafirmando as falsas alegações de Trump de que a eleição foi roubada. Nos meses que antecederam o dia da eleição, o ex-presidente alegou que a única maneira de perder era em caso de fraude.

Mensagens de texto divulgadas anteriormente mostraram que o ex-secretário de Energia do governo Trump, Rick Perry, e o filho de Trump, Donald Trump Jr., enviaram mensagens de texto para Meadows nos dias 4 e 5 de novembro com ideias para derrubar os resultados eleitorais.

Em 7 de novembro, horas antes do anúncio da vitória de Biden, Perry mandou uma mensagem novamente para Meadows: “Temos o programa baseado em dados que pode mostrar claramente onde a fraude foi cometida”.

Embora Perry tenha negado anteriormente repotagens da CNN sobre suas mensagens para Meadows, a CNN confirmou que é seu telefone celular e ele assinou esta mensagem, “Rick Perry”, incluindo seu número.

Outros textos, no entanto, incluem dúvidas expressadas por membros da equipe de Trump e até pelo próprio Meadows sobre a veracidade das teorias da conspiração espalhadas pela equipe de advogados externos de Trump, como Giuliani e Sidney Powell.

Alguns aliados importantes do Congresso que trabalharam com a campanha de Trump inicialmente em seus esforços para derrubar a eleição, como o senador Mike Lee, de Utah, e o deputado Chip Roy, do Texas, acabaram recuando da abordagem quando a certificação do Congresso de 6 de janeiro se aproximava, informou a CNN anteriormente.

As mensagens também mostram como os aliados de Trump foram rápidos em desviar a responsabilidade pelo ataque de 6 de janeiro. Pouco depois de manifestantes invadirem o Capitólio, um de seus principais assessores começou a elaborar uma contra-narrativa.

Às 15h45, o porta-voz da campanha de Trump, Jason Miller, sugeriu a Meadows e ao assessor do ex-presidente, Dan Scavino, postagens de Trump: “Me chamem de louco, mas ideias para dois tweets de Trump: 1) Maçãs podres, provavelmente ANTIFA ou outros esquerdistas enlouquecidos, infiltrados em protesto pacífico de hoje contra a contagem fraudulenta de votos. A violência nunca é aceitável! Os apoiadores do MAGA abraçam nossa polícia e o estado de direito e devem deixar o Capitólio agora! 2) A imprensa de fake news que incentivou os tumultos violentos e radicais deste verão agora estão tentando culpar os pacíficos e inocentes apoiadores do MAGA por ações violentas. Isso não é quem nós somos! Nosso povo deveria voltar para casa e deixar os criminosos sofrerem as consequências!”.

Os aliados de Trump no Congresso pareceram entender a mensagem. Às 15h52, Greene disse a Meadows: “Mark, não achamos que esses agressores são nosso povo. Achamos que eles são Antifa. Vestidos como apoiadores de Trump”.

Cinco minutos depois, Louie Gohmert, um republicano do Texas, mandou uma mensagem para Meadows: “Polícia do Capitólio me disse ontem à noite que eles foram avisados ​​que hoje haveria muitos Antifa vestidos com camisas e chapéus vermelhos de Trump e provavelmente ficariam violentos”.

Nos 16 meses desde 6 de janeiro, centenas de acusações mostraram que quase todos aqueles que violaram o Capitólio eram de fato apoiadores pró-Trump.

Enquanto Greene estava preocupada em 6 de janeiro, no dia seguinte ela estava se desculpando pelo fracasso dos esforços para bloquear a certificação de Biden.

“Ontem foi um dia terrível. Tentamos tudo o que podíamos em nossa objeção. Lamento que nada tenha funcionado. Não acho que o presidente Trump tenha causado o ataque ao Capitólio. Não é culpa dele”, escreveu ela na manhã de 7 de janeiro. Meadows respondeu: “Obrigado, Marjorie”.

