Um ano de vacinação contra Covid: após início problemático, Brasil avança

Após meses de campanha travada, lentidão do governo e falta de doses, país avança em ritmo satisfatório para imunizar a população

Beatriz Montesanticolaboração para a CNN

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Foram ao menos seis meses patinando na campanha de vacinação contra a Covid-19 até que o Brasil de fato exercesse a capacidade de seu programa de imunização.

No último semestre, o número de doses aplicadas diariamente multiplicou-se, o país superou outras potências em porcentagem de imunizados e viu despencar a quantidade de mortes e casos graves provocados pelo coronavírus.

No entanto, no aniversário de um ano da aplicação da primeira dose, o país ainda enfrenta desafios no combate à pandemia. Alguns deles novos, como a propagação de uma variante muito mais transmissível e um apagão de dados no Ministério da Saúde.

Outros são antigos, como a desinformação, o medo e a resistência de parcela, ainda que pequena, da população ao imunizante.

Em meio a isso, o país chega a uma nova etapa da campanha: a vacinação de crianças de 5 a 11 anos, que se inicia justamente nesta semana em que se completa um ano do início da vacinação

Até esta segunda-feira (17), cerca de 78% da população nacional recebeu a primeira dose, segundo a plataforma Our World in Data, que compila dados mundiais da pandemia. Já a população com o esquema vacinal completo (sem considerar as doses de reforço) está próximo a 68%.

Foram mais de 300 milhões de doses aplicadas ao longo do ano. Mas os números são incertos, já que o sistema do governo está instável desde que foi hackeado, ainda em dezembro do ano passado.

De toda forma, os últimos resultados mostram um avanço considerável no segundo semestre em relação ao primeiro. Em julho de 2021, aos seis meses de campanha, apenas 20% da população brasileira havia recebido duas doses -à título de comparação, os Estados Unidos, o Reino Unido e o vizinho Uruguai já haviam passado da metade de imunizados proporcionalmente na ocasião.

O Ministério da Saúde foi procurado pela CNN para comentar sobre a distribuição de vacinas mas, até o fechamento desta reportagem, não se pronunciou.

O país só começou a usufruir da capacidade total de sua infraestrutura de vacinação no final de julho, quando mais de dois milhões de doses foram aplicadas em um único dia.

Para especialistas ouvidos pela CNN, a escassez de imunizantes é um problema superado, mas a pandemia ainda não acabou.

É preciso seguir o cronograma de vacinação, diminuindo a diferença que existe entre a quantidade de vacinados com primeira e segunda dose, aplicando a dose de reforço para aqueles elegíveis e imunizando o que se tornou um novo grupo de risco: as crianças.

“Estamos em um cenário completamente diferente daquele de seis meses atrás. No primeiro semestre de 2021, não tinha vacina. Agora o problema decididamente não é a falta dela”, diz Renato Kfouri, presidente do departamento de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Mas para evitar novas ondas de transmissão, é preciso ampliar a base de vacinados, incluindo crianças e adolescentes, e tornando a cobertura mais homogênea no território brasileiro.”

Vacinação de crianças

A imunização da faixa etária entre 5 e 11 anos foi a mais recente polêmica travando o combate à pandemia no Brasil. Apesar da aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e outros órgãos internacionais para aplicar a vacina da Pfizer nesse grupo, o governo federal atrasou o processo levantando dúvidas sobre a segurança das doses pediátricas e promovendo uma consulta pública online.

“Perdemos mais de um mês nessa discussão. Os imunizantes pediátricos poderiam estar sendo negociados desde outubro do ano passado, quando foram aprovados pelos órgãos reguladores americanos, com a condição de que seriam comprados com a aprovação da Anvisa”, diz José Cássio de Moraes, professor da Santa Casa de São Paulo e integrante do Observatório Covid-19, iniciativa independente que reúne pesquisadores para disseminar informações sobre a doença com base em dados. “Se isso tivesse sido feito, chegaríamos em fevereiro com pelo menos a primeira dose aplicada em todo esse grupo.”

Para os especialistas, parte da resistência acontece pelo fato de ter havido uma mudança no foco do combate: durante muito tempo, o entendimento foi de que crianças não eram afetadas pelo vírus. Infectologista da Unicamp (Universidade de Campinas) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Raquel Stucchi explica que o deslocamento da atenção é esperado à medida em que se amplia a cobertura vacinal.

“É importante pontuar por que, de repente, as crianças passaram a ser os atores principais da Covid em termos de indicação de vacina. No começo de 2020, os grupos que mais sofriam, mais morriam, eram mais internados, eram o dos idosos e o das pessoas com comorbidades. E ,por isso, o foco inicial da vacinação foi para esses grupos. Conforme cumprimos esse objetivo e passamos a flexibilizar as medidas de restrição, as crianças se tornaram o grupo mais exposto e desprotegido”, diz Stucchi.

