Veja o que se sabe sobre a operação da PF contra Jaques Wagner

Ação faz parte da nona fase da Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18); investigação aponta possível ligação entre o entorno familiar do líder do governo no Senado e nomes conectados ao Banco Master

Filipe Pereira, da CNN Brasil*, São Paulo
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A PF (Polícia Federal) cumpriu nesta quinta-feira (18) a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que teve como um dos alvos o líder do PT (Partido dos Trabalhadores) no Senado, Jaques Wagner (BA).

A investigação aponta uma possível ligação entre o entorno familiar de Jaques e suas empresas com outros nomes conectados ao Banco Master.

A Compliance Zero apura supostas fraudes na instituição de Daniel Vorcaro. O empresário é acusado de conexões políticas para garantir benefícios para a instituição financeira por meio de pagamentos e favores.

A investigação aponta que "foram identificados elementos indicativos de recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo econômico investigado".

Nesta nova fase, os agentes apreenderam cerca de 55 mil dólares (R$ 284,1 mil) e 33 mil euros (R$ 196,3 mil) em endereços ligados ao senador em Brasília e em Salvador. Os valores foram encontrados em um quarto de um hotel da capital federal, onde o petista costuma frequentar quando está na cidade.

Apesar das buscas e apreensões em endereços ligados a Jaques, André Mendonça, ministro relator do caso no STF (Supremo Tribunal Federal), não autorizou a realização de diligências no gabinete do senador.

Segundo o magistrado, os elementos reunidos na investigação não apresentaram grau de necessidade que justifique a medida.

Benefícios

Segundo o relatório da PF, o senador teria contato direto com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Master, responsável pelas operações financeiras e de outros benefícios enviados ao político.

Um dos itens que teriam sido utilizados para favorecimento ilegal é um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões na capital baiana, que teria sido pago à família de Jaques.

Em uma conversa interceptada pelos agentes, o parlamentar envia o contato do gerente da construtora responsável pelo empreendimento a Augusto. Junto aos dados do gerente, são informadas qual a unidade e o valor do imóvel: “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”.

Em novembro de 2024, o senador encaminha ao ex-sócio do Master uma mensagem enviada por um de seus filhos, solicitando os dados dos responsáveis do apartamento para realização de alterações no local. Junto ao texto, Jaques teria solicitado a Augusto: "Consegue esses dados".

“'Pai, bom dia! Para envio do projeto com as alterações no apartamento, é exigido também o envio do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). Para emitir esse RRT são necessários dados do proprietário: nome completo, CPF, endereço atual completo com CEP, endereço da obra. Consegue esses dados'. 'O envio do projeto é até o dia 19/05, segunda feira'. “Eles também falam de um formulário de envio, mas esse formulário não foi disponibilizado, nem está entre os arquivos do link que a construtora disponibilizou'", diziam as mensagens compartilhadas.

O imóvel teria sido comprado pela Epítome S.A., empresa que teria sido apontada como laranja para a negociação e dirigida por Luiz Antônio Lombardi.

Show nos EUA e viagens de avião

Já durante junho de 2023, são apontadas vantagens relativas a ingressos para shows de uma artista internacional na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. No período, Augusto teria orientado sua secretária a adquirir as entradas a favor de familiares do senador.

O relatório mostra a compra de ingressos por cerca de R$ 63 mil, feita pela REAG Investimentos S.A., segundo informações de um diálogo envolvendo João Carlos Mansur, fundador da empresa.

A REAG, que foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano, já foi alvo de operações por fraudes bilionárias no setor de combustíveis envolvendo integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Em outro momento do relatório, é mostrado que o senador teria utilizado aeronaves vinculadas a Augusto Ferreira Lima ou ao Banco Master para viagens.

Em mensagens de áudio entre os dias 11 e 13 de outubro de 2023, que foram interceptadas pela PF, o empresário oferece a Jaques e familiares uma aeronave para "Ilha da Paixão" — a qual seria de propriedade do banqueiro.

Em abril de 2024, após uma chamada de voz em que o senador teria solicitado o contato de um piloto para deslocamento ao Rio de Janeiro, o ex-sócio do Master encaminha o contato de um piloto, assim como o número do parlamentar ao profissional.

Segundo os investigadores, essa seria mais uma comprovação da proximidade entre os dois.

Empresas envolvidas

Segundo a PF, as empresas BN Financeira Ltda. e BN Representações Tecnológicas Ltda., ligadas ao núcleo familiar de Jaques Wagner, estariam envolvidas no recebimento de dinheiro do Master.

