Ilha do Marajó: roteiro por fazendas, praias, sabores e artes marajoaras
A noroeste de Belém, o Marajó é uma das riquezas mais autênticas do Pará, conhecido pela cultura única que exalta desde búfalos até ancestralidades milenares

Considerada a maior ilha fluviomarítima do planeta, a Ilha do Marajó fica no encontro dos rios Tocantins e Amazonas com o Oceano Atlântico, nos revelando um mosaico único de tradições e pessoas. A partir de Belém, a chegada mais comum é de barco, que nos leva a um território de cultura milenar onde búfalos, queijos, praias e um pedaço esbelto da floresta amazônica convivem em harmonia.
A forte identidade cultural, cheia de autenticidade e simplicidade, reflete-se na gastronomia e na arte. Indícios mostram que o território paraense já era habitado há milhares de anos antes de Cristo. Entre 400 e 1.300 d.C, a cultura marajoara prosperou, originando avanços na cerâmica, agricultura e na organização social.
Hoje, o turismo é uma das principais vocações da ilha, com atrativos que vão desde fazendas marajoaras centenárias e criação de búfalos até sítios arqueológicos, festas folclóricas e ateliês de artesanato - isso sem falar das praias e dos restaurantes típicos.
Foi esse o cenário que percorri para o encerramento da temporada especial do CNN Viagem & Gastronomia no Pará. A leva de episódios reverbera um dos legados deixados pela COP30: o de exaltar as variadas facetas do estado, colocando no holofote não somente a capital Belém, mas outras localidades igualmente abundantes em cultura e conhecimentos.
Fazendas marajoaras e floresta amazônica
Um dos maiores municípios do Marajó é Soure, que reúne belas praias e que parece ter mais búfalos do que gente. O animal é símbolo do Marajó, encontrado nas ruas e nas fazendas, mas não é originário daqui: foi introduzido em meados do século XIX e se adaptou muito bem.
Uma das propriedades que permite uma vivência próxima do búfalo é a Fazenda Mironga, onde podemos experimentar deliciosos queijos. O local oferece a “Experiência Mironga”, que nos mostra a história, a criação e a importância dos búfalos para a cultura do Marajó, incluindo até ordenha e interação que vai além da foto.
A vivência termina da forma mais apetitosa possível, com um café da tarde que envolve quitutes regionais e o queijo do Marajó, que desde 2021 tem o selo de Indicação Geográfica pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). É um queijo de leite cru, de fermentação espontânea e massa cozida, cuja textura é cremosa.
“O queijo do Marajó tem esse sabor e essas características porque é feito nesse território. Porque as búfalas se alimentam do pasto desse território, porque a temperatura que o leite fermenta é única daqui. Assim conseguimos assegurar um saber-fazer que nos dá segurança por conta da ancestralidade, além de ser uma relação de afeto”, conta Gabriela Gouveia, gestora da Fazenda Mironga.
Além do queijo, o doce de leite, a manteiga e o pão de queijo, todos feitos com leite do búfalo, coroam a experiência na fazenda.
Outra propriedade em Soure que nos insere no cotidiano marajoara é a Fazenda São Jerônimo, que opera um sistema agroflorestal em plena Amazônia, além de revelar fauna e flora exuberantes.
A São Jerônimo é um empreendimento familiar que abre as portas para um circuito de ecoturismo que envolve trilhas, passeio de canoa no igarapé, praia deserta e até nado com búfalos. A experiência dura cerca de 2h30 e sai por R$ 250 por pessoa.

Na trilha na mata, passamos por vegetação que reúne ervas medicinais, frutas e sementes que fazem parte da cultura regional, algumas usadas nas pajelanças, como me explica Jerônimo Brito, gerente da fazenda. As pajelanças são práticas tradicionais de cura e espiritualidade de povos indígenas da Amazônia conduzidas pelos pajés. Os rituais incluem cantos, ervas e rezas.
O interessante é que a paisagem vai mudando ao adentrarmos o mangue, que é como uma mãe: protege, cuida e alimenta, dando sustento a famílias que vivem da catação do caranguejo.
Após a floresta alagada, chegamos à Praia do Goiabal, um espetáculo da natureza onde búfalos andam livremente. É possível passar quase o dia todo na fazenda, onde também há opção de almoço. A refeição pode incluir uma iguaria: o ceviche de turu, molusco encontrado na casca de árvores dos manguezais da região.
Sabores do Marajó

