Da capital Sófia a Plovdiv: conheça a Bulgária, novo país da zona do euro

Com raízes nas civilizações mais antigas da Europa, país tem ruínas romanas, mosteiros ortodoxos, gastronomia contemporânea e cidades históricas ainda fora do radar dos brasileiros

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Com raízes nas civilizações mais antigas da Europa e recém-integrada à zona do euro, a Bulgária é um dos destinos mais interessantes e subestimados da Europa. No extremo nordeste da Península Balcânica, banhado pelo Mar Negro e marcado pelo curso do rio Danúbio, o país guarda riquezas culturais e naturais que nem imaginamos.

Lar para 6,4 milhões de habitantes, faz fronteira com Romênia, Turquia, Grécia, Macedônia do Norte e Sérvia, uma encruzilhada de mundos que moldou sua identidade ao longo de mais de 13 séculos.

O território búlgaro guarda vestígios dos trácios, dos gregos e dos romanos. Séculos depois, adotou o cristianismo, tornou-se uma potência medieval e teve papel central na disseminação do alfabeto cirílico. Viveu muito tempo sob o domínio otomano e, no século XX, atravessou guerras balcânicas, guerras mundiais e décadas de regime comunista. A transição democrática foi iniciada em 1989 e abriu caminho para a integração ocidental.

Tantos capítulos de história podem ser vistos e sentidos pelas ruas da capital Sófia ou em Plovdiv, uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da Europa. Visitei ambas as cidades como parte do trecho final do "Grande Expresso do Oriente", jornada inspirada no Expresso do Oriente que durou mais de 20 dias entre trem e hotéis. Desenhada pela agência brasileira Latitudes, pioneira ao realizar viagens de conhecimento, a travessia me revelou uma Europa distante dos cartões-postais mais óbvios.

Enquanto Sófia impressiona pela convivência entre ruínas antigas, arquitetura moderna e a silhueta do Monte Vitosha como pano de fundo, Plovdiv, que já foi Capital Europeia da Cultura em 2019, nos seduz com um centro histórico quase cenográfico e com atmosfera que mescla herança otomana e contemporaneidade.

Pouco maior que os estados de Pernambuco e de Santa Catarina, a Bulgária é o país mais recente a adotar o euro como moeda, mudança que entrou em vigor em janeiro deste ano. Dois anos atrás foi a vez de entrar no espaço Schengen, mudanças que simplificam nossa viagem ao país.

O que ver e fazer em Sófia, a capital

Reconhecida como uma Cidade Criativa do Cinema pela Unesco em 2014 e eleita a Capital Europeia do Esporte em 2018, Sófia sintetiza a travessia entre vários mundos, uma característica dos Bálcãs. Durante minha passagem pela capital, me surpreendi: é vibrante e bastante moderna, carregando marcas de sua trajetória política e religiosa e chamando a atenção pelos contrastes arquitetônicos.

No centro, o antigo palácio real em estilo neoclássico, hoje um museu de arte, divide espaço com edifícios de influência soviética, largas avenidas e enormes construções comunistas. Em certas partes do centro, até o chão guarda uma peculiaridade: o pavimento é feito com uma argila amarela vinda do Danúbio, material caro que passa duas vezes pelo forno antes de ganhar as ruas da capital.

Nas proximidades da Academia Búlgara de Ciências e do Parlamento, a monumental Catedral Alexander Nevsky domina a paisagem com cúpulas douradas. Construída após a libertação búlgara do domínio otomano, no fim do século XIX, funciona quase como um manifesto arquitetônico da identidade ortodoxa do país. Mármores, pedras preciosas, muitos detalhes dourados e enormes ícones religiosos reforçam a grandiosidade do endereço. O campanário chega a 53 metros e os portões e mosaicos foram importados de Veneza.

A poucos passos, a atmosfera muda na Igreja de Santa Sofia, templo que acabou dando nome à própria cidade e que remete aos séculos IV e VI. No subterrâneo, ruínas romanas, antigos mosaicos e vestígios arqueológicos revelam uma história impressionante. Entre os corredores, símbolos cristãos usados na catequização, como desenhos que representam o paraíso, ajudam a contar como religião e poder caminharam juntos ao longo do tempo.

Entender Sófia também passa pela mesa e o Cosmos estava no topo da minha lista. O chef executivo Vladislav Penov me contou que o restaurante trabalha com ingredientes locais vindos de até 200 km da capital. A ideia é traduzir a culinária búlgara sob um olhar contemporâneo por meio de menus degustação e escolhas à la carte.

