Dia da Cachaça: os novos rumos da bebida que representa o Brasil
Nascido no século XVI, destilado se reinventa com diferentes estilos e usos na coquetelaria, mas exportações e tarifas acendem alerta no setor

Genuinamente brasileira, a cachaça remonta à história do próprio país. A origem secular faz com que a “marvada” seja considerada o primeiro destilado das Américas, sendo conhecida até como a “mãe do rum”.
Surgiu provavelmente no início do século XVI, quando as primeiras destilações da bebida ocorreram em algum engenho de açúcar do litoral. A teoria mais aceita é que os portugueses improvisaram uma bebida destilada a partir de derivados do caldo da cana-de-açúcar.
Quase 500 anos depois, em 2001, um decreto "oficializou" a cachaça como um produto 100% nacional, protegendo seu nome e sua herança cultural e econômica, transformando-o em Indicação Geográfica. A partir de 2009, mais uma conquista: uma dia para chamar de seu. E, assim, 13 de setembro passou a ser o Dia da Cachaça.
Diversificação de produtos
A comemoração da data foi estabelecida pelo Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC) e nasceu na Expocachaça, a principal e mais tradicional feira dedicada ao destilado no mundo, realizada frequentemente em Belo Horizonte desde 1998. Hoje, a feira prova que, além de boa de negócio, a cachaça vai muito além da “branquinha” e da “ouro”.
“Neste ano, tivemos mais de R$ 520 milhões em negócios realizados durante e após a feira. Foram 19 estados participantes, abrangendo quase todos os territórios produtores de cachaça”, diz José Lúcio Mendes Ferreira, presidente da Expocachaça. Na prática, o evento reúne o Brasil “cachaceiro”, dando uma visão das particularidades de cada estado e sendo uma vitrine para a bebida.
Para José Lúcio, os produtores têm cada vez mais oferecido bebidas mistas, como cachaças saborizadas, que podem ser engarrafadas ou até em latas - segundo a Associação Brasileira de Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), as vendas de cachaça em lata tiveram uma alta de 44% no Brasil na última década.
“Observo que o público consumidor tem procurado cachaças com mais tempo de envelhecimento. Temos entre 40 e 50 madeiras que podem fazer parte do processo. Isso significa que temos aromas, sabores e cores diferentes. O universo de utilização da cachaça tem crescido”, conta o presidente da feira.
Para o ano que vem, a ideia é levar compradores internacionais para dentro do evento, em um espaço que reúna produtores com capacidade de exportar. O foco está na cachaça de alambique, mais artesanal, diferente da cachaça industrial, feita em coluna. O processo resulta em menores volumes por ano - a maioria dos produtores soma entre 200 e 250 mil litros.
Em maio, um pedido de registro foi feito para que a cachaça de alambique se torne Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil - primeiro passo para que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dê o reconhecimento.
Muito além da caipirinha
Quem utiliza a cachaça a seu favor é o balcão: a coquetelaria vem se diversificando e mostrando que a bebida é um destilado nobre que pode sim preencher os copos.
“A coquetelaria tem contribuído para mostrar ao consumidor outras formas de consumir a cachaça, quebrando o paradigma de que ela é apenas uma bebida para se fazer caipirinha”, afirma Carlos Lima, Presidente da Diretoria Executiva do IBRAC.
Um dos exemplos mais notáveis é o paulistano Tan Tan, único bar brasileiro entre os melhores do mundo no The World’s 50 Best Bars 2024. A cachaça é usada em coquetéis clássicos e autorais desde o nascimento da casa, sendo um dos destilados que o proprietário e bartender Thiago Bañares mais gosta de trabalhar.
Ela tem uma personalidade difícil de encontrar em qualquer outro destilado no mundo. Você bebe uma cachaça e sabe que é uma cachaça. Como trabalhamos muito com envelhecimento e madeiras, conseguimos aplicá-la em um coquetel mais fresco e até nos mais alcoólicos
Ele destaca que a cachaça é versátil, usada em qualquer família de coquetéis por conta de suas vertentes de sabor e pelo processo de destilação. Na carta atual do Tan Tan, além de clássicos como Macunaíma e Rabo de Galo, os drinques autorais brilham com a bebida, como o Elegance, com shissô, cachaça branca, vermute tinto e licor de ervas; assim como o Blame, com banana, yukari, campari, vermute branco seco, amaro de catuaba e cachaça envelhecida com madeira amburana.