A deputada Marjorie Taylor Greene usa uma máscara com “Trump Venceu” estampado ao chegar ao plenário da Câmara para fazer seu juramento de posse como membro recém-eleito da 117ª Câmara dos Deputados em Washington, EUA, janeiro 3 de 2021. / Getty Images

Greene está atualmente enfrentando um processo para desqualificá-la de concorrer ao Congresso por causa de seu suposto papel em 6 de janeiro. Os registros de mensagens de Meadows oferecem um novo panorama do que ela estava dizendo ao chefe de gabinete da Casa Branca.

Em 31 de dezembro, Greene procurou Meadows para obter conselhos sobre como se preparar para objeções à certificação da eleição em 6 de janeiro.

“Bom dia Mark, estou aqui em DC. Temos que nos organizar para o dia 6”, escreveu Greene. “Gostaria de me encontrar com Rudy Giuliani novamente. Não conversamos muito com ele. Também qualquer um que possa ajudar. Estamos recebendo muitos membros a bordo. E precisamos apresentar o melhor caso para cada estado”.

Meadows não parece responder.

Em 17 de janeiro, Greene estava sugerindo maneiras de manter Trump no cargo, dizendo a Meadows que havia vários republicanos no Congresso que ainda queriam que o então presidente declarasse a lei marcial, que havia sido levantada em uma reunião no Salão Oval um mês antes.

“Em nossa conversa privada com membros, vários estão dizendo que a única maneira de salvar nossa república é Trump pedir a lei Marshall (sic). Eu não sei sobre essas coisas. Eu só queria que você dissesse a ele. Eles roubaram esta eleição. Todos nós sabemos. Eles vão destruir nosso país em seguida. Por favor, diga a ele para desclassificar o máximo possível para que possamos ir atrás de Biden e de qualquer outra pessoa!”.

Mais uma vez, Meadows não parece responder.

O que Meadows entregou

Meadows forneceu o arquivo de 2.319 mensagens ao comitê de 6 de janeiro em dezembro de 2021. Mas logo depois, parou de cooperar e se recusou a comparecer para um depoimento.

Em última análise, a Câmara votou para denunciar o ex-chefe de gabinete da Casa Branca por desacato ao Congresso. O Departamento de Justiça ainda não anunciou se vai acusar Meadows.

Meadows processou o comitê da Câmara na tentativa de bloquear as intimações do Congresso. Em resposta, o comitê disponibilizou novos detalhes revelando que Meadows foi avisado com antecedência de que 6 de janeiro poderia se tornar violento, de acordo com o testemunho de Cassidy Hutchison, uma das ex-assessoras da Casa Branca.

Além disso, o comitê divulgou mensagens de texto que Meadows trocou com membros republicanos do Congresso, incluindo textos com o deputado Scott Perry, da Pensilvânia, sobre um esquema para substituir os líderes do Departamento de Justiça (DOJ) que se opunham às alegações de Trump de fraude eleitoral.

No fim de dezembro, Perry entrou em contato com Meadows, conectando-o ao então funcionário do DOJ Jeffrey Clark, que estava promovendo alegações infundadas de fraude eleitoral dentro do Departamento de Justiça.

Trump estava considerando demitir o procurador-geral interino e nomear Clark. Em depoimento ao comitê de 6 de janeiro em fevereiro deste ano, o funcionário do DOJ invocou seu direito da Quinta Emenda contra a autoincriminação mais de 100 vezes

Em 26 de dezembro, Perry mandou uma mensagem para Meadows: “Mark, apenas verificando enquanto o tempo continua a contagem regressiva. 11 dias para 1/6 e 25 dias para a posse. Temos que agir!”.

“Mark, você deveria ligar para Jeff,” ele continuou. “Acabei de falar com ele ao telefone e ele me explicou por que o vice-diretor não trabalharia especialmente com o FBI. Eles vão ver isso como não ter autoridade para impor o que precisa ser feito”.

