De Santa Tereza a Lourdes, Birosca reabre em nova fase em BH

Novos tempos, mas com o velho charme: Bruna Martins reabre a Birosca em novo endereço de BH, casa listada no 50 Best Discovery

Carolina Daher, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Escondidinho de pato do Birosca
Escondidinho de pato com purê de batata doce e laranja do Birosca  • Daniel Iglesias
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Em carta aberta, publicada em setembro do ano passado, a chef Bruna Martins se despedia de um lugar que marcou profundamente sua história. “Com o coração cheio de gratidão e um frio na barriga, a Birosca se prepara para sair do Santa Tereza e se aventurar pelas esquinas do Lourdes - numa casa que resistiu serena entre prédios imensos e que agora será transformada no nosso novo lar.”

A decisão de deixar o lugar onde tudo começou arrancou lágrimas de Bruna. Isso não representava apenas uma mudança de endereço, mas também o fantasma de perder a identidade da casa. E o que não faltava àquela casinha de esquina em Santê, da região Leste da capital, era personalidade. Com uma pegada kitsch, a decoração era marcada por objetos garimpados em brechós e antiquários.

E não é que Bruna conseguiu tal proeza?! Transportou com competência o espírito da antiga Birosca - que perde o adolescente S2, para assumir o sobrenome Restaurante & Deli – para o novo endereço. Agora funcionando em Lourdes – bairro onde se concentram grandes restaurantes da cidade – a Birosca continua charmosa. O sofá de couro, antigos quadros de família e o piano encontram novos lugares. “Tentamos trazer alguns elementos arquitetônicos da antiga casa de 1929. Como não conseguimos comprar o balaústre original, pedimos que um gesseiro reproduzisse o ornamento. Levamos o murinho da Birosca para Lourdes”, diz Bruna. “Esse novo espaço é o contraponto entre o passado que emociona e o futuro que inspira”, completa. Parece que o público entendeu: é um sucesso.

O novo espaço funciona nos moldes de uma delicatessen, com horário estendido e cardápio flexível que atende diferentes fomes ao longo do dia. “Se olharmos no dicionário, birosca quer dizer armazém e deli é exatamente isso, um local que vende suprimentos e alimentos durante todo o dia”, conta a chef, que criou um espaço onde a clientela pode comprar produtos para levar para casa como picles e fermentados, além de produtos garimpados entre pequenos produtores do estado. “A gente está mais acessível, não só por causa do endereço, mas também por poder receber as pessoas durante todo o dia”, completa. No fim de tarde, além de tomar um bom café, o freguês pode optar por comer o Sanduba da casa (R$ 65), preparado no pão ciabatta, com carpaccio de língua defumada, queijo meia cura, rúcula, mix de picles e mostarda, acompanhado de churrinhos de polvilho.

Ambiente do novo Birosca • Daniel Iglesias
Ambiente do novo Birosca • Daniel Iglesias

O menu

O cardápio fala sobre a cultura mineira sem recorrer a estereótipos. “No processo de criação, meu olhar foi colocar Minas Gerais como o elo que compõe, que muda tudo e dá personalidade a uma receita ou a um ingrediente”, explica. Às vezes, a mineiridade está na forma de encarar um prato já batido como a burrata (R$ 85) – que no caso, também é produzida no estado. No lugar de tomate e manjericão, entram a abóbora, tomatinhos amarelos, couve e castanha de baru. A chef também revisita algumas memórias afetivas criadas pelos clientes nesses 12 anos de história. É o caso do Escondidinho de pato com laranja, feito com purê de batata-doce laranja, cenoura, suco de laranja, ragu de pato e queijo Canastra (R$ 78). Dois grandes clássicos continuam lá: Torta de camarão e lagostim com Catupiry (R$ 220, para até 3 pessoas); e o Eskibon mineiro (R$ 40), com chocolate branco, creme de queijo e curau de milho.

Burrata Vicenzo com abóbora, tomates amarelos, melado, sementes e couve • Daniel Iglesias
Burrata Vicenzo com abóbora, tomates amarelos, melado, sementes e couve • Daniel Iglesias

Dividido em Aperitivos e Frios; Forno; Sopas; Principais; e Sobremesa; o menu conta também com versões vegetarianas, como o Supreme de porco (R$ 98) com queijo Minas, presunto cru e casoncelli de Catupiry com milho verde, que pode ter sua proteína substituída com palmito grelhado. Na primeira parte do cardápio, o cliente tem algumas sugestões interessantes como o Churros de polvilho com creme de queijo e paçoca de carne de sol (R$ 55). Em Sopas, estão o Capeletti em brodo de pão de queijo com linguiça e o Creme de champignon com mini almôndegas de porco e massinha (R$ 45, ambos). Já nos principais, um dos pratos mais pedidos é Polvo com nhoque de banana, molho amanteigado de pimenta-de-cheiro, couve e queijo coalho (R$ 160).

A carta de drinques é assinada por Sá Maju e traz 18 opções de coquetéis, entre eles o Bramble Jabuticaba (R$ 40), gin, limão e jabuticaba; e o Bituca (R$ 45), açaí clarificado, Cynar rosso, bitters e sal.

Bolinhos de cupim com fonduta de urucum e picles de chuchu do Birosca • Daniel Iglesias
Bolinhos de cupim com fonduta de urucum e picles de chuchu do Birosca • Daniel Iglesias

Origem em uma esquina musical

Foi Milton Nascimento que levou Bruna a Santa Tereza. Estudante no curso de saxofonista na UFMG, se encantou pelo bairro onde nasceu o Clube da Esquina, um dos mais emblemáticos movimentos musicais de Minas. Um dia, passando pela rua Silvianópolis avistou uma casinha geminada e, num impulso-apaixonado de uma jovem de 22 anos, resolveu que faria ali um lugar que unisse música e comida. Era o ano de 2013. A Birosca abriu sem grandes pretensões. A ideia era criar um local onde os artistas pudessem garantir seu “ganha-pão” e os clientes conseguissem assistir um show com uma boa comidinha sobre a mesa. Com passagens pelos restaurantes Taste-Vin e Vecchio Sogno, Bruna apostou suas fichas em uma cozinha afetiva, baseada em receitas de família. Com o tempo, o restaurante cresceu e amadureceu junto com a dona. Ganhou uma identidade ousada e criativa.

Além do Birosca, que faz parte da lista do 50 Best Discovery, em sua seleção global que reúne restaurantes, bares e hotéis de destaque em todo o mundo, Bruna também é dona do Florestal, no Floresta e o Gata Gorda, na Savassi.

Birosca Restaurante & Deli: Rua São Paulo, 2003, Lourdes, Belo Horizonte, MG / Telefone: (31) 9 9957-7267 / Funcionamento: terça a sábado, 12h às 23h; domingo, 12h às 17h, segunda, fechado / Mais informações no Instagram.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Carolina Daher

A jornalista, pesquisadora e curadora Carolina Daher • Acervo pessoal
A jornalista, pesquisadora e curadora Carolina Daher • Acervo pessoal

Carolina Daher é jornalista, pesquisadora e curadora gastronômica. Acima de tudo, é mineira. Adora comida, mesa farta e café coado com queijo. Não dispensa o que vem da roça e se encanta com as coisas da cidade grande. Acha que doce de leite é muito melhor que Nutella. Vive nas Gerais e caminha pelo mundo em busca de histórias e sabores. Também é colunista da Revista Encontro, curadora do Fartura — Comidas do Brasil e responsável pela Encontro Gastrô, maior premiação gastronômica de Belo Horizonte e Brasília.

 

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