A gastronomia amazônica não cansa de me surpreender por ser moderna e tradicional, misturando inúmeras possibilidades e fazendo florescer, acima de tudo, a criatividade. Esse também é um gostinho da Cozinha Tucupi, restaurante da chef Carmem Nunes em Soure que faz uso inventivo de produtos locais.
O ambiente é bem descontraído, em uma casa aberta de madeira com direito a redes de descanso. À mesa, comecei minha jornada gastronômica com caldinho de tucupi, prato que leva somente jambu e tucupi - o tacacá, por exemplo, vai além, feito ainda com camarão e goma. Depois, experimentei um tartar de filhote com caviar de tapioca e crocante de arroz, uma forma elevada de trabalhar ingredientes icônicos do Pará.
Como prato principal, experimentei um filhote, saboroso e firme, que veio sobre uma cama de purê de caranguejo. O segundo prato principal resumiu o espírito da região: carne de búfalo no ponto acompanhada de um arroz feito com queijo do Marajó.
A experiência na Cozinha Tucupi nos leva a uma viagem contemporânea, mas a cozinha raiz do Marajó também tem endereço certo: o Solar do Bola, onde o pedido mais emblemático é o Frito do Vaqueiro, prato com mais de um século de história.
Trata-se de pedaços pequenos de carne que fritam lentamente durante dois dias na própria gordura, virando quase como uma conserva - a panela leva carne dianteira de búfalo e sal. Outro item imperdível é o Filé Marajoara, que vem com queijo do Marajó derretido e acompanha arroz e fritas.

Como toda boa refeição, devemos guardar um espaço para o docinho. No centro de Soure, em frente à orla da cidade, a Ice Buffalo produz sorvetes com leite de búfalo. Existe até um sabor criado em homenagem a um dos animais que vaga em frente à loja: o Alemão, que leva pedaços de queijo do Marajó e doce de maracujá.
Cerâmica e arte marajoara
Para além da comida e da floresta, a arte entra em cena como um dos pilares da cultura local. A cerâmica marajoara é um tesouro arqueológico das Américas feita com argila das terras úmidas do Marajó, uma tradição que se arrasta há mais de mil anos.
Um dos locais para conhecer essa produção é o Ateliê Arte Mangue, tocado pelo artista Ronaldo Guedes.
“A cerâmica marajoara tem algumas características, como as misturas no barro para melhorar sua qualidade, e a produção da tinta natural, em que foram desenvolvidos vários pigmentos a partir de minerais. Uma das características mais emblemáticas são os padrões geométricos”, diz o ceramista.
Esses padrões, inclusive, são encontrados até em prédios públicos do Pará e na moda. Um dos exemplos é a Cañybo, marca que “veste o Marajó” e usa o bordado como arte. As peças artesanais levam bordado de ponto cruz em desenhos que refletem a arte marajoara, cujos conhecimentos são passados de geração em geração.
A arte local se manifesta em outros cantinhos do território: no município de Salvaterra, que reúne atrativos turísticos culturais e naturais, a vila de Joanes abriga o Ateliê Caroço Arte, do artista plástico Luiz Paulo Jacob. Ele pega madeiras que chegam na praia por meio da maré e as transforma em peças de arte com pinturas e letras decorativas, fazendo um resgate de uma tradição que se perdeu na vila.
Ruínas dos tempos coloniais
Por falar em Salvaterra, o município guarda um dos tesouros arqueológicos mais ricos do estado: as Ruínas de Joanes, que nos levam diretamente aos primeiros contatos dos portugueses com a nossa terra.
Foi na vila de Joanes que os Jesuítas montaram acampamentos e tiveram contato com os povos originários. Aqui ficam as ruínas da antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário, erguida no século XVII, construída por negros e indígenas.
“A importância desse local é o registro, porque a partir daí começa a se contar a história do Marajó como ele é hoje, um Marajó feito de pessoas que são indígenas, que são negras e brancas. Essa história moderna do Marajó começa aqui”, explica Ettiene Angelim, guia de turismo local.
Joanes também é um destino para passar o dia e, junto do passeio histórico, o ideal é emendar um almoço nos restaurantes de peixes frescos que ficam de frente para o mar, como na Praia Grande e na Praia de Joanes. A visita pode terminar com um mergulho refrescante.


