Mantiqueira mostra que o estado não vive só de Queijo Minas Artesanal

Em Itanhandu, visitantes podem acompanhar a produção de queijos dos tipos parmesão, camembert, boursin e burrata

Carolina Daher, colaboração para o Viagem & Gastronomia
Pérola da Serra
Fazenda Pérola da Serra tem 200 búfalas e produz cerca de 750 litros de leite por dia  • Carol Daher
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Tem gente que acha que o único queijo que existe em Minas Gerais é o Canastra. Vamos então resolver essa questão de uma vez por todas. Canastra é uma das dez regiões caracterizadas do estado que produzem o tradicional Queijo Minas Artesanal, o QMA.

Esse queijo tem uma receita única: leite cru de vaca, pingo, coalho e sal. O que determina suas características, na verdade, é o terroir de onde ele nasce. Ou seja, o queijo da Canastra, apesar de ser feito exatamente como o do Serro, é diferente. Assim como são diferentes os queijos de Araxá, Diamantina, Triângulo Mineiro, Serra do Salitre, Entre Serras da Piedade ao Caraça, Campo das Vertentes e Serras de Ibitipoca.

Porém, Minas é tão espetacular na arte queijeira que não se restringe apenas a essas regiões. Há ainda o Queijo Artesanal de Minas (QAM), que é, como o próprio nome indica, artesanal, mas não segue a receita do QMA.

Calma! Eu explico. De acordo com a Lei Estadual número 23.157 de 18/12/2018, é considerado “Queijo Minas Artesanal o queijo confeccionado conforme a tradição histórica e cultural da região do Estado onde for produzido, a partir do leite integral da vaca fresco ou cru, retirado e beneficiado na propriedade de origem, que apresente consistência firme, cor e sabor próprios, massa uniforme, isenta de corantes e conservantes, com ou sem olhaduras mecânicas".

O processo de feitura do QMA consiste, basicamente, na coagulação do leite, prensagem, salga e maturação. E é esse modo de fazer aí que é tombado como Patrimônio pela UNESCO.

Já o Queijo Artesanal de Minas é mais abrangente. Existem outras cinco regiões caracterizadas que fazem queijos com características únicas, entre elas o Jequitinhonha com o cabacinha (um tipo muito parecido com a muçarela) e a Mantiqueira de Minas, que segue o mesmo processo da feitura do italiano parmesão.

Mantiqueira de Minas

A região da Mantiqueira de Minas é composta pelos municípios de Aiuruoca, Baependi, Bocaina de Minas, Carvalhos, Itamonte, Itanhandu, Liberdade, Passa Quatro, Pouso Alto e Virgínia. Assim como a vizinha Alagoa, o queijo ali segue o estilo italiano.

Em 1920, chegou por ali a professora Luiza Altomare Poppa, uma imigrante italiana. Junto à Luiza, veio também seu marido, Pascoal Poppa. Ao instalar-se no novo lar, Pascoal logo percebeu que tinha à sua frente um solo fértil para fazer um produto muito característico de sua terra natal, Parma, no norte da Itália: o famoso queijo parmesão.

É importante lembrar que naquela época, o queijo passou a ser assim chamado porque o queijo parmesão Parmigiano Reggiano ainda não era um produto com Denominação de Origem Protegida (DOP). A denominação, adotada na União Europeia, certifica que apenas produtos genuinamente originados em determinada região podem assim ser denominados.

Para simplificar, o queijo tipo parmesão recebeu o nome da terra onde ele é feito. Então, o parmesão da Mantiqueira transformou-se em Queijo Mantiqueira de Minas. Além desse queijo, a região, reconhecida por sua vocação agropecuária, abriu espaço para a criação de outras receitas. Hoje, na cidade de Itanhandu, por exemplo, é possível comer muçarela de búfala, boursin de cabra, queijos temperados, defumados e até alguns autorais.

Um passeio pelas queijarias

Verdadeiro tesouro do Brasil, a Serra da Mantiqueira se estende por 500 quilômetros entre três estados – 10% no Rio de Janeiro, 30% em São Paulo e 60% em Minas Gerais. É na parte chamada Terras Altas da Mantiqueira, localizada em Minas, que estão alguns dos pontos mais altos, incluindo a Pedra do Picu, com 2.151 metros e morada de várias cachoeiras como a da Fragária, do Escorrega e da Conquista.

O horizonte é entrecortado por montanhas, muitas vezes cobertas por Mata Atlântica e verdadeiros campos de araucárias, um símbolo do lugar. Os dias normalmente amanhecem com um nevoeiro baixo, trazendo o céu para mais perto da terra.

Se a Mantiqueira está no seu roteiro, reserve um tempo para conhecer cinco queijarias em Itanhandu que vão fazer com que você entenda definitivamente por que o estado é considerado a terra do queijo.

Veja 5 queijarias para conhecer em Itanhandu:

Queijaria Cinquenta

Com vários prêmios, a queijaria Cinquenta é comandada por Leandro Batista e Lucileide da Silva Castro Batista. O casal combina técnicas tradicionais mineiras com métodos europeus de maturação e uso de fungos de casca (como o Penicillium candidum).

