PCC terrorista: empresas no México e França podem ser exemplos ao Brasil

Lincoln Gakiya cita prejuízos sofridos por empresas internacionais como possibilidades para companhias brasileiras após designação de facções como terroristas pelos EUA

Rafael Saldanha, da CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

A designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como terroristas pelos Estados Unidos pode trazer graves consequências às empresas brasileiras. É o que afirma o promotor do Gaeco (Grupo de Atuação Especial em Combate ao Crime Organizado) de Presidente Prudente (SP), Lincoln Gakiya.

Em um evento do ICC Brasil, na última quinta-feira (13), Gakiya citou o histórico de grandes prejuízos financeiros sofridos por empresas no México e na França após a detecção de exposição à organizações terroristas, como exemplos do que pode acontecer com companhias no Brasil após a nova classificação feita pelo governo de Donald Trump. 

O promotor destacou que os EUA podem sancionar uma empresa caso identifiquem a participação de uma organização terrorista em qualquer ponto da cadeia estrutural da companhia.

A "contaminação" não precisa ser proposital, ela pode ser "involuntária e indireta" para a aplicação de sanções. "A ordem do tesouro não depende de prova legal ou disputa judicial, ela é unilateral", afirma Gakiya.

  • No final de maio, o Governo dos Estados Unidos designou as duas facções brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT, na sigla em inglês), conforme as listas do Departamento do Tesouro dos EUA.

Ele explicou que, conforme o modus operandi atual do PCC, a facção não se infiltra em empresas apenas para lavar dinheiro, mas para lucrar com seus resultados. "Eles querem uma fatia do negócio".

O promotor citou o exemplo da UpBus, empresa de ônibus paulista investigada por ligação com a facção, e lembrou que traficantes conhecidos do PCC — Silvio Luiz Ferreira, o "Cebola", Décio Gouveia Luiz, o "Décio Português", e Anselmo Santa Fausta, o "Cara Preta" — eram sócios da companhia, mas os funcionários não tinham nenhuma ligação com a organização criminosa.

Empresas mexicanas sancionadas

Gakiya mencionou a situação de três companhias mexicanas como exemplo do que pode ocorrer no Brasil: CIBanco, Intercam e Vector Casa de Bolsa, que sofreram sanções graves dos Estados Unidos em 2025. 

Em fevereiro do ano passado, o Departamento de Tesouro dos EUA designou diversas organizações criminosas mexicanas como FTOs: Cartel de Sinaloa, Cartel de Jalisco Nueva Generación, Cartel del Noreste (anteriormente Los Zetas), La Nueva Familia Michoacana, Cartel do Golfo e Cartéis Unidos.

Apenas quatro meses depois, em 25 de junho de 2025, a administração norte-americana sancionou as três empresas como "principais preocupações de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de fentanil", desempenhando juntas "um papel vital e de longa data na lavagem de milhões de dólares em nome de cartéis sediados no México". Instituições financeiras ficaram proibidas de realizar certas transferências financeiras com as companhias, isolando-as do sistema financeiro dos EUA. 

No dia seguinte, órgão regulador bancário mexicano anunciou que iria assumir a gestão das três instituções financeiras temporariamente, visando proteger credores e depositantes.

Até o final de 2025, todas as instituições tiveram suas operações extremamentes reduzidas no México. A Vector Casa de Bolsa transferiu seus ativos para outra corretora, a Intercam foi adquirida por outra empresa e o CIBanco transferiu sua operação fiduciária para outro banco.

Na época das primeiras sanções, as empresas rejeitaram as acusações, negaram qualquer ligação com o crime organizado e reforçaram a colaboração com as autoridades.

Caso Lafarge

A condenação e perdas milionárias da Lafarge, fabricante de cimento francesa, é uma das mais conhecidas por ligação internacional com terrorismo.

Em 2011, uma subsidiária na Síria operava durante a Guerra Civil e, segundo Gakiya, era extorquida por terroristas a pagar "taxas de segurança"- prática parecida com a atuação de milícias no Brasil, principalmente na zona Oeste do Rio de Janeiro e no Centro de São Paulo.

A empresa pagou cerca de 5,5 milhões de euros (R$ 33 milhões, na cotação atual) ao Estado Islâmico e à Frente Nusra, ambas organizações terroristas designadas pelos EUA, entre 2013 e setembro de 2014. 

Em outubro de 2022, a empresa francesa se declarou culpada de uma acusação dos Estados Unidos de conspiração para fornecer apoio material a uma ou mais organizações terroristas estrangeiras, sendo multada em US$ 777,28 milhões pelos norte-americanos, mais de R$ 4 bilhões na cotação atual.

O ex-CEO da Lafarge, Bruno Lafont, e outros oito ex-funcionários foram considerados culpados pela Justiça francesa em abril deste ano, sendo que o executivo foi condenado a seis anos de prisão. A juíza Isabelle Prevost-Desprez, que presidiu o caso, afirmou que os pagamentos feitos pela Lafarge ajudaram a fortalecer grupos jihadistas que realizaram ataques mortais na Síria.

Entenda: PCC evolui de violência na fronteira para laboratórios de cocaína na Europa

Impactos prováveis no Brasil

Reforçando as possíveis consequências negativas da designação dos EUA, o promotor listou uma série de prováveis impactos às empresas brasileiras:

  • Encarecimento e retração de crédito, financiamento de importação e câmbio;
  • Sanções secundárias a empresas que mantenham relação com contrapartes suspeitas, mesmo com exposição mínima;
  • De-risking - Bancos cortam relacionamento com clientes só para reduzir exposição;
  • Redirecionamento de capital para jurisdições com risco percebido menor;
  • Exclusão de empresas brasileiras de cadeias internacionais de suprimento;
  • Dilema regulatório - reportar ao Coaf pode expor a empresa como contraparte de alvo sancionado,

O promotor participou, junto com outras autoridades, do ICC Integrity Conference em São Paulo, que debateu como o combate à corrupção, às fraudes, à lavagem de dinheiro e às organizações criminosas contribui para um ambiente de negócios mais confiável e para uma inserção mais sólida do Brasil nas cadeias globais de valor.

Leia também: Novo organograma do PCC mostra "sintonias" e dimensão da facção; veja

*Com informações da Reuters