"Putin provavelmente usará estratégia de exaustão", diz professor sobre guerra
Com a resistência do povo ucraniano, um comboio militar russo que estava fora de Ivankiv, na Ucrânia, no domingo (27), chegou aos arredores de Kiev
Desde quinta-feira (24), a Rússia está invadindo o território ucraniano com ataques terrestres e aéreos. Porém, "o que era para ser uma estratégia de dominância, se tornou algo mais complicado [para Vladimir Putin]", destacou Bernardo Wahl, professor de relações internacionais da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Com a resistência do povo ucraniano, um comboio militar russo que estava fora de Ivankiv, na Ucrânia, no domingo (27), chegou aos arredores de Kiev. "[E, agora], Putin provavelmente usará estratégia de dominação", afirmou o professor. Os russos enfrentaram outros problemas logísticos também, como a falta de combustíveis.
Ele explica que a Rússia inicialmente adotou uma estratégia de choque e pavor, "tecnicamente conhecida como rápida dominância". Esse modelo é baseado no uso do de poder esmagador e exibições de forças para imobilizar a percepção do inimigo sobre o campo de batalha e perder a força de vontade de lutar.
"Qualquer planejamento militar muda quando é colocado com a realidade", diz Wahl. "[Assim], a Rússia vai se adaptar a esses problemas iniciais... ela (Rússia) pode se manifestar por meio do cerco. É possível que observe isso em kiev". A dúvida é se Putin irá ou não usar poder de fogo.
Mesmo com os ataques, ele afirma que o resultado da guerra não está definido, "invadir um país é uma coisa, conquistá-lo e mantê-lo é outra... ainda estamos nos primeiros dias".
Cenários
O professor de relações internacionais da FESPSP explicou ainda que se a Rússia derrubar o exército ucraniano, uma força de resistência sobre uma forma de insurgência e guerrilha será formada. "Porém, a Ucrânia não tem montanhas e selvas que favoreçam a guerrilha, mas tem fronteiras com países da Otan... o que possibilitaria uma linha de suprimentos para as forças [ucranianas]".
Um outro possível cenário também foi apontado por Wahl: "se a Ucrânia não tivesse aberto mão das armas nucleares no Tratado de Budapeste, [a conjuntura] talvez fosse diferente". Putin desrespeitou o memorando de Budapeste, feito em 5 de dezembro de 1994.
O memorando inclui garantias contra ameaças ou uso de forças contra Ucrânia, Bielorrúsia e Cazaquistão. Como contraponto, o governo ucraniano cedeu seu arsenal de armas nucleares.
Qual é o tamanho dos exércitos da Rússia e Ucrânia?
Veja abaixo as tropas dos dois países:
- ORÇAMENTO MILITAR DE 2021
Ucrânia: U$ 4,1 bilhões
Rússia: US$ 45,3 bilhões
- TROPAS ATIVAS
Ucrânia: 219 mil soldados
Rússia: 840 mil soldados
- AERONAVES DE COMBATE
Ucrânia: 170
Rússia: 1.212
- HELICÓPTEROS DE ATAQUE
Ucrânia: 170
Rússia: 997
- TANQUES DE GUERRA
Ucrânia: 1.302
Rússia: 3.601
- ARMAMENTO ANTIAÉREO
Ucrânia: 2.555
Rússia: 5.613
Entenda o conflito
Após meses de escalada militar e intemperança na fronteira com a Ucrânia, a Rússia atacou o país do Leste Europeu. No amanhecer de quinta-feira (24), as forças russas começaram a bombardear diversas regiões do país.
Horas mais cedo, o presidente russo, Vladimir Putin, autorizou uma “operação militar especial” na região de Donbas (ao Leste da Ucrânia, onde estão as regiões separatistas de Luhansk e Donetsk, as quais ele reconheceu independência).
O que se viu nas horas a seguir, porém, foi um ataque a quase todo o território ucraniano, com explosões em várias cidades, incluindo a capital Kiev.
Pelo menos 64 civis foram mortos desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, informou a ONU neste domingo (27).
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da agência relatou “pelo menos 240 vítimas civis, incluindo pelo menos 64 pessoas mortas” nos combates que eclodiram desde que Moscou lançou o ataque contra a Ucrânia.
Esse ataque ao ex-vizinho soviético ameaça desestabilizar a Europa e envolver os Estados Unidos. A Rússia vem reforçando seu controle militar em torno da Ucrânia desde o ano passado, acumulando dezenas de milhares de tropas, equipamentos e artilharia nas portas do país.
Nas últimas semanas, os esforços diplomáticos para acalmar as tensões não tiveram êxito.
*Com informações de Matthew Chance e Laura Smith-Spark, da CNN


