Em depoimento à CPI, Queiroga se omite sobre cloroquina e gestão Bolsonaro

Sessão em que o cardiologista prestou depoimento durou cerca de dez horas

Bia Gurgel, Larissa Rodrigues, Murillo Ferrari e Renato Barcellos, da CNN, em Brasília e São Paulo
06 de maio de 2021 às 09:54 | Atualizado 06 de maio de 2021 às 20:49

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia de Covid-19 recebeu nesta quinta-feira (6) o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para tratar da aquisição e distribuição de vacinas contra o novo coronavírus e do planejamento da imunização para o próximo ano.

Após uma pausa no final da tarde, a sessão foi retomada por volta das 18h40.

O depoimento do presidente-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, que estava previsto para as 16h, foi adiado para a próxima terça-feira (11).

Resumo da CPI da Pandemia:

Estados e municípios devem poder fazer lockdown

Ao ser questionado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) sobre medidas de isolamento e lockdown para diminuir a transmissão do novo coronavírus, o ministro disse ser a favor da autonomia sobre essas questões.

"Está sendo elaborado um protocolo sobre isso. Estamos assistindo uma queda no número de casos. Estados e municípios estão flexibilizando tudo. Fazemos um pouco de cada uma dessas ações e gera um impacto menor do que tivemos", afirmou Queiroga.

Ao ser questionado se isso significa que ele era a favor de Estados e municípios terem autonomia sobre o tema, ela reiterou: "Isso tem sido feito. Claro que eu concordo".

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O ministro também disse não ter conhecimento sobre uma suposta guerra química vinda da China, por meio do novo coronavírus, como sugerido pelo presidente na véspera – na ocasião, Bolsonaro não citou o nome do país asiático, mas deixou isso subentendido.

"Desconheço indicio de guerra química vinda da China. As relações com a China, pelo que entendo, são excelentes. O Brasil e China são muito sólidos e a relação com embaixador chinês tem sido muito boa", ressaltou Queiroga. 

"O presidente da república não fez menção à China, então espero que as relações continuem muito boas e não tenhamos impacto em tratativas com o país."

Embora tenha defendido lockdown em casos específicos, o cardiologista disse que um fechamento em nível nacional "é muito difícil". "Hoje está diminuindo os casos da doença, há vagas de UTI, assim, estamos assistindo uma reabertura”.

Necessidade de mais doses de vacinas

O ministro da Saúde afirmou que o país precisa de mais doses para acelerar o programa de imunização contra a Covid-19, mas ressaltou que há uma dificuldade mundial para que até doses já contratadas sejam entregues.

"É preciso ter mais doses para acelerar [o programa de vacinção]. Precisa de mais ativismo do nosso governo, que tem ocorrido sob liderança do ministro [das Relações Exteriores], Carlos França. Temos dialogado permanentemente com embaixada da China, da Índia, do Reino Unido, dos EUA", disse Queiroga.

"Temos que adotar o pragmatismo pra ter os insumos que são fundamentais. Estamos em dialogo com todas as instancias que podem nos ajudar nisso."

Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, presta depoimento na CPI da Pandemia
Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, presta depoimento na CPI da Pandemia
Foto: Edilson Rodrigues - 6.mai.2021/Agência Senado

Ele voltou a dizer que sua pasta está na iminência de fechar um novo contrato para o fornecimento de mais 100 milhões de doses pela Pfizer, com entrega de 35 milhões já em setembro.

Ele também disse que, ao todo, o governo tem 430 milhões estão contratadas. "E mais 100 milhões com a Fiocruz, que não tem contrato, mas estão asseguradas dentro da encomenda tecnológica feita pelo Ministério."

Declarações de Bolsonaro não atrapalham vacinação

Na opinião de Queiroga, as reiteradas declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contrárias às vacinas contra Covid-19 – como a frase em dezembro de 2020 dizendo que não se responsabilizaria se alguém virasse jacaré após tomar a vacina da Pfizer – não prejudicam a campanha nacional de imunização.

