De fortaleza medieval a restaurante Michelin: como é visitar Belgrado
Capital da Sérvia vive entre a memória e a renovação, com fortalezas históricas, restaurantes contemporâneos e feridas ainda visíveis de conflitos do século XX
Com vestígios que remontam ao século IV a.C., Belgrado está entre as cidades mais antigas da Europa. Hoje, a capital sérvia surge como uma das portas de entrada mais vibrantes dos Bálcãs, onde fortalezas medievais, blocos brutalistas e cafés às margens do rio convivem em uma mesma paisagem. Ao longo dos séculos, sua posição estratégica na confluência dos rios Danúbio e Sava fez dela um território disputado por romanos, bizantinos, otomanos e austro-húngaros.
É uma cidade em que história, resiliência e modernidade se combinam de forma única. A capital sérvia foi um dos territórios mais interessantes que visitei durante a jornada "Grande Expresso do Oriente", viagem de trem pela Europa Central desenhada pela agência brasileira Latitudes. A parada na cidade reforçou a perspectiva do que é uma viagem de conhecimento, conceito pioneiro defendido pela empresa.
Conhecer os mínimos detalhes do Trem Azul de Tito, que era o escritório diplomático e itinerante do ex-líder da Iugoslávia; ver de perto os resquícios medievais da Fortaleza de Belgrado; passear entre os novos edifícios da face mais contemporânea da cidade, a Belgrade Waterfront; e ainda sentar à mesa e deixar-me surpreender pelos sabores sazonais dos Bálcãs foram alguns dos destaques do roteiro.
Para o mundo, Belgrado voltou ao radar internacional: no ano que vem, sediará a Expo 2027, reunindo mais de 120 nações ao longo de três meses, sendo palco global para que empresas e formuladores de políticas apresentem inovações. A escolha da capital sérvia reflete seu papel histórico como encontro entre Oriente e Ocidente, além da crescente cena criativa, tecnológica e cultural nos Bálcãs.
O que ver e fazer em Belgrado
O Kalemegdan Park, o maior parque da cidade, abriga o símbolo local, a Fortaleza de Belgrado. Principal marco histórico da capital sérvia, ergue-se em frente ao encontro dos rios Danúbio e Sava e guarda resquícios medievais bem preservados. Remonta aos períodos celta e romano, sendo ampliada e reconstruída ao longo dos séculos por bizantinos, otomanos, austro-húngaros e sérvios.
Hoje, podemos andar por muralhas, portões, torres, monumentos e áreas verdes, que funcionam tanto como patrimônio histórico quanto como espaço público. Um dos símbolos é o Zindan Gate, antiga prisão da fortaleza, cujo entorno abriga o museu militar e uma exposição ao ar livre com tanques usados nas duas grandes guerras mundiais.
Outro símbolo imperdível é a Catedral de São Sava, uma das maiores igrejas cristãs do mundo. Dedicada a São Sava, fundador da Igreja Ortodoxa Sérvia, ela impressiona não apenas pelas dimensões, reunindo cerca de 17 mil m² de mosaicos, mas pela atmosfera arrebatadora que mistura espiritualidade, arte e identidade nacional. Nem o lustre escapa: é considerado um dos maiores do mundo, com 20 metros de diâmetro e peso que ultrapassa algumas toneladas.
Ligando a Praça da República à fortaleza, a principal via de pedestres do centro histórico é a rua Knez Mihailova, onde edifícios elegantes exibem outra camada da cidade. É recheada de cafés, lojas e construções do século XIX. Aqui, a Academia Sérvia de Ciências e Artes, construída no início do século XX, é um dos destaques, já que mistura estilos arquitetônicos, com forte influência Art Nouveau.
Belgrado também expõe suas feridas: alguns prédios dos arredores permanecem parcialmente destruídos desde os bombardeios da Otan contra a então Iugoslávia, em 1999.
Para compreender melhor o passado, mais especificamente a antiga Iugoslávia, vale a visita à Casa das Flores, mausoléu e museu dedicado a Josip Broz Tito. Líder da antiga Iugoslávia socialista, Tito foi peça central da política dos Bálcãs durante grande parte do século XX. O mausoléu fica dentro do Museu da Iugoslávia e guarda objetos raríssimos recebidos como presentes diplomáticos, entre eles um vaso egípcio datado de 3 mil anos a.C. e peças históricas vindas da Tunísia.
Outro momento fascinante para entender melhor o passado foi conhecer o lendário Trem Azul de Tito, uma espécie de escritório itinerante do ex-líder que recebeu rainhas e presidentes ao longo de viagens diplomáticas. Fica estacionado em um depósito ferroviário na região de Topčider e abre ao público esporadicamente. A experiência foi organizada especialmente pela Latitudes como parte de um dos passeios privados e exclusivos do roteiro.
Sabores da Sérvia e dos Bálcãs
Belgrado também surpreende à mesa. No Langouste, um dos raros restaurantes sérvios com estrela Michelin, provei ingredientes locais tratados com um olhar contemporâneo. Alguns dos pratos foram: taco de truta defumada com salsão e ovas de salmão, bastante fresco e crocante, além de receitas com cogumelos que traduziram bem a sazonalidade dos Bálcãs.
O peixe selvagem do Adriático, vindo de águas geladas, tinha textura gordurosa e sabor intenso. Tudo acompanhado por vinhos sérvios, ainda pouco conhecidos, melhor brindados com a vista privilegiada para o rio Sava.
A gastronomia tradicional sérvia apareceu em outra ocasião. O Bela Reka, com o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, abriu a refeição com uma taça de rakia, destilado de frutas profundamente ligado às celebrações locais, especialmente a versão feita com ameixa. Entre os pratos, meu destaque foi o "Ćuretina sa mlincima", receita de peru acompanhada de uma massa assada com creme de queijo, além das tradicionais carnes moldadas em formato de pequenas salsichas.
Belgrado ainda revela uma face contemporânea no Belgrade Waterfront, projeto urbanístico moderno às margens do rio Sava, repleto de hotéis, comércio e novos empreendimentos. Nas redondezas, até o tenista Novak Djokovic aparece como símbolo nacional, já que o Novak Café & Restaurant reúne troféus, bolas de tênis e homenagens ao maior nome do esporte sérvio. Pode ser uma parada temática no roteiro para um café ou um prato mais casual.
Raio-X de Belgrado
- Língua oficial: sérvio;
- Moeda oficial: dinar sérvio (1 dinar sérvio equivale atualmente a cerca de 5 centavos de real);
- Melhor época para visitar Belgrado: primavera (abril a junho) e começo do outono (setembro e outubro), por conta do clima mais ameno e convidativo para explorar a cidade. Setembro une temperaturas agradáveis e agenda cultural. Julho e agosto são quentes, bons para a vida noturna, com famosos clubes flutuantes nos rios;
- Principais eventos: "Belgrade Dance Festival" entre março e abril; "Belgrade Marathon", em abril; "Belgrade Beer Fest", em agosto; "Belgrade International Theatre Festival", geralmente em setembro; "Belgrade Jazz Festival", em outubro; Expo 2027, entre 15 de maio e 15 de agosto de 2027.


