Especialista defende política integral no combate à violência contra mulher

Em entrevista ao Live CNN, Beatriz Accioly afirmou que combate à violência de gênero deve envolver diferentes setores da política pública

Da CNN Brasil
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A violência contra a mulher no Brasil segue registrando números alarmantes e exige atenção redobrada de quem ocupa ou vier a ocupar cargos públicos.

Em entrevista ao Live CNN desta terça-feira (18), a doutora em Antropologia pela USP e gerente do compromisso pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura Beatriz Accioly, destacou que o enfrentamento do problema depende de uma articulação ampla entre diferentes setores da política pública.

Accioly citou a Pesquisa Nacional da Violência contra a Mulher, realizada bianualmente pelo Datasenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, para ilustrar a dimensão real do problema.

"Essa pesquisa estima que a gente tem uma demanda anual de 29 milhões de mulheres no Brasil, acima de 16 anos, passando por violência doméstica familiar. Esse é o tamanho da demanda, nem perto desse número chega ao Estado", afirmou.

A especialista também apontou que muitas mulheres têm dificuldade de nomear e declarar as violências que sofrem.

"O número é ainda maior entre aquelas que, primeiramente, não respondem que passaram por violência, mas depois, quando são apresentadas por uma série de situações, aí sim reconhecem que viveram algum tipo de violência nos últimos 12 meses", explicou.

Para ela, a sociedade entrou em um patamar estável de resposta ao problema e não tem conseguido avançar.

De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, apenas no primeiro semestre deste ano foram registrados 741 feminicídios no Brasil, uma queda de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025, mas ainda um número considerado alarmante.

No mesmo intervalo, foram contabilizados 337 mil pedidos de medidas protetivas, recorde na série histórica.

Política integral

Accioly foi enfática ao afirmar que o combate à violência contra a mulher não pode se restringir à atuação policial ou judicial.

"A violência contra a mulher é um problema que envolve vários setores da política pública. Ela precisa da segurança pública, sim, da delegacia, sim, da justiça, sim, mas ela é uma política integral", declarou.

Segundo ela, a assistência social, a saúde e a interoperabilidade entre esses setores são igualmente fundamentais.

A especialista exemplificou que uma mulher que chega a uma Unidade Básica de Saúde ou a um pronto-socorro com queixas relacionadas à violência doméstica ainda não conta com uma jornada acompanhada que acione automaticamente a segurança pública. "Hoje nós temos as demandas fatiadas", criticou.

Ela também lembrou que a Lei Maria da Penha, desde sua criação, prevê uma abordagem integral. "A gente tem que avançar para além dos mecanismos de punição e de segurança da lei, e olhar para o que a lei promete, que é proteger a mulher integralmente."

Também de acordo com a pesquisa do Datasenado, 67% das mulheres dizem conhecer pouco a Lei Maria da Penha, e 11% a desconhecem totalmente, o que reforça a necessidade de campanhas de informação e conscientização.

Compromisso político

Além das políticas públicas, Accioly destacou o papel da sociedade no enfrentamento da violência. "A gente pede para as mulheres quebrarem o silêncio, a gente pede para elas pedirem ajuda, mas a gente não se preparou para escutar", afirmou.

Ela observou que a maior parte das vítimas busca primeiro o apoio de familiares ou colegas de trabalho, e não necessariamente a polícia ou especialistas.

Para a antropóloga, é fundamental que o tema apareça nas pautas orçamentárias e nos compromissos políticos. "Aquilo que só está no discurso e não no recurso não encontra uma solução", disse.

Ela também alertou que a violência contra as mulheres não é uma agenda acessória: "Ela é tão importante quanto infraestrutura e economia. O Brasil é mais pobre, é mais desigual, é menos desenvolvido porque é um país violento contra as mulheres."

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