"Essa são posições externadas pelo presidente da República que eu penso que não tem impacto na campanha de vacinação. A população brasileira, mais de 85%, em pesquisas, mostram que querem receber a vacinação e o governo enviou uma Medida Provisória ao Congresso alocando mais de R$ 20 bilhões para aquisições de vacinas", disse o ministro.

Queiroga afirmou que não faria juízo sobre as opiniões de Bolsonaro, já que essa não seria sua função, mas afirmou que o presidente tem apoiado a campanha de vacinação contra o novo coronavírus.

"Minha opinião é que estamos implementando uma campanha de vacinação que está sendo bem sucedida. (...) É isso que poso dizer."

Autonomia para formar equipe no ministério

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Queiroga afirmou à CPI que recebeu autonomia do presidente para escolher os membros de sua equipe à frente do Ministério da Saúde. 

"Recebi autonomia para isso e todos os meus secretários foram escolhidos confirme critérios técnicos (...) são pessoas de perfil técnico e achei por bem mantê-los. Mas tenho autonomia para tirá-los a qualquer momento, desde que seja por interesse público e por direcionamento da nossa gestão", declarou.

Ele afirmou ainda que não sofre influência de membro da família do presidente da República. "[Não influi] em nenhum ponto. Nossa gestão é autônoma."

Bolsonaro não deu orientação sobre uso de cloroquina

O ministro foi questionado pela relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), se teria recebido algum tipo de orientação por parte do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre o uso da cloroquina em pacientes com Covid-19.

"Não recebi [orientação]. Essa é uma questão técnica que tem que ser enfrentada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Eu sou instancia final decisória, e posso ter que dar um posicionamento acerca disso", disse Queiroga. 

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Queiroga disse também que "não houve qualquer tipo de pressão" sobre uso de qualquer remédio e que está em elaboração um protocolo clínico para substituir a atual orientação sobre o uso de cloroquina.

Ele afirmou ainda que não autorizou e não tem conhecimento sobre a distribuição do remédio na sua gestão à frente da pasta.

Mais tarde, o minsitro afirmou que presenciou o presidente defender o tratamento precoce "em uma única oportunidade". Segundo o médico cardiologista, a manifestação pública ocorreu durante uma visita a Chapecó, oeste do estado de Santa Catarina. 

"Em manifestação pública, em Chapecó, o presidente fez menção que tinha usado um remédio, mas não citou o nome. Ele defendeu um atendimento imediato naquele momento e disse que tinha tomado um medicamento que, para ele, achava que tinha feito efeito", disse.

Ministro diz que faltou fortalecer o SUS antes da pandemia

Queiroga afirmou que o Brasil deveria ter fortalecido o Sistema Único de Saúde (SUS) antes da pandemia do novo coronavírus para evitar o colapso, como visto em algumas regiões, e também para diminuir o número de vítimas da doença.

"Os senhores sabem as condições que o SUS estava o sistema antes dessa pandemia: Unidades de Terapia Intensiva (UTI) lotadas, dificuldades nos pronto-atendimentos, problemas com médicos especialistas. Isso é o que faltou, sobretudo para atender pacientes com síndromes respiratórias agudas graves", disse Queiroga, ao ser pressionado por Renan.

Antes, ele havia dito que não tinha uma resposta exata para essa situação porque a crise atual é causada por um "vírus com uma imprevisibilidade extrema, que tem capacidade de mutações".

Queiroga defende vacinação como saída para a crise

Em sua intervenção inicial, antes dos questionamentos de Renan, Queiroga defendeu que as vacinas são a solução para o fim da pandemia.

“Entendo que minha participação aqui visa buscar, sim, soluções para o enfrentamento eficaz deste problema. E destaco que a solução que temos para a pandemia é a campanha de vacinação. Precisamos vacinar nossa população”, afirmou o ministro.

