Café Lamas, no Rio de Janeiro, anuncia início das obras após incêndio
Sócio do empreendimento inaugurado em 1874, Milton Brito estima a reabertura, se tudo der certo, para daqui 30 dias

Passado o susto provocado pelo incêndio no Café Lamas, a esperança é de um entra-e-sai de clientes superior ao de antes do ocorrido. Eis um bom resumo do estado de espírito de Milton Brito, um dos sócios do empreendimento, tido como o mais antigo do gênero no Rio de Janeiro — desde a inauguração, em 1874, no Segundo Reinado, passaram-se 152 anos.
"As obras começam nesta semana e a previsão, se tudo der certo, é reabrir em 30 dias", diz o empresário. "Acredito que o movimento vai ser melhor do que antes porque muita gente ficou sabendo do ocorrido e está curiosa para ver o Lamas funcionando novamente."
O incêndio, iniciado por volta das 17h30 de 16 de junho, foi provocado por um curto-circuito em uma fritadeira. O óleo esquentou além da conta, o que prejudicou a luta contra as chamas. "Usamos de 4 a 5 extintores e, mesmo assim, o fogo ia e voltava", recorda Brito. O estrago limitou-se à cozinha, embora a fumaça também tenha impregnado o salão, que precisará ser repintado.
O empreendimento tinha seguro contra acidentes do tipo e o dinheiro, diz o empresário, está em vias de ser depositado. O grande problema era o prejuízo motivado pelos dias de portas cerradas. "Com a casa fechada, deixamos de ter gastos com a compra de matéria-prima, mas as despesas com o salário dos funcionários continuam", explica. Daí a providencial ajuda oferecida por uma porção de bares. O movimento foi capitaneado por Ricardo Garrido, um dos sócios-fundadores da Cia Tradicional de Comércio, dona do Pirajá e do Astor, entre outras marcas.
Fã do Lamas, ele acionou sua rede de contatos e, em pouco tempo, colocou de pé uma espécie de vaquinha com apoio de outros empresários do ramo, como Mariana Rezende, sócia do Bar da Frente e vice-presidente de comunicação do SindRio (Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro).
Ao todo, 25 estabelecimentos participaram da iniciativa — do Velho Adônis, em Benfica, ao paulistano Pirajá, que soma 15 unidades. Durante um período, cada uma das casas participantes reverteu para o Lamas o dinheiro arrecadado com a venda de algum hit do cardápio.
"Foi uma grata surpresa saber que há tanta gente que atua nesse mesmo ramo preocupada com o Lamas", diz Brito. "O dinheiro arrecadado foi importantíssimo para a continuidade do negócio".
"O fim de um bar histórico como o Lamas representaria um baque muito grande para a cultura carioca", diz Fernando Blower, presidente do SindRio. "A corrente solidária criada para ajudá-lo mostra que os estabelecimentos do nosso setor não precisam se enxergar como competidores. Nenhum deles, afinal, é capaz de dar conta sozinho de toda a demanda de uma cidade como o Rio de Janeiro. O importante é termos um cenário que seja bom para todos".

Nascido há 73 anos, Brito virou sócio do Lamas em 1983 e está à frente do empreendimento desde então. Outras duas famílias são donas do estabelecimento, fundado pelo português Francisco Tomé dos Santos Lamas.
"Sempre há uma questão ou outra entre os proprietários, mas a sociedade vem dando certo", diz o gestor. Ele credita a longevidade do empreendimento a três fatores. "A clientela volta pela qualidade dos produtos, pela fartura das porções e pelo nosso padrão de atendimento", acredita. A decisão de servir sempre as mesmas receitas também ajuda. "Em um estabelecimento como o nosso, modificar os pratos é inadmissível", ensina.
O Lamas deve sua fama, principalmente, aos filés. A versão à francesa, uma das mais pedidas, leva batata palha, cebola, ervilha e presunto. O que presta tributo a Oswaldo Aranha é devidamente coberto de alho frito e acompanhado de ótimas batatas portuguesas, arroz branco e farofa de ovos. O filé à parmegiana, em razão do tamanho, ganhou o apelido de "orelha de elefante". Outro hit é a canja de galinha, ótima pedida para equilibrar excessos etílicos na madrugada ou durante o Carnaval. Entre os petiscos, reinam pastéis de camarão, carne, carne-seca, camarão com Catupiry ou queijo.
O estabelecimento não é o mesmo de 1874. Durante décadas, também fez as vezes de frutaria e bomboniere, além de manter uma mesa de sinuca. Funcionou no Largo do Machado até a década de 1970, quando as obras da estação dali do metrô motivaram uma mudança de endereço. "Por sorte, encontraram um ponto a 500 metros de distância, na Rua Marquês de Abrantes", recorda Brito. É onde o Café Lamas permanece até hoje — e promete voltar com tudo.
Café Lamas: R. Marquês de Abrantes, 18a - Flamengo, Rio de Janeiro - RJ


