Conheça Rize, a região do chá que revela outra face da Turquia
No extremo nordeste da Turquia, Rize combina tradição, natureza exuberante e a cultura do chá em uma viagem que mostra um país muito além de seus cartões-postais

O primeiro chá que tomei na Turquia, na verdade, não foi em solo. Ele chegou a bordo da classe executiva de um voo da Turkish Airlines. Um comissário aproximou-se com uma bandeja de prata e colocou diante de mim um delicado copo de vidro em formato de tulipa, preenchido por um chá de coloração rubi. Naquele momento, parecia apenas uma gentileza do serviço de bordo.
Dias depois, eu entenderia que aquele era apenas o primeiro de dezenas de copos de çay que cruzariam meu caminho. Em hotéis, restaurantes, mercados, barcos e, principalmente, nas montanhas de Rize, no litoral do Mar Negro, a bebida aparecia sempre da mesma forma: como um gesto de hospitalidade.
Foi ali que percebi que, embora a Turquia seja conhecida mundialmente pelo café turco, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, é o chá que melhor explica a alma do país.
Pronunciado como "tchai", o çay acompanha praticamente todos os momentos da rotina turca. Está presente no café da manhã, nas reuniões de trabalho, nas visitas familiares e até nas pequenas lojas de bairro, onde muitas vezes o cliente recebe um copo antes mesmo de concluir uma compra.
A relação vai além da tradição. A Turquia lidera o consumo mundial de chá per capita, com uma média estimada de cerca de mil xícaras por pessoa ao ano. Mais do que uma estatística, o número ajuda a explicar por que a bebida se tornou um símbolo nacional.
Curiosamente, nem sempre foi assim.

Quando o café deu lugar ao chá
Durante séculos, o café foi a bebida que melhor representou a cultura otomana. As cafeterias de Constantinopla reuniam comerciantes, intelectuais e viajantes em longas conversas sobre política, literatura e negócios. Mas o cenário mudou após a criação da República da Turquia.
Dependente da importação de café, o país buscou uma alternativa mais acessível e, em 1924, passou a incentivar o cultivo de chá em Rize, região montanhosa no extremo nordeste do território. As primeiras mudas vieram da vizinha Geórgia e encontraram ali as condições ideais para prosperar: chuvas abundantes, solo fértil e temperaturas amenas.
O que começou como uma estratégia econômica acabou transformando a identidade do país. Ao longo das décadas seguintes, pequenas propriedades ocuparam as encostas das montanhas, fábricas surgiram e o chá deixou de ser um substituto do café para se tornar protagonista da vida cotidiana dos turcos.
Hoje, praticamente todo o chá produzido na Turquia nasce em uma estreita faixa de terra entre o Mar Negro e a fronteira com a Geórgia. E é justamente para lá que vale seguir viagem.
Rize, a capital do chá turco
A cerca de 1.200 quilômetros de Istambul, Rize fica a pouco mais de uma hora de voo da maior cidade turca, com diversas ligações diárias operadas pela Turkish Airlines. O destino apresenta uma Turquia completamente diferente daquela dos cartões-postais mais famosos ao público brasileiro.
No lugar das grandes mesquitas, dos bazares ou das paisagens áridas da Capadócia, surgem montanhas cobertas por diferentes tons de verde, vales profundos, rios cristalinos, cachoeiras e pequenas vilas envoltas pela neblina. Não por acaso, os turcos costumam chamar a região de "a terra dos cinquenta tons de verde".
Os Montes Kaçkar, que chegam a quase quatro mil metros de altitude, encontram o Mar Negro em uma combinação rara de relevo e clima. As massas de ar úmido vindas do oceano provocam chuvas frequentes durante todo o ano, criando um dos ambientes mais favoráveis do planeta para o cultivo da Camellia sinensis, planta que dá origem ao chá.
É nesse cenário que milhares de pequenos produtores colhem, entre a primavera e o verão, as folhas mais jovens da planta. Em muitas propriedades, o trabalho continua sendo uma tradição familiar passada entre gerações.
Poucas horas depois da colheita, as folhas seguem para as fábricas da região. A rapidez faz diferença: quanto menor o intervalo entre o campo e o processamento, maior a preservação dos aromas e das características naturais do chá.
Primeiro, elas passam pelo murchamento para reduzir a umidade. Depois são enroladas mecanicamente, etapa que rompe as células da planta e inicia a oxidação responsável pela cor, pelos aromas e pelo sabor característico do chá preto. Em seguida vêm a secagem, a classificação e o controle de qualidade.
É justamente esse chá preto que ocupa um lugar central na cultura turca. Servido no tradicional copo em formato de tulipa, ele é consumido puro, sem hortelã, maçã, canela ou qualquer outro aroma adicionado. Embora muitos turistas conheçam os chás aromatizados vendidos nos bazares de Istambul, eles são voltados principalmente ao comércio turístico e não representam o hábito cotidiano dos turcos.