“A vacina contra Covid é uma resposta de ciência. Nunca, em tão pouco tempo, tivemos vacinas eficazes para combater uma doença viral como a Covid – os senhores sabem as dificuldades com a dengue,  que ainda não temos uma vacina específica”, completou.

Ele disse ainda que o Brasil é, reconhecidamente um país com competência para vacinar sua população e elogiou o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), principais produtores nacionais de vacinas.

"Claro que só tenho pouco mais de 40 dias à frente do Ministério da Saúde e não tenho condições de me ater a todos os detalhes de um ministério extremamente complexo, como é o da Saúde, e que nessa condição sanitária é foco de todos os brasileiros", afirmou.

O ministro defendeu também que não se deve aprofundar as divergências no país, mas sim construir consensos para que o Brasil possa sair da pandemia de Covid-19.

"É dever do ministério da saúde proteger o Sistema Único de Saúde (SUS), um patrimônio de cada um dos 220 milhões de brasileiros, e deve ser o compromisso de qualquer cidadão que assume o Ministério da Saúde. Gostaria de pedir aos senadores um voto de confiança para que nosso trabalho no Ministério da Saúde possa ser continuado e aprimorado."

Ao ser questionado sobre a data de vacinação da população brasileira, o médico afirmou que a expectativa é que “acima de 18 anos, até o final do ano, todos sejam vacinados”. No entanto, para que isso aconteça, é necessário "que todas as doses contratadas cheguem”.

Quebra de patentes

Queiroga classificou a questão da quebra de patentar como "sensível" e afirmou temer que o Brasil não tenha condições de, mesmo com a quebra, produzir as vacinas no país. Segundo ele, isso poderia interferir de maneira negativa no aporte de imunizantes que venham de fora.

"O governo depende dos laboratórios para receber as vacinas, até agora a maioria das vacinas foi do Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz. Na Fundação poderemos produzir vacina no futuro. Estamos construindo um cenário muito bom para a produção de vacinas no futuro”.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é ouvido em sessão da CPI da Pandemia
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é ouvido em sessão da CPI da Pandemia
Foto: Jefferson Rudy - 6.mai.2021/Agência Senado

Relação do Brasil com a China

O ministro ressaltou que vem trabalhando para melhorar a relação com os chineses e declarou que o país é o "melhor parceiro comercial" do Brasil. 

"Hoje de manhã meu secretário se reuniu com uma farmacêutica chinesa, amanhã eu tenho reunião, junto com o nosso chanceler, e vamos nos encontrar virtualmente com o embaixador chinês", disse. 

Volta às aulas

Questionado pela senadora Leila Barros (PSB-DF) sobre a volta às aulas, o cardiologista revelou que esteve com um representante da Unicef no último domingo (2) para tratar do assunto. "A minha opinião pessoal é a favor do retorno das aulas", disse.

Segundo o ministro, saúde e educação "são prioridades absolutas do Estado brasileiro". "O ministério [da Saúde] irá liderar o assunto com o ministério da Educação, mas isso será tratado com os secretários de Educação. Vamos avançar nesse debate. Eu vou ligar para ele [ministro da Educação, Milton Ribeiro] amanhã”

Randolfe não descarta convocar filhos de Bolsonaro

Pouco antes do início da sessão da CPI nesta quinta-feira, o vice-presidente da comissão, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou, em entrevista à CNN, que o requerimento para convocar os filhos do presidente Jair Bolsonaro à CPI já está pronto, mas ainda será discutido se há motivos para eles serem chamados a depor.

"O requerimento está pronto, mas vamos analisar a conveniência porque não existe nada de pessoal contra o presidente ou contra qualquer um dos filhos dele. Temos que encontrar se existem mais elementos que nos levem a participação deles nesse chamado gabinete paralelo", disse Randolfe.