São quatro tipos de queijo produzidos: o Brisa, uma massa semicozida, casca aveludada com fungo branco e maturação de 20 dias em câmara fria, que faz lembrar o brie; Geada, inspirado no Camembert, também com casca com fungo branco; o meia-cura Sereno; e o Estação, queijo duro, maturado em caverna.

Recebem para visita guiada mediante a reserva e contam com um chalé para hospedagem.

Queijaria Cinquenta: confira coordenadas no Google Mapas / Visitas guiadas agendadas via WhatsApp.

Fazenda Bom Sucesso

Com seis medalhas de ouro no Mundial de Araxá (2022, 2024 e 2025) e Prêmio Queijos Brasil (2024), a Bom Sucesso é totalmente familiar. Eduardo Costa Siqueira toca o negócio junto com a mulher, Marissol, do filho, Josué, e do pai, Francisco.

Há dez anos, eles começaram a produção, que hoje vai além dos queijos da Mantiqueira, como o nozinho e trança de muçarela, ricota e requeijão. O mais famoso é o Maria Fumaça, queijo de massa cozida com maturação prolongada em caverna, com textura quebradiça, cristais de tirosina, e sabores intensos com notas de madeira e castanha.

A casa sede da fazenda merece um olhar especial, já que preserva a arquitetura colonial característica do estado. Recebem para visita e degustação mediante a reserva.

Fazenda Bom Sucesso: Estrada do Bom Sucesso Bom Sucesso, Itanhandu - MG/ Horário de funcionamento: de segunda a sábado, das 9h às 17h.

Queijaria Pérola da Serra

A propriedade da Pérola da Serra é linda e os visitantes podem acompanhar a produção dos queijos por meio de grandes janelas de vidro que rodeiam a queijaria. Com cerca de 200 búfalas, a fazenda produz cerca de 750 litros de leite por dia. Carlos Alberto Pinto Cunha divide as funções com a mulher, os filhos e noras.

Além da tradicional burrata, há uma infinidade de outros produtos, como bolinha de muçarela, manta, trança, manteiga e requeijão de corte. Interessante é o Pedra Branca, meia-cura de búfala (maturado em um silo) e o Pedra da Mina, um tipo de parmesão curado.

A Pérola da Serra abre para o turismo rural por meio de visitas guiadas que acontecem de quinta a domingo. Depois do passeio, os turistas têm direito a uma tábua de degustação (R$ 35 por pessoa). É preciso fazer agendamento prévio.

Pérola da Serra: Estrada do Jardim, s/n - Jardim, Itanhandu - MG/ Horário de funcionamento: de quinta a domingo, das 9h às 17h; fechado de segunda a quarta.

Queijaria Di Capre

As cabrinhas recém-nascidas na queijaria Di Capre são um capítulo à parte. Uma fofura que vale a visita por si só. Comandada por Júlio César Cunha de Sousa, a queijaria especializada em queijo de cabra nasceu depois que o fazendeiro resolveu trocar a criação bovina pela caprina.

Ele atende restaurantes e empórios em São Paulo com os 16 tipos de queijo que produz, incluindo boursin, camembert, buchete (o com damasco é divino!) e caprino romano, com massa dura e seca, com textura granulada e sabor salgado com notas que variam entre adocicado e picante. Abre para visitas mediante reserva.

Queijos Di Capre: Estrada do Pedregulho, Km 1,5, Pedregulho, Itanhandu - MG / Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h às 12h; aos sábados e domingos, das 8h às 11h.

Queijaria Almeida Guimarães

Adriana Maria de Almeida recebe os visitantes em sua propriedade para acompanhar a rotina da fazenda. Ou seja, se o turista chega às 6h da manhã, vai conseguir ver a ordenha; já os que chegam mais tarde poderão acompanhar os processos da produção do queijo.

Localizada a 1.200 metros de altitude, a queijaria oferece uma diversidade de produtos que variam entre frescas, curadas e com infusões de azeite, alecrim, pimenta, grãos de café, hortelã, manjericão e cachaça.

Na parte debaixo da fazenda, a Almeida Guimarães tem uma mistura de cafeteria com empório, onde os clientes podem fazer degustações. Do térreo, é possível ver por meio de um vidro os queijos sendo maturados na parte debaixo do imóvel. O Mantiqueira supercurado da marca lembra o Grana Padano com muitos cristais de tirosina. A visitação ocorre mediante reserva.

Queijaria Almeida Guimarães: Sitio Recanto Santa Maria, Itanhandu 37464000 - MG / Horário de funcionamento do atendimento: segunda a sexta, das 8h às 17h.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Carolina Daher

A jornalista, pesquisadora e curadora Carolina Daher • Acervo pessoal
A jornalista, pesquisadora e curadora Carolina Daher • Acervo pessoal

Carolina Daher é jornalista, pesquisadora e curadora gastronômica. Acima de tudo, é mineira. Adora comida, mesa farta e café coado com queijo. Não dispensa o que vem da roça e se encanta com as coisas da cidade grande. Acha que doce de leite é muito melhor que Nutella. Vive nas Gerais e caminha pelo mundo em busca de histórias e sabores. Também é colunista da Revista Encontro, curadora do Fartura - Comidas do Brasil e responsável pela Encontro Gastrô, maior premiação gastronômica de Belo Horizonte e Brasília.

 

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