Belgrado e Escópia mostram os Bálcãs entre impérios e novos símbolos

Entre rios, estátuas monumentais e heranças de antigos impérios, as capitais da Sérvia e da Macedônia do Norte ajudam a compreender a complexidade dessa parte da Europa ainda pouco conhecida

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Entre rios que testemunharam impérios e monumentos que tentam reinventar identidades nacionais, viajar pelos Bálcãs é sair da zona de conforto e não encontrar respostas simples. É nesse contexto que a jornada se torna ainda mais fascinante, revelando que talvez ainda conheçamos pouco sobre o nosso mundo.

Belgrado, na Sérvia, e Escópia, na Macedônia do Norte, são cidades em que esses aspectos ganham força. A sensação é que elas vivem simultaneamente em diferentes épocas.

Enquanto a capital sérvia cresce no encontro entre os rios Danúbio e Sava, um ponto estratégico que viu passar otomanos, bizantinos, austro-húngaros e iugoslavos, Escópia parece uma colagem arquitetônica que desafia a lógica. Ali, fortalezas medievais dividem espaço com prédios neoclássicos recentes, estátuas de musas e construções modernas que tentam estabelecer uma identidade ainda em construção.

Foi esse o cenário que encontrei durante um trecho da viagem de trem “Grande Expresso do Oriente”, roteiro criado pela agência brasileira Latitudes inspirado no lendário Expresso do Oriente. Da Suíça à Turquia, passei por 10 países e 14 cidades da Europa, incluindo países em transformação, como Bósnia e Herzegovina e Kosovo.

Mais do que destinos, esses locais funcionam como uma aula viva sobre memória, poder e pertencimento. Entre mesas fartas, vinhos locais e monumentos carregados de simbolismo, os Bálcãs me revelaram um território onde passado e futuro disputam espaço o tempo todo.

Belgrado: entre fortalezas, cicatrizes e mesas fartas

Belgrado é uma das cidades mais antigas da Europa, com assentamentos que remontam ao século IV a.C. Com mais de 1,1 milhão de habitantes, as ruas mostram marcas dos inúmeros impérios que passaram por ali. Caminhar pela capital é se deparar com fortalezas medievais que convivem com largas avenidas do período socialista, enquanto cafés modernos ocupam as margens dos rios.

Um dos destaques é o Kalemegdan Park, o maior parque da cidade, onde a Fortaleza de Belgrado ergue-se em frente ao encontro entre os rios Danúbio e Sava. Aqui, resquícios medievais permanecem impressionantemente preservados: um dos símbolos do complexo é o Zindan Gate, antiga prisão da fortaleza. O entorno ainda abriga o museu militar e uma exposição ao ar livre com tanques e veículos usados nas duas grandes guerras mundiais.

Belgrado também se revela à mesa. No Langouste, um dos raros restaurantes sérvios com estrela Michelin, provei ingredientes locais tratados com a delicadeza dos dias atuais. Vieram à mesa um taco de truta defumada com salsão e ovas de salmão, bastante fresco e crocante, além de receitas com cogumelos que traduzem a sazonalidade dos Bálcãs.

O peixe selvagem do Adriático, vindo de águas geladas, tinha textura gordurosa e sabor intenso. Tudo acompanhado por vinhos sérvios, ainda pouco conhecidos fora da região, melhor brindados com a vista privilegiada para o rio Sava.

Já na rua Knez Mihailova, a principal via de pedestres do centro histórico, edifícios elegantes exibem outra camada da cidade. Recheada de cafés, lojas e construções do século XIX, a rua liga a Praça da República à Fortaleza de Kalemegdan.

Ali, a Academia Sérvia de Ciências e Artes, construída no início do século XX, é um dos destaques, já que mistura estilos arquitetônicos e tem forte influência Art Nouveau. Mas Belgrado também expõe suas feridas: alguns prédios dos arredores permanecem parcialmente destruídos desde os bombardeios de 1999, durante o conflito envolvendo Sérvia e Montenegro.

Para compreender melhor o passado, mais especificamente a antiga Iugoslávia, visitei a Casa das Flores, mausoléu e museu dedicado a Josip Broz Tito. Líder da antiga Iugoslávia socialista, Tito foi peça central da política dos Bálcãs durante grande parte do século XX. O museu guarda objetos raríssimos recebidos como presentes diplomáticos, entre eles um vaso egípcio datado de 3 mil anos a.C. e peças históricas vindas da Tunísia.

