Chefs on Fire: o fogo que conecta Portugal e Brasil

Festival que reúne mais de 40 chefs em torno das brasas em Cascais se prepara para chegar a São Paulo em 2027 e reforça a força de cozinheiros brasileiros na gastronomia portuguesa

Tina Bini, do Viagem & Gastronomia
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Em Cascais, o fogo começou cedo durante os dias 19 e 20 de setembro. No Parque Marechal Carmona, chefs mostravam suas habilidades diante das brasas, enquanto o público circulava com taças na mão, em um clima familiar, entre música ao vivo, cenografia pensada nos detalhes e um calor acima da média para a época do ano.

O Chefs on Fire se tornou um dos principais festivais gastronômicos de Portugal. Já levou seu formato para outras cidades, fez sua estreia internacional em Madri, na Espanha, e agora se prepara para atravessar o Atlântico e chegar à maior cidade da América Latina: São Paulo, em 2027.

Vivenciar o Chefs on Fire em Cascais foi uma experiência. Sim, sabemos que a palavra está manjada, saturada e quase sem efeito. Mas, neste caso, não encontramos sinônimo melhor. Teve comida, calor, uma organização rara de se ver em grandes festivais, uma aula de hospitalidade, debates sobre o setor, aprendizados e algo capaz de encher de orgulho qualquer brasileiro: entre os muitos chefs que passaram pelo evento, seis eram brasileiros.

Mas esqueça a ideia de chefs brasileiros chegando ao festival com feijoada ou moqueca fervendo no caldeirão. Não havia uma tentativa de apresentar ao público um catálogo dos nossos sabores, por mais que eles mereçam conquistar o mundo. Não era um cartão de visita gastronômico do Brasil. E foi justamente isso que tornou a presença deles ainda mais interessante.

Eram brasileiros cozinhando em Portugal, a partir das cozinhas que construíram ali. Essa é uma diferença importante. O Brasil não está apenas exportando seus pratos para Portugal. Está "exportando" cozinheiros que ocupam espaço de destaque, ganham prêmios, abrem restaurantes, formam equipes, investem e constroem carreiras. Profissionais que levam consigo repertórios, memórias e maneiras próprias de olhar para o produto, inclusive para os produtos locais.

Uma vez instalados no velho mundo, eles também passam a "cozinhar Portugal". E é nessa troca que a história fica mais interessante.

Chefs on Fire foi uma pequena vitrine da força brasileira

É claro que a presença brasileira na gastronomia portuguesa cresceu junto com a própria comunidade verde e amarela no país. Mas a explicação demográfica já não dá conta, sozinha, desse movimento.

No fim de 2025, 493.622 brasileiros estavam registrados como residentes em Portugal, segundo a AIMA, a Agência para a Integração, Migrações e Asilo. É a maior comunidade estrangeira do país, responsável por 31,1% da população estrangeira residente.

O número ajuda a entender por que se tornou tão comum encontrar coxinha, brigadeiro e açaí pelas ruas do país. Não explica, porém, a presença cada vez mais expressiva de profissionais brasileiros em cozinhas de diferentes origens e em restaurantes que trabalham com referências que vão muito além da culinária de seus países de origem.

Nos últimos anos, chefs brasileiros chegaram a posições de destaque em casas portuguesas, japonesas, vegetarianas e autorais. Em 2025, João Ricardo Alves, do Arkhe, e Habner Gomes, do YŌSO, receberam uma Estrela Michelin em Lisboa. Em 2026, foi a vez de Angélica Salvador, do In Diferente, no Porto.

O que eles têm em comum não está necessariamente no cardápio. Está na capacidade de atravessar fronteiras gastronômicas: chegar a uma nova cultura, aprender seus produtos, técnicas e códigos e, a partir daí, acrescentar uma bagagem própria. É nesse encontro que aparece o tal “borogodó” brasileiro, uma qualidade difícil de traduzir, mas que costuma ser fácil de reconhecer.

Uma cozinha também se transforma assim. Não necessariamente quando alguém coloca dendê em um prato português, mas quando diferentes repertórios se encontram sem a obrigação de apagar suas origens. O resultado pode estar menos em um ingrediente específico do que na maneira de combinar técnica, memória e referências.

