Talibã não vai excluir meninas de escolas e universidades, diz membro do governo

Um dos diretores do Ministério da Educação afegão garantiu que os avanços educacionais feitos desde 2001 não serão eliminados

Waheedullah Hashimi, diretor de programas externos do Ministério da Educação do Afeganistão durante entrevista, em 31 de outubro
Waheedullah Hashimi, diretor de programas externos do Ministério da Educação do Afeganistão durante entrevista, em 31 de outubro Reuters/Yosri Al Jamal

Gibran Naiyyar Peshimamda Reuters

Ouvir notícia

O governo Afeganistão disse que anunciará uma boa notícia em breve sobre as meninas mais velhas terem permissão para voltar à escola, mas pediu à comunidade internacional ajuda para financiar o processo, já que a maior parte da ajuda externa foi interrompida.

Garantir os direitos das mulheres e meninas tem sido uma das questões mais delicadas que o Talibã enfrenta desde que assumiu o poder em agosto, com organismos internacionais exigindo provas de que esses direitos estavam sendo respeitados para que houvesse qualquer discussão sobre o reconhecimento formal do novo governo.

Em setembro, o Talibã foi condenado pela comunidade internacional ao garantir que os meninos voltassem para a sala de aula, mas disse às meninas mais velhas que ficassem em casa até que as condições permitissem o retorno.

“Inshallah, teremos um bom anúncio para todo o país, toda a nação”, disse Waheedullah Hashimi, diretor de programas externos e ajuda do Ministério da Educação, em uma entrevista à Reuters.

Em algumas áreas do norte, as meninas já retomaram seus estudos, mas outras são forçadas a estudar escondidas. Um grande ceticismo permanece na comunidade internacional com relação à capacidade de o Talibã afrouxar as restrições. Países com posturas bem antagônicas com relação ao Talibã, como Estados Unidos e Rússia, exigem comprovações do grupo sobre o cumprimento das promessas.

“Nossos Ulema (estudiosos religiosos) estão trabalhando nisso e, em breve, inshallah, iremos anunciar (o retorno das meninas à escola) ao mundo”, disse Hashimi.

O governo anterior do Talibã, entre 1996 e 2001, proibiu a educação das meninas para além da escola primária e as mulheres foram praticamente excluídas do mundo do trabalho remunerado.

Hashimi disse que o movimento está empenhado em educar as meninas e está trabalhando em maneiras de levá-las de volta à escola. Ele disse que nenhuma professora foi demitida e que esta foi “uma mensagem positiva para o mundo”. O líder garantiu ainda que o Talibã “não trabalha com a ideia de exclui-las de nossas escolas e universidades”.

No entanto, Hashimi também disse que a educação, como outras áreas do governo, foi duramente atingida pela retirada abrupta do apoio estrangeiro após o colapso do governo apoiado pelo Ocidente, em agosto, e ele apelou para que a ajuda seja restaurada.

“Se eles realmente querem ver as meninas nas escolas, devem nos ajudar agora”, disse Hashimi.

Embora os gastos com educação tenham aumentado lentamente sob o governo anterior, um relatório da UNESCO disse que a ajuda externa representava quase metade do orçamento para educação em 2020.

Além da questão da educação das meninas, Hashimi disse que o ministério está trabalhando em um novo currículo para alinhar as escolas aos princípios do Islã e com a cultura local, mas também visando respeitar padrões internacionais.

“As mudanças serão de acordo com os padrões internacionais para física, química e biologia, para todas as disciplinas de ciências”, disse Hashimi, acrescentando que nenhuma mudança foi feita ainda no currículo.

Ele disse que funcionários do ministério têm trabalhado em estreita colaboração com agências internacionais, que, segundo a autoridade, têm reagido positivamente aos documentos apresentados pelo Talibã.

No entanto, ele advertiu que o sistema seria estabelecido de uma maneira que agradaria aos líderes e acadêmicos do Talibã, e não baseado em pressões internacionais.

“Queremos educar, e iremos educar, nossas mulheres e homens, meninos e meninas”, afirmou Hashimi.

Mais Recentes da CNN