Aos 79, mulher troca NY por Paris e diz que foi melhor decisão que já tomou
“Eu sabia que não queria me ver no leito de morte dizendo: ‘Eu sempre quis me mudar para França, mas nunca fui’”, contou ela

Mary Jane Wilkie conheceu Paris quando tinha 21 anos — e quase seis décadas depois, decidiu que finalmente era hora de fazer da capital francesa seu lar definitivo.
Em dezembro de 2021, aos 79 anos, ela se mudou de Nova York para Paris para começar do zero. Desde então, vive — e trabalha — na Cidade do Amor, sem nenhuma vontade de voltar aos Estados Unidos.
“No fim das contas, eu sabia que não queria me ver no leito de morte dizendo: ‘Eu sempre quis me mudar para França, mas nunca fui’”, contou ela ao CNN Travel. “Quando você descobre o que não quer se arrepender lá na frente, entende o que precisa fazer com sua vida.”
Sem arrependimentos
Embora tenha crescido no Texas, Mary Jane sempre quis ir além do que conhecia. “Minha família é amorosa, mas havia outros horizontes me chamando”, diz.
Em 1963, foi para a França, passou um ano estudando na Sorbonne, em Paris. “Tinha confiança de que conseguiria um trabalho, aprender francês… e fiz isso.”
Depois, aproveitou uma oportunidade na América do Sul, destino que já queria conhecer havia tempos. Partiu de Lisboa rumo a Buenos Aires de navio, e acabou morando em vários países latino-americanos, como Bolívia e Paraguai, chegando a falar espanhol quase como uma nativa.
Acabou se fixando em Nova York, onde se envolveu com o "shape-note singing", um estilo de coral americano criado no início do século XIX. “Não tem ensaio nem apresentação. A gente simplesmente se reúne e canta, quem quiser chega. O som não é refinado, mas é forte — ou você odeia, ou ama. Sou do time que ama.”
A conexão com Paris ressurgiu há cerca de uma década, quando voltou para cantar e fez muitos amigos. “Nova York é ótima, mas a gente quer coisas diferentes em fases diferentes da vida”, reflete. “A fantasia de morar na França foi ganhando forma.”
Nos anos seguintes, visitava a França pelo menos duas vezes por ano, conhecia mais do país com amigos cantores e se apaixonava cada vez mais. “Pensava: ‘Nossa, eu gosto daqui’. Queria mais silêncio, sentia Nova York cada vez mais barulhenta. Fiz amigos, adorei a comida…”
De volta de uma temporada em Paris, decidiu encarar a mudança de verdade. “Vendi meu apartamento por um ótimo valor. Não dava para comprar um em Paris, mas cá estamos.”
Nova rotina

Mary Jane não quis se aposentar. Preferiu seguir trabalhando remotamente como contratada independente, entrevistando candidatos a emprego — atividade que adora e que, segundo ela, não a cansa.
“É o que faço há mais tempo na vida. Nunca me entediei. As pessoas contam histórias, é uma janela para América. E talvez eu seja curiosa demais, mas adoro.”
Familiares e amigos apoiaram totalmente a mudança. “Tenho sorte de ter uma família que gosta de ver cada um feliz do seu jeito”, conta.
Logo no início, ela se deparou com um obstáculo: sua idade. “Na França, existe uma lei que impede o despejo de inquilinos com 80 anos ou mais. Então, se você tem 75 ou mais, os proprietários já ficam hesitantes. Eu não sabia disso antes.” Mesmo assim, conseguiu alugar um apartamento de um quarto.
A mudança coincidiu com a pandemia de covid-19, mas Mary Jane diz que isso não atrapalhou — pelo contrário: “Me deu tempo para explorar mais, praticar o francês, ver filmes antigos, ouvir músicas. Não é só a língua: são as referências culturais que enriquecem a vida.”
Ainda assim, os primeiros meses foram mais difíceis do que ela imaginava. “É aquela história: quando você mora de verdade, precisa descobrir onde comprar o detergente certo. Os amigos perguntavam: ‘Tá indo muito a museu?’, e eu respondia: ‘Não, tô tentando achar o detergente certo!’ — como turista, você não se preocupa com essas coisas.”
