Cidade universitária é destino gastronômico e de compras nos EUA; conheça
Região de Northampton é refúgio para ciclistas e amantes de café, combinado o charme de vilarejo com a oferta cultural de uma metrópole
O lema de uma cidade pode revelar exatamente o que há de mais cativante nela — e também servir como um atalho para suas particularidades.
Northampton, no oeste de Massachusetts, não é o único lugar do estado onde se pode tomar um bom café ou valorizar o pensamento independente. Mas é a única cidade com o lema não oficial: “Onde o café é forte e as mulheres também.”
O café servido nas diversas cafeterias da cidade não é apenas forte, mas também saboroso. As mulheres citadas no slogan incluem alunas — e ex-alunas — do Smith College, cujo campus, na borda do centro, é um dos mais belos de toda a Nova Inglaterra.
Fundado em 1875, o Smith faz parte de um consórcio de cinco faculdades que sustenta esse cantinho muitas vezes contracultural de Massachusetts, conhecido como Pioneer Valley. A concentração de cinco instituições, reunindo 30 mil estudantes e um corpo docente de excelência num raio de apenas 30 quilômetros, garante uma vida cultural intensa, repleta de atividades e com um clima jovem e vibrante.
Um dos melhores colégios femininos dos Estados Unidos, o Smith imprime seu espírito em cada detalhe: das livrarias locais de alto nível à comunidade acolhedora e artística.
“É visivelmente diferente de qualquer outra cidade universitária”, diz Andrea Monson, da Downtown Northampton Association. “A região sempre teve esse espírito de justiça social, que remonta a centenas de anos.”
Northampton tem apenas 30 mil habitantes e cinco bairros distintos. Mas números assim não contam a história completa: a cidade sempre teve um peso cultural muito maior do que seu tamanho sugere.
A região é referência para gastronomia, compras e shows. Um refúgio para ciclistas e amantes de café, combina o charme de vilarejo com a oferta cultural de uma metrópole.
Há décadas, Hampshire County — onde fica Northampton — é um porto seguro para a comunidade LGBTQIA+, e possui a maior concentração de lares chefiados por casais de mulheres nos Estados Unidos.
Assim como outras cidades industriais do nordeste do país, o compacto centro, a apenas 1,6 quilômetro do rio Connecticut, é repleto de prédios históricos. O Hotel Northampton, com cinco andares, 106 quartos e inaugurado em 1927, ocupa um quarteirão inteiro, com dois restaurantes, um amplo terraço ao ar livre e um lobby decorado com antiguidades.
Na outra ponta da Main Street, o imponente Academy of Music — teatro municipal com 805 lugares, construído em 1891 — recebe apresentações ao vivo e abriga companhias locais de dança e ópera.
Como é típico na Nova Inglaterra, uma torre com campanário se destaca na paisagem. Ela pertence à First Churches of Northampton, cuja entrada exibe uma pedra do antigo templo onde, em 1737, pregou o famoso pastor puritano Jonathan Edwards.
Beleza rural e um toque de utopia
Ligando tudo está a Norwottuck Branch da Mass Central Rail Trail, uma ciclovia e pista de caminhada de 16 quilômetros que cruza o centro e avança sobre o rio Connecticut, passando por paisagens espetaculares, numa ponte de treliça metálica, até chegar a cidades vizinhas como Amherst, lar da Universidade de Massachusetts.
“É um lugar lindo, com uma combinação única de beleza rural e sensibilidade cosmopolita”, diz Jonathan Stevens, padeiro cuja Hungry Ghost Bread já foi indicada ao prêmio James Beard e fica ao lado do campus do Smith.
Essa beleza rural é conhecida fora do estado desde pelo menos 1836, quando a obra "View from Mount Holyoke, Northampton, Massachusetts, after a Thunderstorm — The Oxbow", hoje no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, retratou a paisagem selvagem da região.
A proximidade com o rio Connecticut e a localização — a 160 quilômetros de Boston e a 145 de Albany, no estado de Nova York — fizeram de Northampton, historicamente, um cruzamento de ideias. Foi a primeira cidade a ter um teatro municipal (o Academy of Music, ainda ativo) e também o berço do basquete feminino, criado no Smith College.
Até hoje, a cidade mantém esse espírito inovador. Northampton tem muitas cafeterias, mas praticamente nenhuma Starbucks no centro — sinal de que o padrão genérico não encontra espaço ali. Em 2022, o site Eater Boston levantou a dúvida: Northampton não seria a cidade com mais cafeterias per capita em Massachusetts? Conclusão: “Tudo indica que sim.”
Um dos lugares mais originais para tomar café é o Familiars Coffee & Tea, instalado em um antigo vagão ferroviário que preserva janelas e detalhes de madeira originais. Outras opções marcantes incluem o Sip 143, a cerca de 5 quilômetros, no bairro de Florence — que também abriga o clássico Miss Florence Diner, com letreiro retrô visível a uma quadra de distância.
No centro, o Tart Baking funciona como confeitaria e vitrine de doces impecáveis: croissants de amêndoas dignos de premiação, donuts de cidra glaceados e cookies de chocolate perfeitos para saborear observando o movimento pela vitrine.
Northampton é especialista no quesito pães e bolos. Na divisa do campus do Smith, a Hungry Ghost Bread, de Stevens e Cheryl Maffie, não só produz delícias em forno a lenha, como também convenceu agricultores locais a cultivar trigo, como no século XVII, para ser moído e usado na panificação. O pão francês de fermentação natural sai do forno todos os dias, acompanhado de pretzels quentinhos, scones e cookies do tamanho de um prato.
Independência e sabor local
Os restaurantes que mais se destacam são aqueles que trabalham com ingredientes locais, fortalecem a comunidade ou fazem as duas coisas. O evento Summer On Strong é um dos mais celebrados: todo verão, a rua Strong é fechada para virar um grande terraço a céu aberto, com mesas, cadeiras e shows noturnos nos fins de semana.
Outro exemplo é o Spoleto, restaurante veterano com um enorme pátio nos fundos, coberto por tendas brancas, que nas noites quentes de sábado tem clima de festa de bairro.
Entre os favoritos dos moradores estão a Northampton Brewery, com um terraço arborizado no último andar; o Jake’s, famoso pelo brunch e suas variedades de "hash"; e o Amanouz Café, restaurante marroquino e mediterrâneo com pratos autênticos como homus, kebabs e sopas artesanais.
A cidade também mantém tradições doces: a sorveteria Herrell’s é um ícone, instalada no Thorne’s Marketplace, que também abriga a livraria independente Booklink Booksellers e o Hometown Arcade, um espaço de jogos perfeito para dias chuvosos.
Outros pontos incluem a Newbury Comics, especializada em quadrinhos, mangás, vinis e camisetas, e a Raven Used Books, que, como a Strand de Nova York, tem de tudo — inclusive o que você nem sabia que queria.
“Vivemos numa bolha. Uma bolha artística”, diz Betsy Frederick, dona da livraria há 30 anos. “É uma boa bolha para viver. Não temos engarrafamentos! Mas temos bom café e muita arte. Quem vai embora, acaba voltando. Todo mundo gosta dessa bolha.”