“Eu entendi”, respondeu Meadows. “Acho que entendi. Deixe-me trabalhar na posição do vice-diretor”. Em 28 de dezembro, Perry entra em contato novamente: “Você ligou para Jeff Clark?” Meadows não parece responder.

“Sim senhor”

Além das mensagens que o comitê divulgou, a CNN e outros veículos publicaram anteriormente seleções de mensagens de texto que Meadows recebeu de Lee, Roy, Trump Jr., Perry e da esposa do juiz da Suprema Corte Clarence Thomas, Ginni Thomas

Os registros obtidos pela CNN incluem inúmeras mensagens vindas de celulares oficiais da Casa Branca. Alguns foram identificados pela CNN, outros são desconhecidos.

Existem também várias mensagens em grupo com o círculo íntimo de Trump. As várias conversas em grupo incluem Meadows, Ivanka Trump, Trump Jr. e Kushner, além de importantes conselheiros como Hope Hicks, o gerente de campanha Bill Stepien, Miller e Scavino, entre outros.

Algumas mensagens incluem apenas links para reportagens e mídias sociais. Outros parecem conter conteúdo que foi recortado e colado e encaminhado. Os registros não contêm imagens ou anexos.

Apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, assistem a um vídeo com o apresentador da Fox, Sean Hannity, antes da chegada de Trump a um comício de campanha em Michigan em 30 de outubro de 2020. / Getty Images

As mensagens de Meadows também incluem dezenas de trocas com apresentadores da Fox, bem como jornalistas do New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, Associated Press, Politico, Bloomberg, NBC, ABC, CBS e CNN.

Entre as interações mais frequentes de Meadows estavam aquelas com Sean Hannity, da Fox, um conhecido amigo de Trump. Ao longo dos registros, Hannity dá conselhos e pede orientação.

Na tarde do dia da eleição, Hannity mandou uma mensagem para Meadows perguntando sobre a participação na Carolina do Norte.

Meadows respondeu: “Enfatize que cada voto importa. Saia e vote”.

“Sim, senhor”, respondeu Hannity. “Em qualquer lugar em particular, precisamos de um empurrão.”

“Pensilvânia. NC [Carolina do Norte], AZ [Arizona]”, escreveu Meadows. “Nevada.”

“Entendido. Em todos os lugares”, disse Hannity.

Na maioria das vezes, as mensagens de Meadows são curtas e frequentemente ele não parece responder. Algumas conversas incluem non sequiturs. Não está claro se Meadows não respondeu às mensagens ou se os registros estão incompletos, porque os textos também podem ter sido excluídos ou retidos por reivindicações de privilégio.

A CNN pediu comentários a todos os indivíduos que enviaram mensagens de texto citadas nesta história. Meadows e seu advogado não responderam aos pedidos de comentários. Um porta-voz do comitê de 6 de janeiro se recusou a comentar.

A luta para “parar o roubo”

As mensagens de texto fornecem uma linha do tempo que mostra como a equipe de Trump vasculhou todos os cantos em busca de evidências de fraude eleitoral e tentou anular a eleição.

Começando no dia da eleição, Meadows estava no meio de tudo, desde conectar ativistas que pressionavam teorias da conspiração até criar estratégias com legisladores do Partido Republicano e organizadores de comícios se preparando para 6 de janeiro.

As mensagens também mostram que Meadows estava lidando com tudo, desde mediar uma briga sobre quem estaria na lista de oradores para o comício de 6 de janeiro até atender pedidos para pagar as contas de Giuliani.

“Senhor, estamos no ar a caminho de Michigan. Vamos precisar de um hotel para a equipe e dois veículos para nos pegar”, escreveu Bernie Kerik, um associado de Giuliani, a Meadows em 1º de dezembro.

Procurado pela CNN para comentar, Kerik confirmou que a mensagem era dele e disse que nunca recebeu um cartão de crédito para essas despesas de viagem, pagou por ele mesmo e depois foi reembolsado.

