A vida no Butão: como é viver no país que tem seu índice de felicidade?

O país, que se abre para o mundo, é o berço do Índice de Felicidade Nacional Bruta, um sistema destinado a cuidar do bem-estar dos cidadãos e do meio ambiente

A vida no Butão: conheça mais deste país está se abrindo para o mundo
A vida no Butão: conheça mais deste país está se abrindo para o mundo Paula Bronstein / Getty Images

Lilit Marcusda CNN

A maioria dos estrangeiros que já ouviu falar do Butão sabe de duas coisas: o país cobra dos visitantes internacionais uma taxa de desenvolvimento sustentável, ou de turista, de US$ 100 por dia (cerca de R$ 540) e é o berço do Índice de Felicidade Nacional Bruta, um sistema destinado a cuidar do bem-estar dos cidadãos e do meio ambiente.

O Butão está localizado entre a China e a Índia, os dois países mais populosos do mundo, nas alturas dos Himalaias. Conhecido como a Terra do Dragão do Trovão, é uma monarquia budista de 700 mil habitantes que só ganhou transmissões televisão a partir de 1999.

À medida que este reino escondido se abre ao mundo, essas coisas por si só o tornam um destino de viagem intrigante, com templos históricos, trilhas de caminhada e trekking pouco frequentadas e paisagens deslumbrantes dos Himalaias.

Mas o país é realmente feliz? E o que isso significa para as pessoas que vivem aqui? Seus cidadãos têm várias respostas.

“A primeira coisa de que os estrangeiros falam é da felicidade nacional bruta que promovemos no Butão”, diz KJ Temphel, fundador do grupo de conservação Green Bhutan. “Eu acho que, definitivamente, viver no Butão, para mim, pessoalmente, é bastante pacífico e estou muito feliz de estar aqui.”

O Relatório Mundial da Felicidade, publicado anualmente pela Universidade de Oxford e pelas Nações Unidas, coloca a Finlândia, Suécia e Dinamarca no topo de seus rankings de felicidade. A lista classifica 143 nações e territórios ao redor do mundo — mas o Butão não está entre eles.

“Devo dizer que nosso povo era realmente feliz, mas agora, devido a todas essas coisas modernas e todas essas tecnologias que estão chegando, de alguma forma estamos mais desconectados e tendemos a ficar mais deprimidos e mais tristes”, diz Tandin Phubz, criador da página no Facebook Humans of Thimpu, que apresenta fotos e perfis de pessoas comuns na capital, no estilo do famoso projeto Humans of New York de Brandon Stanton.

“Butão é um país budista. A espiritualidade e a religião têm um efeito muito forte”, acrescenta. “O problema é que, com todos esses gadgets e televisões, as pessoas estão de alguma forma distraídas disso. Elas tendem a esquecer de fazer suas orações matinais e noturnas. Elas estão nos telefones vendo o TikTok, deslizando para cima e para baixo.”

Enfrentando o mundo

Modernização é um termo relativo no Butão. Os moradores dirão com orgulho que Thimpu é a única capital mundial sem semáforos, e as lojas e restaurantes são de propriedade e administração local. O Butão é um destino raro no mundo que não está cheio de influências internacionais. Embora existam algumas filiais de hotéis de luxo Le Meridien e Aman, por exemplo, até mesmo a capital é, em grande parte, desprovida de logos corporativos.

A empresária Chokey Wangmo acha improvável que corporações como McDonald’s e Starbucks venham ao Butão — não por causa de políticas ou costumes locais, mas porque não seria um mercado lucrativo.

“Nossa população é tão pequena que não conseguiríamos recuperar o dinheiro da franquia nos próximos 10 anos”, diz Wangmo, que administra vários negócios na cidade de Gelephu, no sul do Butão, incluindo uma cafeteria. “Mesmo se toda a população vier e tomar um café todos os dias, será realmente difícil pagar a taxa de franquia.”