Um dos momentos mais fascinantes para entender melhor esse passado foi conhecer o lendário Trem Azul de Tito, uma espécie de escritório itinerante do ex-líder que recebeu rainhas e presidentes ao longo de viagens diplomáticas. O trem fica estacionado em um depósito ferroviário na região de Topčider. A experiência foi organizada especialmente pela Latitudes como parte de um dos passeios privados e exclusivos do roteiro.

A gastronomia tradicional sérvia apareceu em outra ocasião marcante da viagem, no Bela Reka, com o selo Bib Gourmand do Guia Michelin. A hospitalidade sérvia começou com uma taça de rakia, destilado de frutas profundamente ligado às celebrações locais, especialmente a versão feita com ameixa. Entre os pratos, meu destaque é o "Ćuretina sa mlincima", receita de peru acompanhada de uma massa local assada com creme de queijo, além das tradicionais carnes moldadas em formato de pequenas salsichas.

Belgrado ainda revela uma face contemporânea no Belgrade Waterfront, projeto urbanístico moderno às margens do rio Sava repleto de hotéis, comércio e novos empreendimentos. Nas redondezas, até o tenista Novak Djokovic aparece como símbolo nacional, já que o Novak Café & Restaurant reúne troféus, bolas de tênis e homenagens ao maior nome do esporte sérvio.

Antes de deixar a cidade, visitei a monumental Catedral de São Sava, uma das maiores igrejas cristãs do mundo. Dedicada a São Sava, fundador da Igreja Ortodoxa Sérvia, ela impressiona não apenas pelas dimensões, que reúne cerca de 17 mil m² de mosaicos, mas pela atmosfera arrebatadora que mistura espiritualidade, arte e identidade nacional.

Nem o lustre central escapa: é considerado um dos maiores do mundo, com 20 metros de diâmetro e peso que ultrapassa algumas toneladas.

Escópia: uma capital em busca de identidade

Depois da Sérvia, a viagem seguiu para a Macedônia do Norte, um país de pouco mais de dois milhões de habitantes, onde se fala majoritariamente macedônio e cuja moeda é o dinar macedônio. Para se ter uma noção, 1 dinar macedônio hoje vale cerca de 9 centavos de real.

A chegada a Escópia provoca um impacto imediato. A capital choca com a quantidade de estilos arquitetônicos. Há fortalezas dos séculos V e VI, igrejas ortodoxas, construções modernas, traços Art Déco, Art Nouveau e prédios inspirados na Belle Époque dividindo espaço em poucos quarteirões.

Em muitos momentos, a cidade é confusa visualmente, como se diferentes épocas competissem pela atenção, tudo ao mesmo tempo.

"É um país curioso. Ao mesmo tempo que não pode negar o passado eslavo, tenta trazer uma descendência grega. A Macedônia chama a atenção das pessoas através do turismo e construiu um cenário que evoca um passado quase mítico. O passado é forjado não através de ruínas, mas com ajuda de uma estatuaria nova, como de Alexandre e das musas", conta Saulo Goulart, historiador que acompanhou a viagem.

Parte dessa transformação ganhou força com o projeto "Skopje 2014", lançado pelo governo para reforçar uma identidade nacional por meio da construção de estátuas monumentais, pontes e edifícios de inspiração neoclássica. A iniciativa divide opiniões, mas moldou profundamente a paisagem urbana da cidade.

Na gastronomia, a fartura continua sendo regra nos Bálcãs. O Vodenica Mulino, um dos restaurantes mais sofisticados da capital, me surpreendeu com ingredientes e receitas típicas da culinária macedônia, sempre acompanhados por vinhos locais. Mais do que refeições, as mesas funcionam como demonstrações de hospitalidade.

Outro ponto marcante foi a Casa Memorial de Madre Teresa. Embora tenha ficado mundialmente conhecida por seu trabalho humanitário em Calcutá, na Índia, Madre Teresa nasceu e cresceu em Escópia. O memorial reúne objetos pessoais, uma réplica de seu quarto, documentos históricos e uma pequena capela que ajuda a compreender as origens da religiosa antes de sua projeção internacional.

 

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