Em algumas ocasiões, membros da família Trump se manifestaram. Ivanka Trump enviou uma nota em 5 de novembro a um grupo que incluía Kushner, Hicks, Stepien, Miller e Meadows: “Vocês são todos GUERREIROS de proporções épicas! Mantenham a fé e a luta.”

Dezenas de republicanos também ofereceram apoio e conselhos a Meadows – assim como perpetuaram teorias da conspiração que estavam ganhando força na mídia de direita.

Por exemplo, o deputado Ted Budd, um republicano da Carolina do Norte agora concorrendo ao Senado, sugeriu em uma mensagem em 7 de novembro que o Dominion Voting Systems poderia ser conectado à empresa de George Soros.

O Dominion não tem vínculos corporativos com Soros, um bilionário e alvo frequente de teorias da conspiração infundadas, de acordo com uma checagem de fatos da CNN.

Em 6 de novembro, o deputado Andy Biggs, um republicano do Arizona, pareceu sugerir que as legislaturas estaduais deveriam nomear eleitores “nos vários estados onde houve travessuras”, um movimento que ele reconheceu ser “altamente controverso”.

Em sua mensagem, ele escreveu que as legislaturas poderiam nomear “portas de um olhar”, que é foneticamente semelhante aos eleitores.

Em 1º de dezembro, o então procurador-geral William Barr enfureceu Trump quando ele declarou publicamente que o Departamento de Justiça não encontrou evidências generalizadas de fraude eleitoral.

No entanto, Meadows recebeu várias mensagens de resposta, inclusive de Schlapp mais tarde naquele dia: “Feliz por analisar nossas evidências. É (sic) esmagadora”.

A mensagens também mostram que Meadows procurou funcionários do Partido Republicano em vários estados para fazer lobby pela causa de Trump. Em duas ocasiões, Meadows tentou entrar em contato com o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, que estava sob ataque de Trump por certificar a eleição da Geórgia para Biden.

“Senhor secretário. Pode ligar para a central telefônica da Casa Branca”, escreveu Meadows em 5 de dezembro. “Sua caixa postal está cheia.”

Raffensperger não parece responder às mensagens.

Os esforços de Trump para anular os resultados das eleições na Geórgia estão sob investigação de um promotor público na área de Atlanta.

Meadows também recebeu mensagens de texto de ativistas republicanos e autoridades locais fazendo alegações bizarras, incluindo alegações de que “traidores dentro de nossas agências de inteligência” estavam cometendo fraude eleitoral, bem como acusações infundadas de que as empresas de equipamentos de votação Dominion e Smartmatic haviam manipulado votos – o mesmo falso reivindicações sendo empurradas por Giuliani e Powell.

Ambas as empresas entraram com processos de bilhões de dólares sobre as falsas alegações de eleições, inclusive contra a Fox News, organizações de mídia de direita, Giuliani, Powell e Lindell.

Ao longo dos dois meses, Meadows recebeu dezenas de mensagens da presidente do Partido Republicano do Arizona, Kelli Ward, que ofereceu o que ela alegou serem exemplos e fontes de fraude eleitoral.

Em 9 de dezembro, ela enviou uma mensagem para Meadows informando que ela já havia procurado o assistente executivo de Trump: “Esse cara diz que desvendou toda a fraude eleitoral e quer falar com alguém. Enviei suas informações para Molly Michael alguns dias atrás, mas não tenho certeza se foi a lugar algum.”

“Eu vou ligar para ele”, respondeu Meadows.

Michael James Lindell, também conhecido como “o cara do My Pillow”, fala antes de um comício para o ex-presidente dos EUA Donald Trump no The Farm , em 9 de abril de 2022, em Selma, Carolina do Norte / Getty Images

Outro contato frequente foi Lindell, um dos defensores mais vocais de teorias da conspiração eleitoral sem fundamento. Mesmo depois que os tribunais rejeitaram dezenas de contestações legais de Trump, o CEO do My Pillow ainda estava pressionando a Casa Branca.