Na casa, provei um Kačamak, prato cremoso à base de milho, reinterpretado com peixe defumado, queijo de cabra, cogumelo e nata. Também provei um cordeiro servido sobre arroz fermentado, acompanhado dos miúdos e do próprio molho da carne. Um leve bolo de baunilha perfumado com rosa húngara e sorvete de iogurte encerrou a refeição. A rosa, inclusive, é símbolo do país e sua colheita é um dos costumes mais antigos e tradicionais dos búlgaros, tornando-se atração turística.

Bate e volta até um Patrimônio Mundial

Nos arredores de Sófia, outro símbolo ajuda a compreender a força da espiritualidade búlgara. A cerca de 1h30 da capital, o Mosteiro de Rila é cercado por montanhas e florestas, uma paisagem que parece saída de uma ilustração medieval. Foi fundado no século X por São João de Rila, eremita que escolheu o isolamento das montanhas para levar uma vida de devoção e contemplação. O religioso foi até canonizado pela Igreja Ortodoxa.

O complexo é considerado o mais importante da Bulgária e integra a lista de Patrimônios Mundiais da Unesco desde 1983. Ao longo dos séculos, funcionou como um dos principais centros espirituais e literários do mundo ortodoxo oriental. Foi atacado e reerguido e, hoje, o que vemos é uma reconstrução do século XIX.

No interior da igreja principal, a iconografia impressiona: há madeira talhada, ouro, afrescos e relíquias sagradas. Para mim, uma das cenas mais marcantes estava do lado de fora: além das longas filas para chegar perto das relíquias religiosas, havia muita procura pelos famosos pães preparados pelos monges.

O mosteiro é considerado um símbolo do Renascimento Búlgaro. A arquitetura e afrescos representam, segundo a Unesco, uma obra-prima do povo búlgaro. Com uma história ininterrupta desde a Idade Média, trabalhos contínuos de conservação, monitoramento sísmico e planejamento de infraestrutura buscam garantir que esse patrimônio sobreviva por mais e mais séculos.

Plovdiv, uma joia construída sobre civilizações

Plovdiv é a segunda maior cidade da Bulgária e uma das mais antigas de toda a Europa. Há registros de assentamentos humanos na região há cerca de seis mil anos, apesar de alguns sítios arqueológicos apontarem ocupações ainda mais antigas.

No complexo arqueológico Nebet Tepe, que marca um dos primeiros assentamentos da cidade, enormes pedras revelam camadas de ocupação humana, já que tribos indo-europeias, romanos, bizantinos e otomanos passaram por aqui.

No século IV a.C., Plovdiv foi conquistada por Filipe da Macedônia, que deu à cidade um de seus muitos nomes, Filipópolis entre eles. Após uma série de batalhas no século I d.C., a cidade se tornou parte do Império Romano. Um dos resquícios mais incríveis da época é o Teatro Romano de Filipópolis. Ainda preservado, reforça a ideia de que, nos Bálcãs, diferentes culturas vão se acumulando.

Também há outras heranças bem preservadas daquela época, como ruas de paralelepípedos, muralhas da fortaleza e sistemas de água.

Interessante notar que Plovdiv tem uma atmosfera diferente do restante dos Bálcãs. As famosas casas simétricas do século XIX, construídas durante o Renascimento Nacional Búlgaro, criam um ambiente quase cenográfico. Na época, a localidade foi um importante centro econômico e abrigava pessoas ricas que viajavam pela Europa, que traziam novas correntes culturais. Assim, os comerciantes ostentavam sua riqueza através da construção de casas bem ornamentadas.

Ao mesmo tempo, estar em Plovdiv é notar que ruínas romanas, mesquitas otomanas e cafés modernos convivem lado a lado no cotidiano. No centrinho, há vielas de pedra, música ao vivo e pequenos restaurantes que dão um charme especial à viagem.

Raio-X da Bulgária

  • Língua oficial: búlgaro;
  • Moeda oficial: euro;
  • Melhor época para visitar: primavera (abril a junho) e outono (setembro a outubro) para visitar Sófia e Plovdiv. O clima ameno convida a caminhar pelas ruas sem o calor intenso nem as multidões do pico turístico. Maio e setembro são meses equilibrados, com céu aberto, temperatura agradável e movimento moderado. O verão (julho e agosto) é bem quente e marca a alta temporada na Europa. O inverno tem seu charme com mercados natalinos e temperaturas abaixo de zero, mas limita atividades ao ar livre.

 

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