Tandin Phubz, criador do Humans of Thimpu
Tandin Phubz, criador do Humans of Thimpu, raramente é visto sem uma câmera na mão. / Tandin Phubz

Wangmo tem uma visão privilegiada de como o Butão está mudando. Gelephu, uma cidade de cerca de 10 mil pessoas perto da fronteira com o estado de Darjeeling, na Índia, foi selecionada como o local para uma nova “Cidade da Atenção Plena”, um projeto liderado pelo rei do país, Gyalpo Jigme Khesar Namgyel Wangchuck.

Parece impossível imaginar o Butão sem o quinto monarca do país. Retratos do rei e da família real — ele e a rainha Jetsun Pema têm três filhos pequenos — estão em quase todas as casas e empresas no Butão, exibidos da mesma forma que outras nações penduram suas bandeiras nacionais. Fotos do rei são onipresentes nos templos budistas do país, colocadas ao lado de fotos de lamas e postas com ofertas de flores, frutas e doces.

“Se você olhar para os imóveis das empresas privadas, das pessoas ricas no Butão, são enormes e bastante decorativas”, diz Temphel. “Mas se você olhar para as casas de nossa família real, elas são muito pequenas e são apenas um estilo de vida simples e, eu acho, humilde. E é o que importa: o que pensam sobre o país e as pessoas, eu acho. Não é pensar em si, mas nas pessoas do país.”

Uma geração à beira

Um número crescente de jovens está deixando o Butão para estudar e trabalhar no exterior. Phubz, que tem cerca de 20 anos e vive em Perth, na Austrália, busca um mestrado em comunicação e faz parte da nova geração do Butão, que equilibra o amor pela família e pela cultura com o desejo de desbravar mais do mundo.

“Há um ditado butanês que diz: ‘Você faz o que o vizinho faz. Se ele ou ela vai ordenhar a vaca, você vai ordenhar a vaca. Se eles vão trabalhar nos campos, você também vai’”. Ele compara isso à tendência atual dos jovens de saírem para trabalhar e estudar no exterior.

“Os pais sentem que, se o filho ou filha do vizinho está indo para a Austrália, eles precisam mandar o deles também.’”

Temphel concorda com essas opiniões, dizendo que se preocupa com o fato de o Butão ter um grande desequilíbrio populacional, com mais idosos do que jovens, semelhante a outros países asiáticos como Japão e Coreia do Sul.

“Minha preocupação é que, após sete anos morando em outros países, você se acostuma mais com os costumes, os hábitos que você tem em diferentes países, e será muito difícil para eles se ajustarem imediatamente no Butão”, diz ele.

Aqueles butaneses que querem explorar o mundo mais amplo não podem simplesmente pegar suas malas e partir. Apenas três países têm embaixadas diplomáticas em Thimpu, o que significa que a maioria das relações internacionais deve passar pela Índia. A moeda do Butão, o ngultrum, está atrelada à rúpia indiana, e a maioria das lojas e empresas aceita ambas.

O ranking Henley Passport Index coloca o passaporte do Butão como o 87º mais poderoso do mundo, com seus portadores podendo acessar 55 lugares sem visto — uma lista que não inclui os Estados Unidos, Austrália ou União Europeia.

empresária Chokey Wangmo
A empresária Chokey Wangmo administra vários negócios na cidade de Gelephu, no sul do Butão / Chokey Wangmo

O único centro de aviação internacional do Butão, o Aeroporto Internacional de Paro (PBH), tem um dos pousos mais bonitos do mundo — mas também é um dos mais desafiadores logisticamente. Localizado em um vale entre duas montanhas, apenas aviões menores podem entrar e sair com segurança. Como resultado, Paro oferece apenas voos curtos para Bangkok, Dhaka, Kathmandu e Nova Délhi.

Algumas dessas logísticas podem se tornar mais fáceis, no entanto. Além de ser a casa da nova Cidade da Atenção Plena, Gelephu foi escolhida para um novo aeroporto internacional. Seu terreno mais plano significa que haverá espaço para pistas mais longas — e, provavelmente, aviões jumbos que podem ir até o Oriente Médio, Europa e além.