Os documentos apontam que ambas seriam suspeitas de serem utilizadas para disfarçar a origem de repasses financeiros ilícitos, reportando as entradas como decorrentes de prestação de serviços.

Do lado de Augusto Ferreira Lima, a PKL ONE Participações S.A., empresa ligada ao ex-sócio do Master, teria realizado uma transferência de R$ 3,5 milhões à BN Financeira Ltda.

As contrapartidas do senador

A investigação aponta que, em troca dos benefícios, houve atuação do senador na Câmara Alta, especialmente com projetos que beneficiariam o Master, como a Lei nº 14.431/2022, que ampliou a margem de crédito consignado de empregados CLTs e autorizava a modalidade a beneficiários de programas sociais do governo.

Segundo o relatório, a lei teria tramitação em um período próximo ao início das relações contratuais entre o Banco Master e a BN Financeira Ltda.

Outro ponto seria a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, que ampliava a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão para pessoas físicas ou jurídicas. A garantia do FGC era uma das contrapartidas de segurança oferecidas pelo Master para seus investimentos com retornos acima dos concorrentes.

"Em 13/08/2024, data da inclusão da emenda, AUGUSTO realizou chamada de voz para JAQUES WAGNER, com duração de 9min19s, e logo depois encaminhou ao parlamentar o link da emenda. Posteriormente, em 27/08/2024, após encontro presencial, AUGUSTO reencaminhou o link da emenda ao Senador", aponta o relatório.

Outro ponto destacado pela investigação é a tentativa de compra do Master pelo BRB, Banco de Brasília, em março de 2025.

Em uma troca de mensagens em que o ex-sócio do Master explica para Jaques a negociação, é enviado ao senador: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”.

"Em juízo perfunctório, a frase indica que JAQUES não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado", completa o relatório.

Mendonça proíbe contato de senador com investigados.

Na decisão que deu autorização à operação, assinada por André Mendonça na noite de quarta-feira (17), o ministro também determinou a proibição de contato de Jaques Wagner com os demais investigados, no intuito de preservar a instrução criminal e impedir alinhamento de versões.

Além disso, o ministro também determina a proibição de qualquer contato do senador com qualquer empresa, engenheiros ou arquitetos que tenham trabalhado no apartamento comprado em Salvador, mencionado na investigação.

"Proibição de contato com colaboradores da MD BA Parque Florestal Construções Ltda., do Grupo Moura Dubeux, e com engenheiros ou arquitetos que tenham trabalhado no empreendimento Poème Horto, mostra-se diretamente vinculada à preservação das fontes de prova relativas à unidade nº 1.702", completa o parecer.

Outro lado

Procurado pela CNN Brasil, o senador ainda não se pronunciou.

Já a bancada do PT no Senado mostrou apoio a Jaques Wagner, manifestando "sua plena confiança na trajetória pública do senador". A nota ainda afirma apoio às investigações no caso Master e que o senador prestará todos os esclarecimentos necessários e se mostrará inocente.

"A sociedade brasileira tem o direito de conhecer a verdade: irregularidades ou crimes devem ser rigorosamente apurados, com a devida responsabilização de quem tenha cometido ilícitos", completa.

Já o presidente nacional da sigla, Edinho Silva, declarou que o senador é “depositário de confiança”, mas disse que o partido apoia “todas as apurações envolvendo o Banco Master”.

“Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que o Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência”, escreveu.

O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, por sua vez, reforçou o apoio ao senador e garantiu que o parlamentar conta com "nossa confiança e o respaldo de uma trajetória limpa para esclarecer o que for preciso".

Éden voltou a tentar ligar o escândalo do Banco Master ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao seu filho e pré-candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro (RJ).

"A tentativa de equiparar essas relações e falsamente criar a ideia de que o escândalo BolsoMaster atinge igualmente todos os campos políticos brasileiros é inócua e revela o grau de desespero de Flávio — que foi pego na mentira, perdeu a pouca credibilidade que tinha e vê sua campanha definhar dia a dia."

À CNN, o senador Jaques Wagner (PT-BA) disse que nunca atuou em favor do Banco Master e que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais.

Leia a nota completa abaixo:

"O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.

Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.

Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá".

(Com informações de Caio Junqueira, Gabriela Boechat, Gustavo Uribe, Helena Prestes e Matheus Teixeira)

*Sob supervisão de Lucas Schroeder