“Tudo o que Sidney disse é verdade! Temos que pegar as máquinas e tudo o que já temos prova que o presidente ganhou por milhões de votos!” Lindell mandou uma mensagem para Meadows em 20 de dezembro.

“Este é o maior encobrimento de um dos piores crimes da história! Gastei mais de um milhão de dólares para ajudar a descobrir essa fraude e usei minha plataforma para que as pessoas pudessem receber a palavra para não desistir!”

Meadows respondeu: “Obrigado irmão. Ore por um milagre.”

Procurado para comentar pela CNN, Lindell confirmou que a mensagem era dele. Ele disse à CNN que não fala com Meadows desde antes de 20 de janeiro de 2021 e que na época estava “apenas tentando marcar um encontro com o presidente”.

Dúvidas sobre fraude eleitoral

Enquanto Trump e seus aliados mantiveram publicamente suas alegações de que a eleição havia sido roubada, nos bastidores, o círculo íntimo de Trump – incluindo Meadows – expressou algumas dúvidas. Os assessores de Trump também questionaram se advogados como Giuliani e Powell estavam fazendo mais mal do que bem.

Em 6 de novembro, Miller, porta-voz da campanha de Trump, enviou uma mensagem a um grupo, que incluía Ivanka Trump, Kushner, Hicks, Stepien, Scavino e Meadows, sugerindo que os números na Filadélfia não respaldavam alegações sobre suposta fraude eleitoral lá.

“Outro dado importante: em 2016, POTUS recebeu 15,5% dos votos no Condado de Filadélfia. Hoje ele está atualmente com 18,3%. Portanto, ele aumentou seu desempenho em 2016. Em 2016, o Condado de Filadélfia representou 11,3% do total voto no estado. Como está atualmente, o Condado de Filadélfia representa apenas 10,2% da contagem de votos em todo o estado. Portanto, o POTUS teve um desempenho melhor em uma parcela menor. O senador (Rick) Santorum estava apenas fazendo esse ponto na CNN – corta duramente contra a narrativa de roubo de votos urbanos”, escreveu Miller.

Jason Miller fala ao telefone em uma sala de reuniões para advogados do ex-presidente Donald Trump durante seu julgamento de impeachment no Senado no Capitólio, 12 de fevereiro de 2021 / Getty Images

Uma semana depois, Miller escreveu a Meadows novamente, desta vez dizendo que a pesquisa de campanha não encontrou nenhuma evidência de uma conspiração envolvendo Soros, o doador democrata. Miller também disse estar preocupado em compartilhar as descobertas com Trump.

“Muitos problemas de funcionalidade, não há muito nas conexões de conspiração Dem/Soros”, escreveu Miller em 13 de novembro. “Vou confirmar ou não a você sobre compartilhar o relatório completo com o POTUS. POTUS está claramente empolgado com isso”, disse.

Em 20 de novembro, Meadows foi questionado por um contato da Flórida sobre o quão confiante ele estava sobre a fraude relacionada ao Dominion. Meadows respondeu: “Dominion, não tão confiante. Outra fraude, muito confiante.”

Dois dias depois, Ginni Thomas enviou uma mensagem a Meadows com aparentes preocupações, perguntando: “Tentando entender o distanciamento de Sidney Powell…”

Meadows respondeu: “Ela não tem nada ou pelo menos não vai compartilhar se tiver”.

“Uau!” Ginni Thomas escreveu de volta.

Em uma das poucas mensagens que Meadows recebeu de Kushner, o genro de Trump compartilhou uma verificação de fatos em 4 de dezembro desmascarando uma das mais proeminentes alegações de fraude eleitoral da Geórgia.