“A textura é importante. Tem cachaça que vai muito bem em um drinque sour, assim como os runs e os piscos fazem, dando aquela textura mais aveludada, principalmente quando é aerada com suco cítrico”, completa Bañares. Apesar dos elogios, o chef e grande nome da indústria faz um alerta. “Falta um grande trabalho a ser feito para que, de fato, a cachaça tenha protagonismo nos bares, assim como o pisco tem no Peru, por exemplo.”
O trabalho com madeiras e os esforços de diversificação do portfólio vão de encontro com as cachaças premium. "A premiunização da cachaça veio para ficar. É uma tendência mundial: beber menos, mas beber melhor", aponta Carlos Lima.
"O trabalho de você extrair o aroma, o sabor e a cor de cada madeira necessita de tempo e equilíbrio. Não é para qualquer um", diz José Lúcio. Entram na conta edições limitadas e rótulos que passam dos R$ 13 mil, fazendo com que o destilado atinja novos públicos.
Queda nas exportações e tarifaço
Hoje, um dos sinais de preocupação para o setor é a redução das exportações. Segundo o Anuário da Cachaça 2025, elaborado pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) com dados referentes a 2024, a exportação de cachaça registrou queda de 22,7% no volume e de 28,1% em valor em relação a 2023.
O volume exportado foi de pouco mais de 6,6 milhões de litros, o segundo resultado mais baixo da série histórica, ficando atrás somente de 2020, no auge da pandemia, quando foram exportados cerca de 5,5 milhões de litros. Para Carlos Lima, Presidente do IBRAC, a redução é significativa.
“O que também chama a atenção é o cenário das tarifas impostas pelo governo norte-americano. Tivemos quatro meses de retomada de exportações em 2025, com um cenário mais positivo em relação ao mesmo período anterior. Mas com a alíquota de 50% nas exportações, a gente vai ter um impacto significativo, visto que os EUA é um dos maiores mercados da cachaça”, diz Carlos.
Segundo o anuário, os Estados Unidos são o maior mercado em valor de exportação para a cachaça, avaliado em cerca de US$ 3,5 milhões (quase R$ 19 milhões na cotação atual) em 2024. No quesito exportação em volume, está no terceiro lugar, com 824.091 litros, ficando atrás de Paraguai e Alemanha.
“Os Estados Unidos têm um perfil de consumo de cachaça em que o produto tem um valor agregado muito maior que o consumido aqui. É um dos países mais rentáveis para o produtor brasileiro exportador de cachaça. É um mercado em que também atuam muitas pequenas e médias empresas. Algumas têm 60% do faturamento vindo da exportação para os EUA”, explica Carlos.
Segundo o presidente, o volume que era direcionado ao mercado norte-americano não está sendo reposto em outros mercados. “Agora é acreditar na possibilidade de uma reversão desse cenário. Estamos dialogando com o governo, reiterando a necessidade do setor da cachaça fazer parte da mesa de negociações.”
Apesar da exportação de cachaça não ter expressividade na balança comercial brasileira, Carlos defende que é necessário encará-la “como um setor como outro qualquer e que contribui para a economia”. De olho no ano que vem, a prioridade do instituto é trabalhar para que a reforma tributária não impacte ainda mais o setor da cachaça.
Produtos e produtores

Apesar da queda nas exportações, o Anuário da Cachaça apontou que houve um crescimento de produtos registrados e também um pequeno aumento de estabelecimentos elaboradores da bebida. Entre 2023 e 2024, o Brasil ganhou 1.225 registros de cachaças e 49 produtores no MAPA.
“Pode ser um indício de aumento de formalização do setor. É um indicativo ainda tímido de que estamos reduzindo a informalidade. É tímido porque o último censo agropecuário do IBGE identificou 11 mil produtores de cachaça pelo país, mas há apenas 1.266 produtores formalizados no Ministério”, explica Carlos.
Os dados apontam que o Sudeste concentra a maior parte dos estabelecimentos elaboradores da bebida, com 828 registros, o que corresponde a 65,4% do total de todo o país.
Conheça os 5 maiores produtores de cachaça do Brasil, segundo o número de estabelecimentos registrados:
- Minas Gerais - 501 estabelecimentos
- São Paulo - 179
- Espírito Santo - 81
- Santa Catarina - 73
- (empate) Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul - 67
O Ceará, que tinha 34 registros de estabelecimentos produtores em 2023, passou a ter 47 em 2024, apresentando o maior crescimento da lista. Mas nem todos os estados brasileiros possuem produtores formalizados. É o caso de Amapá e Roraima, que não possuem nenhum registro no Ministério da Agricultura e Pecuária.


