Como é viajar para o Kosovo, ainda não reconhecido por diversos países

Da capital Pristina a mosteiros medievais, território mistura história recente e arquitetura marcante

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Um dos territórios mais jovens do mundo, o Kosovo é quase duas vezes menor que o estado de Sergipe. Com uma população estimada em 1,6 milhão de pessoas, é também um dos locais mais complexos da Europa contemporânea. Declarou independência da Sérvia em 2008, mas ainda não é reconhecido por todos os países, o que mantém a região envolta em tensões geopolíticas.

Aberto ao turismo, o território abrange desde uma das bibliotecas mais impressionantes do mundo, com influências modernistas, bizantinas e otomanas, até um mosteiro do século XIV que é reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.

O Kosovo é um dos exemplos mais pulsantes do que é uma viagem de conhecimento, conceito trabalhado pela agência brasileira Latitudes. Foi através dela que eu e a equipe do CNN Viagem & Gastronomia cruzamos a Europa a bordo do "Grande Expresso do Oriente", viagem de trem inspirada no lendário Expresso do Oriente, que atravessou 10 países e 14 cidades.

Focada no aprendizado profundo, a jornada nos revelou a cultura e a história dos destinos para além do turismo tradicional, com acompanhamento de professores e historiadores. Após passagens por Suíça, Áustria e Eslovênia, adentramos os Bálcãs, cruzando cenários singulares na Croácia e na Bósnia e Herzegovina, até chegarmos a Pristina, capital do Kosovo, com cerca de 200 mil habitantes.

Breve panorama do Kosovo

O Kosovo não possui uma moeda própria e adota o euro como padrão. A língua predominante é o albanês.

Antes de autodeclarar independência, era uma província da Sérvia dentro da antiga Iugoslávia, com população majoritariamente de origem albanesa. Com o fim da Iugoslávia nos anos 1990, aumentaram as tensões entre sérvios e albaneses.

No fim da década, o cenário evoluiu para um conflito armado marcado por repressão e violência, até a intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1999. Assim, a Sérvia perdeu o controle prático da região, que passou a ser gerida pela ONU.

Sem um acordo definitivo, o Kosovo declarou independência em 2008. Mais de 100 países ao redor do mundo reconhecem o território como país independente, incluindo França, Alemanha, Itália, Estados Unidos e vizinhos como Albânia, Macedônia do Norte e Montenegro. Porém, Brasil, Argentina, Índia, Grécia, Rússia e China, entre outros, não reconhecem sua soberania, incluindo ainda Bósnia e Herzegovina e a própria Sérvia.

Pristina, a capital

O centro de Pristina é cortado pelo Boulevard Nëna Tereza, ampla zona para pedestres que pulsa com cafés, restaurantes e prédios residenciais. A arquitetura é bem robusta, marcada principalmente pelo brutalismo.

No Boulevard se encontra o Heroinat Memorial, monumento formado por mais de 20 mil pinos que homenageiam mulheres vítimas de violência de forças da Sérvia durante o conflito do fim dos anos 1990. Estar diante do monumento é se deparar com uma simbologia que reflete os valores de dignidade e educação. Ademais, é um sinal de coragem e força.

É interessante notar que a arquitetura é um elemento chave para entendermos a identidade da cidade. Nesse contexto, a Biblioteca Nacional do Kosovo é um dos endereços mais emblemáticos de todo o território, atraindo turistas de todos os cantos.

Ela esbanja 99 cúpulas brancas e mescla influências modernistas, bizantinas e otomanas. Construída em 1982, quando o Kosovo ainda fazia parte da antiga Iugoslávia, a biblioteca representa a diversidade cultural e espiritual da localidade.

Espalha-se por 16.500 metros quadrados e reúne salas de leitura, salas de catalogação e pesquisa e anfiteatro. Ao todo, tem capacidade de abrigar milhões de exemplares, entre livros, revistas, jornais e manuscritos.

Além dos marcos arquitetônicos, os sabores do Kosovo também surpreendem. No restaurante Soma Slow Food, que fica em um vale em meio à natureza, a proposta é desacelerar com ingredientes de produtores locais.

O espírito que rege o local é "farm to table". Logo, pense em pães artesanais e pratos tradicionais como a pita, além de carnes preparadas no fogo acompanhadas por vinhos da própria região. Entre os pratos sazonais há caçarola de lakna (um ensopado tradicional albanês) com rolinhos de carne; couve-flor assada em forno a lenha; rosbife com queijo, alcaparras, azeite de manjericão e creme de mostarda; e batata-doce com grão-de-bico, tomate e espinafre.

O restaurante também se destaca pela construção e iluminação natural. O espaço tem um ar artesanal e criativo, tudo envolto em uma atmosfera informal. Vale a viagem.

Patrimônio da Unesco: Mosteiro de Gračanica

A poucos quilômetros de Pristina, o Mosteiro de Gračanica, do século XIV, é um Patrimônio Mundial da Unesco que nos oferece outra perspectiva do Kosovo. Os afrescos, que retratam passagens bíblicas em milhares de figuras, resistiram a vários bombardeios. Saber disso ajuda a dar ainda mais profundidade ao passado e à resistência da região.

Essas pinturas passaram por um longo processo de restauração, concluído em 2018, e seguem bem preservadas. O mosteiro foi um dos últimos grandes monumentos do rei sérvio Milutin, que viveu entre 1282 e 1321. A igreja principal combina a tradição bizantina com influências ocidentais e se destaca pelos afrescos que cobrem completamente o interior, considerados obras-primas do período.

O Mosteiro de Gračanica não aparece isoladamente na lista da Unesco: faz parte de um conjunto maior chamado "Monumentos Medievais no Kosovo", que reúne quatro construções religiosas da tradição ortodoxa sérvia, todas dos séculos XIII e XIV.

Além de Gračanica, há o Mosteiro de Dečani, o Patriarcado de Peć e a Igreja de Nossa Senhora de Ljeviš, esta última na cidade de Prizren. Infelizmente, o conjunto está na lista de Patrimônios Mundiais em Perigo da Unesco, devido a questões políticas e de preservação na região.

 

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