A arte de preparar o çay
Na Turquia, fazer chá também é um ritual. Em vez de uma chaleira convencional, a maioria das casas utiliza a çaydanlık, composta por duas chaleiras empilhadas. Na inferior, a água permanece fervendo. Na superior, uma pequena quantidade dessa água entra em contato com as folhas, formando uma infusão bastante concentrada.
Na hora de servir, cada pessoa escolhe a intensidade da bebida. Quem prefere um sabor mais marcante pede o koyu ("escuro"). Já quem gosta de um chá mais suave opta pelo açık ("claro"), diluído com mais água quente.
Diferentemente de outras culturas, leite, limão ou especiarias dificilmente entram na receita. O objetivo é preservar o sabor das folhas e a coloração rubi que os turcos tanto valorizam.
O copo que virou símbolo nacional

Poucos objetos representam tão bem a Turquia quanto o pequeno copo transparente em formato de tulipa. Chamado de ince belli, expressão que significa algo como "cintura fina", ele foi desenhado para ser bonito e funcional. A parte estreita permite segurar o vidro mesmo quando o chá está muito quente, enquanto a boca mais larga ajuda a dissipar o calor e destaca a cor da bebida.
Os turcos costumam dizer que o chá perfeito deve ter a tonalidade de tavşan kanı, literalmente "sangue de coelho". Apesar da tradução curiosa, a expressão descreve o vermelho intenso e brilhante considerado sinal de uma infusão bem preparada.
Não é raro ver alguém erguer o copo contra a luz antes do primeiro gole, apenas para admirar sua transparência.
Depois de alguns dias na Turquia, entendi que dificilmente um copo de çay é apenas uma bebida.
Ele pode interromper uma negociação, aproximar desconhecidos, selar uma amizade ou simplesmente dar início a uma conversa.
Em um país onde a hospitalidade faz parte da cultura, talvez não exista convite mais genuíno do que ouvir alguém perguntar: "Aceita um chá?"
Muito além do chá: Rize reúne esportes radicais, natureza e história
Embora o chá seja o principal motivo para visitar Rize, a região é uma excelente porta de entrada para conhecer o lado mais verde da Turquia. Entre montanhas, vales, rios e pequenas vilas, o leste da costa do Mar Negro reúne algumas das paisagens mais preservadas do país.
A pouco mais de uma hora de carro está o Vale de Fırtına, um dos cenários mais procurados por quem busca contato com a natureza. Cortado por um rio de águas cristalinas e pontes de pedra construídas durante o período otomano, o vale concentra atividades como rafting, tirolesa, trilhas e passeios de bicicleta, além de cafés e pousadas instalados em antigas casas de madeira.

Mais acima, os Montes Kaçkar atraem viajantes interessados em trekking, escaladas, mountain bike e esportes de inverno, incluindo heli-ski. Entre as bases mais conhecidas está Ayder, vila famosa pelas fontes termais, pelas tradicionais casas de madeira e pelas cachoeiras que descem das montanhas.
Outro cenário que ganhou fama nas redes sociais é Çeçeva. Vista do alto, a pequena vila parece desenhada: as plantações de chá acompanham o relevo das montanhas, formando curvas perfeitas. Mas basta caminhar entre elas para perceber que a beleza da paisagem não foi criada para impressionar visitantes. Ela é resultado do trabalho diário de famílias que, há décadas, vivem da mesma cultura agrícola.
Quem tem mais tempo pode seguir viagem até Uzungöl, um lago cercado por florestas e montanhas que figura entre as paisagens mais fotografadas do Mar Negro turco. No caminho, pequenas aldeias preservam tradições centenárias e oferecem uma oportunidade de conhecer um ritmo de vida completamente diferente das grandes cidades do país.
A cerca de duas horas de Rize, Trabzon reúne parte da história da região. Antiga cidade da Rota da Seda, abriga mercados tradicionais, construções bizantinas e é o ponto de partida para visitar o impressionante Mosteiro de Sumela. Construído no século IV e incrustado em uma parede de pedra a mais de 1.200 metros de altitude, dentro do Parque Nacional de Altındere, o mosteiro parece desafiar a gravidade e figura entre os monumentos históricos mais emblemáticos da Turquia.