“Ficou um pouco no imaginário popular que Covid não pega em criança, o que é falso. É fato que [o vírus] parece poupar mais os menores, mas isso não significa que eles não sejam vulneráveis, se contaminem, sejam vetores de transmissão e possam desenvolver formas graves”, completa Igor Marinho, infectologista do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo). “Dentro desse contexto, vacinar as crianças é protegê-las da principal causa de óbito infantil atualmente e prevenir que elas transmitam o vírus para outras pessoas com quem convivem, principalmente quando estamos em vias de retomar o ano letivo.”

No dia 11 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou o planejamento para a distribuição das vacinas pediátricas pelo país, seguindo o critério populacional de cada região. Ao todo, o Brasil deve receber 4,3 milhões de doses ainda neste mês. Cerca de 6% da população infantil brasileira está apta a receber o imunizante, o que soma mais de 20 milhões de crianças.

Periodicidade das vacinas

Outra questão que vem à tona no estágio atual da campanha é a periodicidade em que a vacina deverá ser aplicada na população daqui em diante. O Brasil avança na chamada dose de reforço entre adultos, enquanto países como Israel já testam a aplicação de uma quarta dose.

“Já sabemos que a proteção conferida não é vitalícia, nem duradoura. Mas a periodicidade pode depender da idade, da vulnerabilidade, da vacina etc. Enquanto vivenciarmos uma pandemia, vamos precisar repor a proteção dos que a perderam. Estamos aprendendo, mas essa é uma comunicação que precisa ser feita adequadamente para evitar a desconfiança da população”, diz Kfouri.

Para Stucchi, o Brasil acertou na segunda metade do ano ao introduzir a dose adicional, se antecipando a muitos países europeus que viram os números de casos avançarem. Ela faz a ressalva, no entanto, que alguns estados, como São Paulo, erraram ao descumprir a recomendação de autoridades científicas de que a dose adicional fosse feita com o imunizante produzido pela Pfizer -em particular em idosos, que mostram uma resposta pior aos demais imunizantes.

“Não está claro neste momento a necessidade de novas doses para toda a população. O grupo de pessoas que sabidamente tem uma resposta inferior ao imunizante, como idosos e comórbidos, provavelmente precisará de mais doses. Mas para isso precisamos de dados adicionais, conforme o tempo avança e vamos aprendendo sobre o vírus. É esperado que adaptações no esquema vacinal sejam necessárias ao longo de um processo”, diz.

Efeitos na pandemia e desafios de comunicação

O grande balanço deste ano de campanha foi perceber os benefícios da vacinação em termos de hospitalização e mortalidade. Dados que mostram a predominância de não vacinados entre as vítimas da Covid em todo o mundo reforçam a tese. “Todas as vacinas conseguiram realizar a lição de casa com nota 10 no sentido de serem capazes sim de reduzir drasticamente os óbitos entre a população vacinada”, afirma Stucchi.

Para Kfouri, a discrepância entre o atual vertiginoso aumento do número de casos e o menos alarmante aumento de internações é outra evidência contundente. “Temos uma variante circulando com o maior impacto visto até hoje em termos de infecção. É uma variante que não poupa vacinados e infecta todo mundo. Mas o quadro da pessoa imunizada raramente evolui para formas graves, e esse é o grande mérito da vacinação”, completa.

Mas os especialistas reforçam os obstáculos pela frente. Desinformação e má comunicação são as principais causas apontadas para que alguns municípios ainda tenham uma cobertura vacinal bem abaixo da nacional, apesar da boa adesão da população brasileira no geral. Um levantamento feito pela CNN em dezembro do ano passado mostrou que pequenas cidades, em particular do Norte, não aplicaram a primeira dose em nem sequer um terço da população local por falta de público.

Os infectologistas também entendem que o arrefecimento do número de casos no final do ano passado levou a uma menor procura pelo imunizante, pois as pessoas consideram já estarem protegidas. Nesse sentido, é esperado que a alta provocada pela Ômicron funcione como novo incentivo. A exigência do passaporte da vacina também pode ser outro estímulo importante.

“O programa continua exigindo uma comunicação efetiva, que se torna mais difícil com o avançar da pandemia. Era mais fácil convencer a população a ir tomar a primeira dose, já a segunda não é tanto e por aí vai. Há uma perda entre uma e outra e é necessário continuar motivando as pessoas a se vacinarem. Esse é o desafio de ano”, diz Kfouri.

Moraes destaca ainda que, em meio a esse cenário, o Brasil convive com um apagão de informações. “Neste momento não temos dados atualizados sobre a cobertura vacinal. Estamos em uma pane de informação que é incompreensível. Os dados são instrumentos fundamentais para acompanharmos a doença e estabelecer os próximos passos para combatê-la”, conclui.

 

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