O que se sabe sobre os casos de reações alérgicas à vacina contra Covid-19?

Até agora, foram registrados quatro casos de alergia, dois no Reino Unido e dois nos EUA

Anna Satie, da CNN em São Paulo
17 de dezembro de 2020 às 14:44
Aplicação de vacina
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entre todas as pessoas que já receberam a vacina contra Covid-19 da Pfizer no Reino Unido, Canadá e Estados Unidos desde a semana passada, foram reportados quatro casos de alergia séria. Em três deles, as pessas vacinadas entraram em anafilaxia — uma reação que pode causar falta de ar, diminuição da pressão arterial e levar a morte. Todos foram medicados e têm quadro estável.

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Após os dois incidentes no Reino Unido, as autoridades de saúde inglesas aconselharam que pessoas com "histórico significativo de reações alérgicas" não tomem a vacina. A recomendação acendeu um alerta em todo o mundo: será que a vacina da Pfizer/BioNTech é segura para todos? 

Os casos de alergia

Dois casos foram confirmados no Reino Unido na semana passada e dois, no Alasca, EUA, nesta quarta-feira (16). Os países ainda não divulgaram um balanço do total de pessoas vacinadas até o momento.

No país europeu, os dois profissionais de saúde que tiveram a reação adversa tinham histórico de alergias fortes e carregavam uma injeção de adrenalina para essas ocasiões. 

Os casos no Reino Unido foram motivo de preocupação para as autoridades do FDA (agência reguladora americana) ao discutir a aprovação do uso emergencial da imunização, que recebeu o aval final no domingo (13).

"Estamos dizendo às pessoas que, a não ser que elas tenham tido reação alérgica severa a vacina ou um de seus componentes, elas podem recebê-la", disse Peter Marks, diretor da divisão do FDA que aprovou o uso.

No entanto, uma mulher que não tinha histórico de alergia sentiu falta de ar e batimento cardíaco acelerado depois de receber a vacina em Juneau, no Alasca. Ela foi internada no hospital Bartlett Memorial, onde deve ficar por mais uma noite. Os médicos disseram que ela passa bem. 

"Ela ainda está entusiasmada por ter recebido a vacina e pelos benefícios que ela trará no futuro", disse Lindy Jones, médica do local.

A outra pessoa teve inchaço na região dos olhos e coceira na garganta, mas, de acordo com um comunicado do hospital Bartlett, "a reação não foi considerada anafilaxia". Ele foi medicado e se sentiu "de volta ao normal dentro de uma hora e teve alta", continuou a nota.

A Pfizer excluiu pessoas com histórico de reações alérgicas graves a vacinas de seus testes clínicos, de acordo com dados divulgados pelo FDA. Na última fase dos testes clínicos, um dos 18.801 participantes teve uma reação anafilática, também publicou o órgão. 

"Temos que nos lembrar que essas vacinas são para prevenir as pessoas de morrer e de ficarem gravemente doentes", disse Michael Osterholm, um dos membros do conselho do presidente eleito Joe Biden contra o coronavírus.

"Para mim, esse é um preço pequeno a pagar", disse ele à CNN. "Estou disposto a ficar com o braço dolorido, a potencialmente ter uma reação, para ficar protegido". 

Se tenho alergias, devo evitar a vacina da Pfizer?

Vacinas, assim como todo medicamento eficaz, têm efeitos colaterais. O que as agências reguladoras analisam ao aprovar os fármacos é se esse risco é menor do que os potenciais benefícios do uso.

A Fundação de Asma e Alergias da América publicou um comunicado nesta quarta, em que ressalta que o FDA e CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) estão atentos aos eventos adversos reportados. 

"Relatos recentes na mídia de reações à nova vacina da Pfizer/BioNTech contra a Covid-19, primeiro no Reino Unido, e agora nos Estados Unidos, estão gerando preocupações sobre segurança para pessoas com histórico de alergias sérias. É importante lembrar que a gente ainda não tem os detalhes completos de nenhuma dessas reações", escreveu Mitchell Grayson, presidente do conselho médico da fundação. 

"Estamos nos primeiros estágios da disponibilização da Covid-19. É comum ver reações adversas à vacina assim que a distribuição ampla ao público geral começa, mesmo que nenhuma dessas reações tenha sido observada nos testes clínicos", continuou Grayson.

"Mais vacinas estão encaminhadas, então, provavelmente, haverá mais opções se for determinado que uma vacina funciona melhor com algumas populações do que outras. É importante deixar que a ciência prevaleça, e não as manchetes. Qualquer um com preocupações sobre risco de alergia deve se consultar com um médico".

À CNN, Ariana Campos Yang, professora de Imunologia Clínica e Alergia, disse que reações relacionadas a vacinas ocorrem com certa frequência, mas não costumam ser graves ou alérgicas

"A maioria das reações a vacinas não é alérgica. Nesse caso, que ainda será investigado, se for mesmo alergia, precisamos aguardar a conclusão sobre qual componente da vacina esteve envolvido na reação", disse a médica.

"Mas uma coisa que precisa ficar claro é que reação alérgica é algo muito específico. O sistema imune, quando reage com reação alérgica, é a um componente. Muito provavelmente, após a investigação e conclusão de qual foi o componente [que causou a reação], a orientação será específica para um grupo de alérgicos. Não serão todos os alérgicos que não poderão tomar a vacina", completou a especialista.

(Com informações de Keri Enriquez, Jacqueline Howard, Virginia Langmaid e Jason Hanna, da CNN Internacional)