Bolsonaristas contornam ordem do STF e mudam localização para continuar postando

Sara Winter, Allan dos Santos, Bernardo Küster e Otávio Fakhoury usaram suas contas no Twitter mesmo após ação da rede social para restringir seus acessos

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
24 de julho de 2020 às 17:11 | Atualizado 24 de julho de 2020 às 22:06
Mensagens compartilhadas no Twitter por Bernardo Küster (acima), Allan dos Santos e Sara Winter mesmo depois terem suas contas restringidas
Foto: Reprodução/ Twitter

Alguns dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que tiveram suas contas no Twitter bloqueadas nesta sexta-feira (24) por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), contornaram a medida tomada pelo site e continuaram publicando mensagens na rede social.

Isso foi possível porque a conta deles não foi suspensa, mas apenas sofreu uma restrição para não ser acessada por pessoas no Brasil. Assim, com mudanças na funcionalidade de localização do Twitter, torna-se possível ler os tweets dos alvos da decisão judicial. 

Em maio, Moraes determinou o bloqueio das contas nas redes sociais "para a interrupção dos discursos com conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática".

Em nota, o Twitter informou que "agiu estritamente em cumprimento a uma ordem legal proveniente de inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF)". 

A CNN identificou que pelo menos quatro dos 16 alvos da ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), contornaram a proibição: a ativista Sara Giromini, conhecida como Sara Winter, os blogueiros Allan dos Santos e Bernardo Küster, e o empresário Otávio Fakhoury.

“Antes que tirem o recurso de mudarem de país ou bloqueiem de uma vez por todas, gostaria de deixar claro que: O CABEÇA DE PIROCA UM DITADOR DE MERDA. Conseguem ler?”, escreveu, ofendendo Moraes. Sara chegou a ser presa em junho após o ministro aceitar pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Assista e leia também:

PGR divergiu de decisão de Moraes de bloquear contas bolsonaristas

Decisão do STF determina multa de R$ 20 mil caso redes não derrubassem contas

Roberto Jefferson diz que incomoda STF por ter muita interação no Twitter

Já Küster escreveu que não foi informado sobre a decisão judicial que bloqueou sua conta na rede social. “A única de que tenho notícia era do inquérito ilegal, a mesma que permitiu buscas e apreensões. POR QUE AGORA? Vão bloquear outras também? Saibam, não vão parar em mim”, afirmou.

Em outra mensagem, ele postou instruções de como os usuários deveriam proceder para poder acompanhar suas publicações e terminou com uma ofensa ao ministro do Supremo. “Tente censurar o Tio Sam agora, Cabeça de Ovo!”

Allan do Santos, conhecido como Allan Terça Livre, usou sua conta para publicar uma mensagem em inglês. No texto, publicado com a hashtah #FreedomOfSpeech (Liberdade de Expressão), ele disse que quem podia ler sua mensagem estava fora do Brasil e que o STF havia banido sua conta no Brasil.

Mais econômico, Fakhoury publicou uma mensagem apenas questionando o advogado João Vinícius Manssur: “Foi o STF que me calou?”.

Bolsonaristas se manifestam

Alvos da decisão do STF e outros partidários do presidente se manifestaram nas redes sociais sobre a decisão.

“Mais uma censura grave do Supremo. Em pleno terceiro milênio e uma ditadura desses juízes, eu fui censurado mais uma vez. Eu tenho 210 mil seguidores e 90 milhões de interações, estão calando a minha voz”, disse o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, em entrevista à CNN.

O empresário Otávio Fakhoury também se manifestou. "Estamos na China. Fomos censurados como queriam. Um dos objetivos desse inquérito é censurar e intimidar pessoas ligadasà direita brasileira", disse.

O empresário Luciano Hang se pronunciou por meio de nota. "Recebi com surpresa o bloqueio das minhas redes sociais. Reforço que jamais atentei contra o STF (Supremo Tribunal Federal). Acredito na democracia e que ela só existe através da plena liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal. Todos têm o direito de expressar opiniões individuais. Para construirmos um país cada vez melhor é necessário discutir ideias e manter o debate aberto para toda a sociedade. Isso é o que eu sempre defendi."

Reynaldo Bianchi Júnior negou que financie fake news. "Em primeiro lugar, fui acusado de financiador de fake news, o que JAMAIS provaram e que NUNCA fui. Em todo o processo, não existe NENHUMA prova contra mim. Essa decisão mostra o autoritarismo, ativismo judiciário e destruição da democracia, realizado por alguns ministros do STF.  A sociedade é completamente contra esses atos!"

"Eu, Sara Winter, encaro isso realmente como uma censura a todos os apoiadores do presidente Bolsonaro", disse Sara Giromini. Por meio de nota, sua defesa disse que "denunciará aos organismos internacionais de direitos humanos a grave ofensa à liberdade de expressão, direitos e garantias fundamentais".

Marcelo Stachin disse que jamais fez citações que atacassem quaisquer das instituições. "Sempre defendi a liberdade delas, e que todas possam atuar em conjunto para benefício do nosso país.  Acredito que o Inquérito das Fake News bem com a PL 2630 poderá destruir nossa liberdade, ou o que ainda resta dela. E isso inclui não somente os apoiadores do Presidente Bolsonaro mas a própria imprensa. Hoje somos nós os conservadores, da direita, os bolsonaristas, mas amanhã, serão os outros milhões que iro perder  seu direito à livre opinião. A atuação do STF através do grotesco e inconstitucional Inquérito, é a maior demonstração da ditadura no judiciário brasileiro contra a nossa nação!"

Edson Pires Salomão também acredita ser alvo de censura. "Hoje foi institucionalizado o crime de opinião", afirmou." Foi declarada a censura aos conservadores por meio de uma decisão do STF."

Bernardo Küster manifestou-se por meio de nota de seus advogados. Sua defesa classificou a decisão como censura e disse que ela viola a Constituição, o Marco Civil da Internet, a Convenção Americana de Direitos Humanos e a Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão. "Todas as medidas serão tomadas dentro e fora do país, manifestado, outrossim, nosso mais absoluto repúdio a qualquer espécie de censura e intimidação do jornalista pelas autoridades brasileiras", disse, em nota. 

Rafael Moreno disse que a conduta desrespeita a Constituição e que a atuação do STF está sendo "ditatorial". "Esta~o nos amordac¸ando e querendo suprimir os movimentos a favor do Presidente Bolsonaro e o avanc¸o do conservadorismo. Um atitude execra´vel e infame, que mostra a face perversa do Politicamente Correto. Continuarei lutando para que seja extirpado a mordac¸a que nos querem impor, pore´m comigo na~o acontecera´", afirmou, em nota. 

Edgard Gomes Corona não vai se manifestar no momento.

(Com reportagem de Larissa Rodrigues, da CNN, em Brasília)