A viagem continua a bordo
Quando embarquei em São Paulo, ainda não imaginava que a Turkish Airlines já estava me apresentando um pouco da Turquia antes mesmo de desembarcar em Istambul. Foi só depois de dias percorrendo Rize, conhecendo a cultura do chá e entendendo como a hospitalidade faz parte da identidade do país, que percebi que aquele primeiro voo já antecipava muito do que eu viveria em terra.
A confirmação veio na viagem de volta. Bastou chegar ao Aeroporto de Istambul para perceber que a experiência ainda não havia terminado. O Business Lounge da Turkish Airlines funciona quase como um último mergulho na cultura local. Antes mesmo do embarque, a companhia convida o passageiro a revisitar sabores, aromas e tradições que marcaram a viagem, transformando a nem sempre agradável espera por voo em mais um capítulo de descoberta do país.
O Business Lounge da Turkish Airlines, frequentemente apontado entre os melhores do mundo, impressiona antes mesmo de o passageiro cruzar suas portas. A experiência começa com um check-in exclusivo, distante do movimento intenso do aeroporto, tornando o embarque muito mais tranquilo e fluido. A partir daí, são mais de 5.500 metros quadrados dedicados não apenas ao conforto, mas também a uma das maiores expressões da cultura turca: a gastronomia.
Em vez de um bufê convencional, o lounge reúne diferentes cozinhas abertas, onde chefs preparam receitas na hora. Em poucos passos, o passageiro encontra o tradicional pide, o simit recém-saído do forno, manti (a versão turca dos raviolis), grelhados, sopas como a clássica de lentilhas, dezenas de mezes, queijos locais, azeitonas de diferentes regiões, saladas, frutas frescas e uma confeitaria dedicada aos doces turcos. Não faltam baklava, lokum, sobremesas à base de pistache e estações de café turco preparado na hora e do inseparável chá servido em copos de vidro em formato de tulipa. É o tipo de lugar onde uma conexão de algumas horas passa rápido - e onde muitos passageiros acabam chegando com antecedência apenas para aproveitar a experiência gastronômica.

O cuidado se estende aos detalhes. Há duchas privativas, salas de descanso, espaços silenciosos para trabalhar, biblioteca, áreas para crianças e ambientes pensados para quem enfrenta longas conexões. Tudo reforça uma ideia muito presente na cultura turca: receber bem é parte da viagem, não apenas um serviço oferecido ao passageiro.

Já a bordo, a gastronomia continua sendo protagonista. Nas rotas de longa distância, o serviço lembra mais o de um restaurante do que o de um avião. Com o serviço chamado de Flying Chefs, ou seja, um chef circula pela classe executiva, entrega os menus - disponível também em português - e tira eventuais dúvidas. As entradas chegam em um elegante carrinho, permitindo que o passageiro veja cada preparação antes de escolher. Carnes, peixes, massas e receitas inspiradas na culinária turca são apresentados individualmente, acompanhados por uma carta de vinhos cuidadosamente selecionada, pães aquecidos durante o voo e sobremesas servidas logo em seguida, também levadas à cabine no carrinho para que cada um escolha aquilo que mais desperta o apetite.
Até os detalhes seguem essa lógica de sofisticação. Nos voos de longa duração, os passageiros da classe executiva recebem um elegante kit de amenidades assinado pela Lanvin, com nécessaire em couro, hidratante para as mãos, lip balm, máscara para os olhos, kit dental, meias e outros itens de conforto. A cabine, com poltronas que deitam, ainda oferece roupa de cama completa, edredom, travesseiros amplos e fones de ouvido com cancelamento de ruído, criando uma experiência que se aproxima da hotelaria de alto padrão.
No fim das contas, fica a sensação de que a viagem não termina quando o roteiro acaba. Ela simplesmente muda de cenário. Da plantação de chá nas montanhas de Rize ao último copo de çay servido a muitos metros de altitude, a companhia aérea consegue fazer algo raro: transformar o voo em mais um capítulo da própria descoberta da Turquia.
*A jornalista viajou a convite da Turkish Airlines.