De acordo com dados do governo, a renda per capita no Butão é de 115.787 ngultrum (US$ 1.387, ou R$ 7.499) por ano. Já que um voo de Paro para Bangkok custa a partir de US$ 350 (ou 1.892,55), viajar internacionalmente ainda está fora de cogitação para muitos butaneses.

Os estrangeiros que desejam emigrar para o Butão, no entanto, não têm vida fácil. Apenas cidadãos butaneses podem comprar terras, sendo que a única maneira de obter a cidadania butanesa — mesmo sendo casado com um nativo — é através da aprovação pessoal do rei.

O que vem a seguir

Wangmo, que passou seus anos de estudante na Índia antes de retornar ao Butão, viu sua terra natal de uma perspectiva local e estrangeira. “O modo como estamos vivendo está ultrapassado agora”, ela diz. “Precisamos aprender e aceitar novos comportamentos”.

A empresária dá vários exemplos de cultura de trabalho que, segundo ela, dificultam a vida dos proprietários de empresas: por exemplo, ela não conseguiu encontrar um banco no Butão que permitisse preencher a papelada da conta online em vez de ir pessoalmente.

Wangmo diz que coisas como agendamento de reuniões, mensagens fora do escritório e atendimento ao cliente online geralmente não existem nos escritórios butaneses.

A maioria dos empregos no Butão exige traje tradicional — uma peça chamada gho, combinada com meias até os joelhos para os homens; e um conjunto de jaqueta e saia de duas peças chamado kari para as mulheres — para ser usado enquanto se trabalha, mas alguns trocam por jeans e camisetas nos fins de semana.

Temphel, do Green Bhutan, diz que a mentalidade butanesa é centrada na comunidade, onde todos se conhecem e cuidam uns dos outros. É comum que os vizinhos visitem os outros sem serem convidados e que toda a vila dê boas-vindas a um novo bebê ou a alguém que saiu do hospital, por exemplo,

Para Wangmo, esse senso de espírito comunitário pode ser sufocante às vezes. Ela diz que tem dificuldade em dizer às pessoas que quer jantar sozinha ou que não quer convidados todos os dias.

Apesar do sistema de saúde pública gratuito do Butão, ela acredita que falta algo essencial: transparência em relação à saúde mental.

No Coffee Cat Café, que ela possui e administra em Gelephu, os clientes são incentivados a falar sobre sua saúde mental uns com os outros. Wangmo diz que muitas pessoas chegaram ao ponto de ruptura durante a pandemia, pois o isolamento forçado as afastou das redes que conheciam tão bem.

“Ninguém estava socializando por causa da Covid”, ela diz. “E então, quando começaram a conversar, entenderam como era importante falar sobre seus sentimentos. E acho que foi realmente quando a (conversa sobre) saúde mental veio à tona. A saúde mental, eu acho, é uma luta muito, muito pessoal.”

Para facilitar a abertura das pessoas, o Coffee Cat Café realiza eventos como leituras de poesia. Há citações motivacionais escritas nas paredes e uma biblioteca de empréstimo bem abastecida. Em suas contas nas redes sociais, há campanhas sobre o fim do estigma da menstruação e incentivo a mulheres empreendedoras.

Para Wangmo, que está treinando sua equipe do restaurante e café para ter uma mentalidade mais voltada ao turismo, a mudança não aconteceu rápido o suficiente.

“Usarmos roupas diferentes e termos carros de outros países não vai fazer com que alcancemos o patamar desejado”, ela diz. Ou seja, a empresária afirma que essas mudanças, consideradas superficiais, não são o suficiente para trazer o progresso que o Butão precisa.

“A mudança vai nos atingir com força. Algumas pessoas não estão felizes, algumas pessoas estão com medo, não sabem o que vai acontecer, se vão sobreviver. Mas quando temos uma fé, temos que seguir, não há nada que não possamos fazer.”

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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