O artigo mostrou que, apesar das alegações inflamatórias de trabalhadores eleitorais escondendo malas cheias de cédulas debaixo de uma mesa, isso não ocorreu de fato.

“Esperando que o VP fique conosco”

Depois que o Colégio Eleitoral confirmou a vitória de Biden em 14 de dezembro, os aliados de Trump voltaram sua atenção para 6 de janeiro: a certificação do Congresso dos eleitores e o comício que Trump disse no Twitter “será selvagem!”

Em 21 de dezembro, Brooks, o congressista do Alabama, escreveu a Meadows e outros em uma conversa em grupo perguntando se ele deveria se envolver com a mídia sobre a “formulação de nossas estratégias de 6 de janeiro”.

“A Casa Branca quer que eu responda ou fique calado?” escreveu Brooks. Um forte aliado de Trump concorrendo ao Senado este ano, Brooks fez um discurso incendiário em 6 de janeiro, mas recentemente caiu em desgraça com Trump depois de sugerir que os republicanos deveriam seguir em frente a partir de 2020.

Em resposta ao pedido de comentário da CNN, Brooks disse que “não se arrepende” de seu discurso em 6 de janeiro e que ficou “chocado” com a violência. “Eu não tinha noção”, acrescentou Brooks.

Cruz, um republicano do Texas que promoveu um plano no Senado que atrasaria a certificação da eleição, trocou apenas algumas mensagens com Meadows – links para suas declarações publicadas nas mídias sociais.

Em 2 de janeiro, o senador enviou a Meadows seu tweet propondo uma auditoria de 10 dias dos resultados das eleições.

“Aqui está a declaração”, escreveu Cruz.

“Perfeito”, respondeu Meadows.

As mensagens também fazem referência frequente ao então vice-presidente Mike Pence, que se recusou a concordar com o plano de Trump de tentar bloquear a certificação em 6 de janeiro.

No dia 30 de dezembro, o deputado Brian Babin do Texas demonstrou preocupação que líderes do Congresso poderiam dar um curto-circuito em suas objeções – e que Pence não estava a bordo.

“Os democratas e alguns republicanos podem tentar impedir nossos esforços de objeção. Espero que o vice-presidente fique conosco”, escreveu Babin.

Na véspera de Ano Novo, Miller compartilhou um artigo de notícias com Meadows que Pence se opôs a uma ação judicial destinada a ajudar a derrubar a eleição. Miller alertou que poderia ser usado “para criar uma enorme divisão entre POTUS e todos os outros no partido”.

“Ele absolutamente vai explodir com nisso, se ainda não estiver ciente”, disse Miller sobre Trump. “Oh cara, eu não entendo o que o vice-presidente estava pensando aqui.”

Em 5 de janeiro, Jordan, o congressista de Ohio e aliado próximo do Partido Republicano de Meadows, opinou.

“Em 6 de janeiro de 2021, o vice-presidente Mike Pence, como presidente do Senado, deve apontar todos os votos eleitorais que ele acredita serem inconstitucionais – de acordo com a orientação do fundador Alexander Hamilton e a precedência judicial”, escreveu Jordan.

Meadows respondeu na manhã de 6 de janeiro: “Eu tenho pressionado por isso. Não tenho certeza se isso vai acontecer.”

O comitê de 6 de janeiro incluiu a troca de texto em seu processo judicial de sexta-feira como prova do suposto envolvimento de Meadows no esforço para derrubar a eleição.

Os registros também mostram que Meadows esteve envolvido no planejamento do comício em 6 de janeiro, ajudando a mediar uma briga pela lista de oradores. A conselheira de Trump, Katrina Pierson, ficou alarmada com algumas das figuras propostas que queriam falar.

Multidões chegam para o comício “Stop the Steal” em 06 de janeiro de 2021 em Washington, DC. / Getty Images

Nos dias 2 e 3 de janeiro, Pierson escreveu para Meadows pedindo ajuda.

