Após 4 meses, falta de insumo diminui ritmo de vacinação no Brasil

País já aplicou mais de 57,8 milhões de doses de imunizantes contra o novo coronavírus, mas sofre dificuldades para obter IFA para produzir mais imunizantes

Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
17 de maio de 2021 às 08:41
Vacina aplicada em profissional da saúde na zona norte de São Paulo, capital
Vacina aplicada em profissional da saúde na zona norte de São Paulo, capital
Foto: Adriana Toffetti/A7 Press/Estadão Conteúdo (26.jan.2021)

O Brasil completa nesta segunda-feira (17) quatro meses de vacinação contra o novo coronavírus com 57,8 milhões de doses aplicadas, incluindo 19,1 milhões de pessoas que receberam a segunda dose e estão imunizadas, segundo dados organizados pela CNN com base nos balanços preliminares de vacinação das secretarias estaduais de Saúde.

A perspectiva, no entanto, continua sendo de dificuldade para ampliar a quantidade de pessoas vacinadas, já que tanto o Instituto Butantan, produtor da Coronavac, quanto a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que fabrica a vacina de Oxford/AstraZeneca, sofrem com a falta de insumos importados da China, o que prejudica a produção local dos imunizantes.

E essa tendência já se reflete na quantidade de doses aplicadas na vacinação dos brasileiros contra a Covid-19: a campanha nacional de imunização viu a média diária de doses aplicadas despencar em maio em comparação com o mês de abril, segundo dados do Ministério da Saúde.

No início de abril, o país aplicava, em média, mais de 600 mil doses de vacina por dia – número  que deu um salto e foi a 784 mil doses aplicadas diariamente na terceira semana de abril. Nas duas primeiras semanas de maio, porém, essa média despencou. Na primeira semana do mês, foi 415 mil doses aplicadas a cada dia; na segunda semana, 280 mil doses diárias de imunizantes utilizadas.

A primeira dose da vacina contra a Covid-19 foi aplicada no país em 17 de janeiro, em São Paulo, quando a enfermeira Mônica Calazans foi vacinada com a Coronavac – além dela, uma centena de pessoas, todas funcionárias da saúde, foram vacinadas naquele dia.

Já a campanha nacional começou no dia seguinte, em 18 de janeiro, após o Ministério da Saúde distribuir doses da Coronavac aos estados. Cinco dias depois, em 23 de janeiro, foram vacinadas também as primeiras pessoas com doses da vacina da Fiocruz.

As vacinas disponíveis

Até o momento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou o uso de quatro vacinas contra Covid-19 no país – e outras duas estão com processo em andamento.

Os imunizantes produzidos pela Pfizer e pela Fiocruz são os únicos que já receberam registro para uso definitivo. Já as vacinas da Janssen (Johnson & Johnson) e do Instituto Butantan possuem o registro para uso emergencial – até aqui, a Coronavac é o principal imunizante usado no país.

Vale destacar que, entre as quatro vacinas já aprovadas para uso no Brasil, apenas a da Janssen – que é aplicada em dose única – ainda não começou a ser usada no país. O contrato do governo federal com a farmacêutica prevê entregas a partir de outubro.

A Anvisa também analisa os pedidos de registro da vacina indiana Covaxin, que teve a importação rejeitada em março, mas que recentemente recebeu autorização para realizar estudos clínicos no Brasil, e da russa Sputnik V, cuja importação também foi negada pela agência em razão da falta de documentação.

Falta de insumos

A falta do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) necessário para a produção da Coronavac e da vacina da AstraZeneca/Oxford deve atrasar a vacinação contra a Covid-19 no país nas próximas semanas. 

Nesta sexta-feira (14), o Butantan anunciou a paralisação da produção da Coronavac por falta de insumos, que aguardam liberação na China. No mesmo dia, o instituto entregou 1,1 milhão de doses, que fazem parte do segundo contrato com o Ministério da Saúde, de mais 54 milhões de doses. Não há, porém, previsão de novas entregas.

Ingrediente Farmacêutivo Ativo (IFA) da Coronavac é desembarcado no aeroporto de Guarulhos, em SP
Foto: Divulgação/Governo de São Paulo (19.abr.2021)

Segundo o Butantan, dez mil litros do IFA já estão prontos e separados na China para envio ao Brasil, mas o país asiático ainda não liberou o embarque desses insumos. 

A Fiocruz também informou que vai paralisar a produção nesta semana pela falta de IFA, cuja chegada está prevista para o sábado (22).

Entraves na entrega de IFA

Na semana passada, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) atribuiu o atraso na chegada dos insumos a "entraves diplomáticos" e disse ter feito um apelo aos chineses para a liberação de novos insumos.

A declaração foi rebatida pelo Ministro da Saúde, que atribuiu o atraso na entrega do insumo ao Instituto Butantan à "questão contratual". O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, disse que a demora na entrega do IFA importado da China pode estar ocorrendo por conta do empenho do país em vacinar seus cidadãos.     

Para evitar novas paralisações, a Fiocruz espera fechar até o final de maio um contrato com a AstraZeneca para recebimento de mais remessas do IFA oriundo da China. 

(Com informações de Camila Neumam, da CNN, em São Paulo)