Primeira dose ajuda, mas imunização contra a Covid-19 depende de segunda dose

Com exceção da candidata da Janssen, todos os imunizantes em uso foram testados com duas doses; país discute se fará reserva para segunda etapa

Anna Satie*, da CNN em São Paulo
06 de fevereiro de 2021 às 05:00
Aplicação da vacina contra Covid-19 no estado de São Paulo
Aplicação da vacina contra Covid-19 em São José dos Campos, no estado de São Paulo
Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Estadão Conteúdo (27.jan.2021)

Mais de 3 milhões de brasileiros já receberam a primeira dose da vacina contra Covid-19 até o momento — o que não significa, necessariamente, que eles já estão imunizados. 

Com exceção da vacina da Janssen, todos os principais imunizantes tem um regime de duas doses e os especialistas concordam: é importante seguir o que foi previsto experimentalmente.

É o caso tanto da Coronovac, a vacina do Instituto Butantan com a Sinovac, quanto a vacina de Oxford e da AstraZeneca, esta em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"A vacina de Oxford foi testada para ter uma dose, mas durante os experimentos, comprovou-se que precisava das duas doses. É de extrema importância que se siga o que foi previsto experimentalmente, porque não temos dados de que uma dose é suficiente", recomenda Gustavo Cabral, imunologista e pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo). 

Cabral explica que a pessoa que recebeu uma única dose pode não ter gerado a maturidade e memória imunológica para se proteger contra a doença. 

"As vacinas que estamos usando aqui têm intervalo de vinte dias a três meses, o prazo varia, mas tem que receber a segunda dose", disse. 

O período máximo para a aplicação da segunda dose da vacina do Butantan é de até 28 dias. Para a vacina de Oxford/AstraZeneca, esse intervalo pode ser de até três meses. 

O infectologista Igor Maia Marinho, do Hospital Emílio Ribas, engrossa o coro. 

“Do ponto de vista de efeito colateral para o corpo, não existe risco tomar apenas uma dose, mas não tem garantia de eficácia de proteção às pessoas que tomaram apenas uma vez. Se isso [de atrasar] acontecer, pode correr o risco de surgir uma falsa sensação de segurança. É preciso tentar vacinar bem o máximo de pessoas”, disse.

Reforço

O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Marco Krieger, disse em entrevista à CNN que a eficácia do imunizante de Oxford é de 73% já na primeira dose, mas que o reforço assegura ainda mais a proteção.

"O reforço da vacina aumenta essa resposta [imunológica]. No caso desse reforço ser dado em um prazo de até três meses, o nível da resposta imunológica aumentou em sete vezes”, disse.

O Ministério da Saúde orienta que as secretarias reservem 50% do estoque para a aplicação da segunda dose. 

Inicialmente, o governo de São Paulo havia previsto a aplicação de todas as doses disponíveis no estado para imunizar a maior quantidade de pessoas possível. No entanto, sem o apoio do governo federal, a ideia foi abandonada. 

“O que foi pleiteado ao ministério é se nós poderíamos utilizar as doses que foram guardadas para ampliar de forma mais célere a imunização. E que o ministério desse uma garantia de que, naquele prazo da segunda dose, nós teríamos mais vacinas. Isso não foi colocado pelo ministério. Então, por uma questão de segurança, nós mantivemos essas doses guardadas”, disse o secretário de Saúde paulista, Jean Gorinchteyn.

(*Com informações de Abinoan Santiago)