“Boa tarde, você se importaria de me ligar para este evento de 6 de janeiro. As coisas ficaram loucas e eu preciso desesperadamente de alguma direção. Por favor”, ela pediu em 2 de janeiro.

No dia seguinte, ela estendeu a mão novamente: “Esqueça isso, Caroline Wren decidiu seguir em frente com a lista de psicopatas original. Aparentemente Dan Scavino aprovou??”

Ela continuou: “Então, por mim chega. Eu não posso mais fazer parte de envergonhar o POTUS.”

Wren arrecadou fundos para a campanha de Trump e ajudou a organizar o comício de 6 de janeiro. Ela foi intimada pelo comitê de 6 de janeiro

Menos de uma hora depois, Pierson escreveu a Meadows que ela disse a Wren que estava conversando com a Casa Branca para fazê-la recuar.

“Eu a avisei que ia entrar em contato com WH e seu tom mudou”, escreveu Pierson. “Então, vou continuar a construir um evento adequado.”

“Obrigado”, respondeu Meadows.

“Tão ruim quanto pode ficar”

Após a violência no Capitólio em 6 de janeiro, o círculo íntimo de Trump discutiu em uma conversa em grupo como lidar com as consequências – e a suspensão de Trump do Twitter.

Às 22h10 de 6 de janeiro, Kushner enviou uma mensagem ao grupo: “Por que não postamos em sua página do Facebook, já que ele não está bloqueado lá?”

Nos últimos dias do mandato de Trump, enquanto enfrentava o impeachment pela segunda vez, Meadows recebeu palavras de incentivo de aliados leais, bem como cautela de assessores.

“Gostaria de passar a POTUS que ainda estamos com ele, acredito nele e quero encorajá-lo”, escreveu o deputado Andrew Clyde, um calouro republicano da Geórgia, em 9 de janeiro.

“Eu realmente espero que ele crie uma nova plataforma para complementar o Twitter e espero que ele chame de ‘Trumpet’ e então possamos enviar ‘notas’ um para o outro!”

“Vou compartilhar com ele. Obrigado Andrew”, respondeu Meadows.

Em 13 de janeiro, o dia em que a Câmara votou pelo impeachment de Trump por incitar a insurreição no Capitólio – com 10 republicanos se juntando aos democratas -, Miller compartilhou dados de pesquisas em uma conversa em grupo com Meadows, Scavino e Kushner que mostrou “2/3 dos votos da base MAGA [Make America Great Again] quer que sigamos em frente.”

“Tentei orientar o presidente sobre isso mais cedo, mas ele não aceitou”, disse Miller.

Enquanto Trump se preparava para deixar o poder, ele parecia um pária no Partido Republicano.

O líder do Partido Republicano na Câmara, Kevin McCarthy, disse durante o debate de impeachment da Câmara em 13 de janeiro que o presidente “tem responsabilidade” pelo motim.

Seis dias depois, em 19 de janeiro, o líder republicano do Senado, Mitch McConnell, denunciou Trump no plenário do Senado, dizendo que a multidão que atacou o Capitólio foi “provocada pelo presidente e outras pessoas poderosas”.

No entanto, a posição de Trump no Partido Republicano se recuperou rapidamente, especialmente após a visita de McCarthy em 28 de janeiro a Mar-a-Lago e a absolvição de Trump em fevereiro de 2021 no julgamento de impeachment no Senado.

Mas antes de Trump deixar o cargo, os registros de mensagens de Meadows mostram que alguns dos aliados mais leais de Trump estavam desanimados. Em 19 de janeiro, em uma das mensagens finais que Meadows recebeu como chefe de gabinete, Sean Hannity, da Fox, compartilhou um vídeo do discurso de McConnell.

Hannity mandou uma mensagem para Meadows: “Bem, isso é tão ruim quanto pode ser”.

Ryan Nobles, Tara Subramanian e Christie Johnson, da CNN, contribuíram para esta reportagem

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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