Aos poucos, foi achando tudo o que precisava — menos a couve kale, que quase nunca encontra em Paris. “Fico decepcionada. Amo kale, mas arrumei um substituto.”
Novos laços
Instalada, com internet funcionando, computador montado e uma igreja onde se sente bem, ela se sentiu preparada para abraçar Paris de vez. Fazer amigos não foi difícil, já que é “boa de papo”, mas precisou adaptar um pouco a abordagem. “Aprendi que aqui, se você vai falar com alguém, a primeira palavra tem que ser ‘Bonjour’. Na França, as pessoas gostam de trocar gentilezas antes de responder a uma pergunta.”
Quanto às diferenças culturais, ela diz que não teve grandes dificuldades de adaptação — embora ache que o atendimento ao cliente poderia melhorar. “Tenho várias críticas aos Estados Unidos, mas lá as pessoas entendem o que é servir bem o cliente. Na França, eles continuam um pouco atrás. Então mudei minhas expectativas. Eles não vão mudar por mim.”
Outro detalhe foi perceber que o "espaço pessoal" é diferente. “No mercado, as pessoas chegam mais perto do que nos EUA. Já tinha visto isso na América Latina também. Precisei entender que não são invasivos — são só franceses.”
Mary Jane é apaixonada pelo estilo de vida parisiense e ainda se encanta com a beleza da cidade: “Claro que tem prédio novo feio também, mas até eles são simpáticos.”
Hoje, aos 82 anos, tem amigos de todas as idades. “Alguns têm a minha idade, outros são mais novos — meu vendedor de queijos tem uns 50 e quer me apresentar a avó dele, que é da minha geração. Meus colegas de canto têm 10, 20 anos a menos. É uma mistura boa.”
Viver com pouco, mas bem
Ela mora em Issy-les-Moulineaux, um subúrbio ao sudoeste de Paris, e admite que queria comprar um apartamento ali, mas o preço não coube no bolso. “Pelo menos não numa vizinhança onde eu gostaria de morar. Foi uma surpresa — mas comprar imóvel aqui é uma dor de cabeça burocrática, então talvez seja melhor continuar alugando. Tenho poucas necessidades, sei o que quero.”
Com seu cartão de saúde (Carte Vitale), quase não tem gastos médicos — até porque evita médicos ao máximo. “Só vou quando é algo mais sério, uma lesão, algo assim", diz.
Para se manter bem, faz ioga todo dia há uns 30 anos: “Faço para não acabar, como muita gente da minha idade, parada em frente à TV. Por enquanto, graças a Deus, me mexo bem, enxergo bem.”
Publicou um livro — "Bodies Speak Truth: So listen up!" — em que compartilha os hábitos que desenvolveu para cuidar da saúde e bem-estar. “Sou educadora por natureza. Acho que o que aprendi pode ajudar outras pessoas. No livro, conto como aprendi a valorizar minha intuição.”
O francês, ela admite, ainda não é tão forte quanto o espanhol — mas vem melhorando. “Eu pratico o máximo que posso, porque não tenho décadas pela frente para dominar tudo”, brinca.
No fim das contas, diz que se sente em equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. “Recebo minha aposentadoria, trabalhei muito para isso. Tenho 82 anos — se não soubesse equilibrar agora, Deus me ajude! Como disse para o meu cliente: enquanto tivermos visão e audição, seguimos até cair. É esse o plano.”
Quase quatro anos depois da mudança, com visto de residência renovável e planos de pedir cidadania francesa em alguns anos, Mary Jane não se vê mais morando nos EUA. “Só voltaria, Deus me livre, se alguém da família morresse. As pessoas perguntam: ‘Vai para casa no Natal?’. Mas casa é onde estou. E estou aqui.”
Sobre ter se mudado para Paris aos 79 anos, Mary Jane não acha que tenha sido corajosa — e sim, necessária. “Dizem: ‘Ah, nessa idade, que coragem mudar para França!’. Mas coragem é quando você tem medo e vai mesmo assim. Eu não tinha medo.”