"Por mais que o vereador no Rio de Janeiro se dedique mais a um gabinete de ódio e fake news, atacando notadamente os membros desta CPI, por mais que cada um de nós pudéssemos ter razão particular, não seremos levados pelo fígado", completou, se referindo a Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Convocação feita por vários senadores

Até então, a CPI da Pandemia não havia se debruçado sobre os imunizantes contra a Covid-19, uma vez que não haviam vacinas desenvolvidas quando os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que já foram ouvidos pelos senadores, ocuparam o cargo.

Queiroga está à frente do Ministério desde 23 de março deste ano. O médico cardiologista assumiu o cargo com o desafio de chefiar a pasta no pior momento da pandemia no país, quando se somavam cerca de 300 mil mortes no Brasil – atualmente, são 414.399 vítima da pandemia.

A participação do atual titular da pasta atende quatro requerimentos de convocação, de autoria do relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), do vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e dos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Eduardo Girão (Podemos-CE).

Para Randolfe, a constante troca de ministros da Saúde em meio à pandemia é, por si só, um enorme problema para a gestão do Ministério.

“Só foi possível chegar a essa situação catastrófica por conta dos inúmeros e sucessivos erros e omissões do governo no enfrentamento da pandemia da covid-19 no Brasil. O senhor Marcelo Queiroga pode ajudar esta comissão parlamentar de inquérito a elucidar se o Brasil segue no mesmo caminho de erros nesta tragédia que vivemos”, afirmou o senador, em sua justificativa para ouvir o ministro.

Cloroquina e ivermectina na pauta

O ministro da Saúde foi questionado reitereda vezes, por senadores independentes e governistas que integram a comissão de inquérito, sobre o uso dos medicamentos cloroquina e ivermectina no tratamento de Covid-19 -- ambos ainda sem comprovação científica que demonstre a eficiência  contra a doença. 

Questionado sobre o tema pelos senadores Eduardo Girão (Podemos-CE) e Renan Calheiros (MDB-AL), Queiroga se absteve de apresentar a sua opinião sobre os medicamentos. Segundo o ministro da Saúde, o protocolo técnico com orientações sobre os fármacos que vêm sendo utilizados no tratamento do coronavírus será feita pela Comissão Nacional de Incorporações Tecnologias (Conitec), da qual ele é o presidente.

O ministro argumentou estar impedido de se posicionar sobre os medicamentos, pois, em última instância, caberá a ele o parecer que vai decidir a possibilidade de uso regulamentado dos fármacos.

O presidente da CPi, senador Omar Aziz (PSD-AM), também pressionou o minsitro pela resposta. O parlamentar argumentou que Queiroga presta esclarecimentos à comissão na condição de testemunha, não de investigado. Portanto, a lei exige que o depoente responda a todos os questionamentos de forma objetiva e não minta. 

No que lhe concerne, Queiroga disse não ter autorizado a distribuição do medicamento pelo governo federal. O ministro também reconheceu que não consta na bula da hidroxicloroquina a recomendação para tratamento do coronavírus.

Depoimento do diretor da Anvisa adiado

O depoimento do presidente-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia de Covid-19 foi adiado para a próxima terça-feira (11).

Com o novo cronograma, a oitiva do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten foi transferida para quarta-feira (12). Já os depoimentos da presidente da Pfizer Brasil, Martha Dias, e do ex-presidente da empresa, Carlos Murillo, foram remanejados para quinta-feira (13). No entanto, a sessão marcada para ouvir o diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi mantida para quinta-feira.

Diante das alterações, os representantes do Instituto Butantan e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) ficam sem datas definidas para comparecerem à CPI.

As assessorias de comunicação dos senadores Omar Aziz (PSD-AM) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), presidente e vice-presidente da Comissão, respectivamente, informaram que ainda discutem uma forma de manter os depoimentos de representantes do Butantan e da Fiocruz na próxima semana. Até o momento, a avaliação é de que seriam necessárias sessões de terça até sexta-feira (14).