Os seis brasileiros que participaram do Chefs on Fire, em Cascais, mostraram isso de maneira quase didática, embora nenhum deles estivesse ali para falar sobre identidade.

Angélica levou para as brasas uma costela preparada no fogo de chão, acompanhada de polenta e vinagrete de abacaxi. Lizandra Almeida, sergipana que hoje trabalha no Pils Grill Eatery, em Lisboa, escolheu o cupim. Michele Marques, carioca radicada em Portugal desde 2005, preparou corações de galinha, uma lembrança direta dos churrascos da infância.

Fagner Buzinhani, do GoJuu, trabalha com cozinha japonesa em Lisboa e levou para o festival um sanduíche de sardinha grelhada. Nelson Soares, carioca que abriu o Sult primeiro no Rio e depois em Cascais, preparou uma massa com linguiça e brócolis. Nathalie Inês, da equipe do SÁLA, em Lisboa, transformou uma alheira, símbolo da tradição portuguesa, em sobremesa.

O Brasil estava ali sem precisar ser anunciado. Às vezes aparecia no ingrediente; em outras, na memória, na técnica ou na maneira de olhar para um produto. Cada prato carregava uma referência brasileira diferente, mas nenhum tentava reproduzir o Brasil literalmente.

É aí que está a força dessa presença. Em vez de simplesmente reproduzir uma cozinha de origem, esses profissionais circulam por diferentes tradições, absorvem novos produtos, técnicas e referências e devolvem tudo a partir de uma leitura própria.

O resultado é uma gastronomia portuguesa que também passa a ser atravessada pelo repertório de quem chegou de fora. E o Brasil, nesse processo, deixa de aparecer apenas como uma comunidade numerosa ou como um conjunto de sabores reconhecíveis. Passa a fazer parte, de maneira mais profunda, da própria transformação da cena gastronômica portuguesa.

Chefs on Fire: de Cascais a São Paulo

O que acontece em Cascais não fica restrito a Cascais. Em oito edições, o Chefs on Fire deixou de ser apenas um festival português de cozinha no fogo e passou a construir uma marca que se relaciona diretamente com os lugares por onde passa. A lógica é simples, mas exige uma boa dose de curadoria: levar o formato para diferentes territórios sem transformar o festival em uma fórmula igual em qualquer lugar.

A própria trajetória do evento mostra isso. Criado em 2018 por Gonçalo Castel-Branco a partir de uma festa de família no Alentejo, o Chefs on Fire nasceu de uma fogueira improvisada, com comida preparada ao ar livre e amigos reunidos em volta do fogo. A ideia cresceu, ganhou chefs, música e público e, ao longo dos anos, passou por diferentes cidades portuguesas. Cascais se tornou sua principal casa.

Na edição de 2026, mais de 40 chefs portugueses e internacionais cozinharam exclusivamente com fogo, fumaça e lenha. Mas o festival não reúne cozinheiros apenas para reproduzir técnicas ancestrais diante do público. A programação é construída também como uma espécie de mapa gastronômico: Madeira e Extremadura espanhola foram territórios convidados nesta edição, cada um trazendo seus produtos, cozinheiros e referências para dentro do festival.

É justamente essa capacidade de colocar diferentes cozinhas em torno da mesma fogueira que torna São Paulo um próximo passo tão interessante.

A cidade não será apenas mais um destino no calendário internacional do Chefs on Fire. São Paulo tem uma das cenas gastronômicas mais diversas do Brasil e uma relação própria com o fogo, que aparece no churrasco, nas cozinhas regionais, nos restaurantes contemporâneos e nas diferentes culturas que formaram a cidade. Trazer o festival para cá significa descobrir o que acontece quando um formato português encontra uma cidade que já tem suas próprias maneiras e manias.

Agora, o caminho será inverso. A organização prevê a chegada do festival à cidade em abril de 2027. A data exata, o local e a programação ainda não foram anunciados oficialmente, mas a expansão já aparece como o próximo movimento da marca.

O desafio, segundo Gonçalo, será preservar aquilo que faz o Chefs on Fire ser reconhecido, sem transformar São Paulo em uma réplica de Cascais.

A chama é portuguesa. O próximo capítulo é brasileiro!

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