MP aponta Beto Louco e Primo como líderes de esquema bilionário

Operação Crédito Oculto investiga suposta estrutura para aquisição da Terrana, movimentação de recursos e ocultação de patrimônio ligado ao setor de combustíveis

Khauan Wood, da CNN Brasil*, Bruno Teixeira, da CNN Brasil, Yuri Cavalieri, da Itatiaia, em São Paulo
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O MPSP (Ministério Público de São Paulo) apontou que os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, seriam líderes estratégicos de uma organização criminosa investigada por fraude e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Os dois são considerados foragidos desde 2025.

A apuração é conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), em conjunto com a Receita Federal, na Operação Crédito Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24).

A Operação Crédito Oculto cumpre mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo.

A Justiça de São Paulo também autorizou o bloqueio de contas bancárias e o sequestro e a indisponibilidade de imóveis e ativos financeiros da Terrana, dos investigados e dos fundos mencionados no processo.

As medidas têm como objetivo, segundo a decisão judicial, interromper as atividades investigadas e preservar recursos para eventual ressarcimento aos cofres públicos.

Segundo a investigação, a estrutura teria sido criada para viabilizar a aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana, sem revelar os supostos beneficiários do negócio.

A investigação aponta que a distribuidora seria usada para abastecer uma rede de postos ligada ao grupo e que a organização teria recorrido a estruturas do mercado de capitais para ocultar patrimônio.

Como funcionaria a estrutura

De acordo com o MP, a operação envolvia empresas, fundos de investimento e instituições financeiras distribuídos em diferentes etapas.

A Usina Itajobi aparece como cotista exclusiva do Radford Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado.

Também foram identificadas as empresas Berna Holdings e Branson Holdings, registradas formalmente em nome de Paulo Nárcelio Simões do Amaral. Segundo o Gaeco, as duas tinham capital social de R$ 1 mil e estavam registradas em um endereço em Pinheiros, na zona Oeste de São Paulo.

A investigação aponta ainda a emissão de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) destinadas ao Banco Genial. Uma delas tinha valor de R$ 60,5 milhões e a outra somava R$ 99,8 milhões.

Os recursos teriam sido utilizados na aquisição do Fundo Derby 44, atualmente Wels, e da Tramp Oil (Brasil) Ltda., atualmente Branson Oil, empresa apontada como detentora de 100% das cotas da Terrana.

Outra empresa citada é a 7Seven Apoio e Serviços Administrativos que, segundo a investigação, teria sido usada para movimentar recursos por meio de “contas bolsão” e pagar funcionários da distribuidora.

Executivos do mercado financeiro são investigados

O MPSP também aponta a participação de representantes do mercado financeiro na estrutura investigada.

Entre eles estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, então sócio e diretor do Banco Genial, e seus irmãos André e Bruno Tupinambá. A investigação atribui ao grupo participação na estruturação de garantias bancárias e no financiamento das operações.

Outro alvo é Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, proprietário da Entre Investimentos e do Fundo Celebration.

Segundo o Gaeco, empresas ligadas a Freixo teriam funcionado como “contas de passagem” para movimentar dezenas de milhões de reais destinados ao Fundo Radford e à Usina Itajobi.

A Credihome SCD, atualmente Octa, também é citada. A instituição, adquirida pelo Grupo Entre, teria aberto uma conta para a Usina Itajobi um dia antes da emissão das CCBs usadas no financiamento das operações.

Segundo a apuração, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) registrou movimentações consideradas atípicas envolvendo Freixo, com R$ 71 milhões em créditos e R$ 128 milhões em débitos.

Ainda foram apontados repasses superiores a R$ 1,2 bilhão em empresas de consultoria ligadas ao grupo.

Plano para desvincular empresas

Mensagens extraídas de celulares apreendidos teriam registrado a reação do grupo após a primeira fase da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025.

Conversas de WhatsApp apontariam a participação do contador Gunar Marcondes da Silva, do gerente Gustavo Nascimento de Oliveira e de Ioná Patricia de Lima Andrade, sob coordenação atribuída a “Primo”.

Em 1º de setembro de 2025, o contador teria elaborado um plano para cortar os vínculos formais entre a Terrana e Beto Louco e Primo. Segundo o MP, Paulo Nárcelio encaminhou a Gunar uma mensagem sugerindo a transferência da equipe para um escritório virtual.

Vc poderia Levar o time pra um Escritório we work? Precisa desvincular. Já falei com os caras
Mensagens de Paulo Narcélio para Gunar

Na mesma data, Gunar sintetizou uma lista com 9 pendências estratégicas projetadas especificamente para apagar rastros e cortar a solidariedade jurídica entre a Terrana e as empresas de fachada do grupo

Também teria sido determinada a retirada de marcas da Terrana das fachadas dos postos. A investigação aponta ainda uma orientação para apresentar publicamente a empresa como parte de um “programa de franquias em revisão”.

MP rejeitou proposta de delação

Segundo informações do MPSP apresentadas no caso, Beto Louco e Primo teriam tentado negociar acordos de colaboração premiada com o Ministério Público paulista.

A proposta, porém, foi rejeitada pelo procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa.

Conforme as informações apresentadas pelo MPSP, a recusa estaria relacionada à avaliação de que os empresários teriam omitido informações sobre supostos esquemas de lavagem de dinheiro e conexões com integrantes do PCC.

Também foram citadas inconsistências sobre possíveis relações com agentes públicos e políticos.

Outro lado

Procurada, a defesa de Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, informou que não irá se manifestar.

Em nota, o Banco Genial ressaltou que Humberto Tupinambá não atua mais na instituição. Veja o posicionamento na íntegra:

"O Banco Genial esclarece que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.

Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.

No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.

A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.

Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.

A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários."

A CNN Brasil entrou em contato com a Entre Investimentos e tenta localizar a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.