Conheça a imensidão verde do Mosaico de Carajás, santuário natural no Pará

No sudeste do estado, Mosaico é um dos maiores corredores de biodiversidade da Amazônia e reúne seis unidades de conservação, com destaque para a Floresta Nacional de Carajás

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
Daniela Filomeno em trilha na Floresta Nacional de Carajás
Daniela Filomeno em trilha na Floresta Nacional de Carajás, nos arredores de Parauapebas (PA)  • CNN Viagem & Gastronomia
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Os números impressionam: são mais de 800 mil hectares de florestas preservadas, cerca de quatro mil espécies de fauna e flora catalogadas e outras milhares de fontes de água protegidas. Para entendermos melhor essa dimensão, pense em um tapete verde com árvores a perder de vista que equivale a cinco vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Assim é o Mosaico de Carajás.

Situado no sudeste do Pará, é um dos maiores corredores de biodiversidade da Amazônia. Aqui, cada espécie — preservada, protegida e viva — é sinal de que a floresta ainda respira.

A nossa sorte é que parte dessa imensidão nos recebe de braços abertos por meio de diferentes visitas, que mudam nossa percepção do que é conservação e dão um empurrão necessário para espalharmos a máxima de que “mais vale a floresta em pé do que deitada”.

Hoje, a maior lição que Carajás nos dá é que preservação e desenvolvimento aprenderam a caminhar juntos. Terreno fértil para pesquisas, o Mosaico é, acima de tudo, um retrato de comunidades que vivem e convivem com a floresta de maneira simbiótica, além de ser ideal para amantes do ecoturismo.

O Mosaico de Carajás

Protagonista do segundo episódio da temporada especial do CNN Viagem & Gastronomia no Pará, o Mosaico é composto por seis unidades de conservação, abrangendo florestas, reservas e parques nacionais.

Quem cuida de tudo isso de forma legal, ambiental e científica é a Vale, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

As seis unidades de conservação que compõem o mosaico são:

  • Floresta Nacional de Carajás;
  • Reserva Biológica do Tapirapé;
  • Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri;
  • Floresta Nacional do Itacaiúnas;
  • Parque Nacional dos Campos Ferruginosos;
  • Área de Proteção Ambiental do Igarapé Gelado.

Dos 800 mil hectares, 97% são totalmente preservados, sendo que apenas 3% possuem algum trabalho de mineração da companhia, já que estamos em uma das maiores jazidas de minério de ferro do mundo, de suma importância para a economia nacional e internacional.

Floresta Nacional de Carajás

Floresta Nacional de Carajás tem desde trilhas e mirante a BioParque e cavernas • CNN Viagem & Gastronomia
Floresta Nacional de Carajás tem desde trilhas e mirante a BioParque e cavernas • CNN Viagem & Gastronomia

Criada nos anos 1990, a Flona de Carajás é uma das áreas mais atrativas para nós, visitantes. A floresta tem mais de 390 mil hectares, onde são realizadas ações de pesquisa científica, conservação, visitação e proteção. Aqui encontramos desde cachoeira e trilhas até cavernas ferríferas, lagoas pluviais, canoagem nos rios e observação de aves.

Ao lado de Lourival Tyski, analista de meio-ambiente da Vale, percorri a Trilha da Lagoa da Mata, com cerca de um quilômetro, que desemboca na Lagoa da Mata. Aqui, a floresta se abre em um ambiente cheio de luz e vegetação aquática, onde jacarés e patinhos selvagens chamam de lar.

No meio do caminho, conhecemos a floresta de perto. Além de árvores colossais, Lourival me apresenta a jaborandi, espécie que tem uso medicinal. “Em Parauapebas há uma cooperativa que faz a coleta dessa espécie dentro da Flona. Ela é mandada para a Alemanha, onde é produzido um colírio para o tratamento de glaucoma”, diz.

A mirindiba é outra espécie, nativa daqui, usada por comunidades indígenas para comunicação, como um tipo de "telefone amazônico sem fio". Ou seja: há muitos aprendizados em meio a essa diversidade.

“Cada líquen, cada musgo, cada bichinho que vemos na floresta tem um papel fundamental para o desenvolvimento dela. É um esforço muito grande protegê-la. Aqui temos uma riqueza muito grande tanto natural quanto mineral, e a maior contribuição na proteção vem das pesquisas. São elas que nos ajudam a manter a floresta em pé”, afirma o analista.

As visitas à floresta são feitas a partir de programação junto à Cooperativa de Ecoturismo de Carajás (Cooperture), entidade autorizada pelo ICMBio a nos conduzir ao interior da unidade de conservação.

Trilhas por mirante e cavernas

Dentro da Flona de Carajás, o dia pode ser aproveitado de diversas maneiras, com direito a mirante e cavernas. A Trilha Flor de Carajás é uma das mais especiais.

Ela leva esse nome por ser pincelada pela Flor de Carajás, espécie única no mundo que só pode ser encontrada exatamente aqui. No ano passado, foi declarada como símbolo da cidade de Parauapebas, em um esforço para reverter sua extinção. Trata-se de uma planta trepadeira, com uma flor de tonalidades vermelhas intensas e vívidas.

Ela nasce em meio ao solo chamado de canga, típico da região de Carajás. Ele é rico em ferro, pouco profundo e de aspecto duro, abrigando uma vegetação adaptada a condições extremas.

A trilha nos leva até a Gruta da Guarita, uma das quase duas mil cavernas catalogadas da região. Ali dentro, junto de um guia, podemos encontrar bichos raros, como os troglóbios, adaptados a viver no escuro. Quando algum desses bichos é encontrado nas cavernas, elas são elevadas à máxima relevância no âmbito de conservação dentro da Flona.

Para terminar o dia com chave de ouro, a Trilha do Mirante do Vale do Rio Azul, como o nome já diz, termina em um belo mirante. Minha dica é curti-lo justamente no pôr do sol, quando a imensidão verde assume nuances ainda mais mágicas — tudo acompanhado de um silêncio sepulcral. Para mim, é felicidade em seu estado mais puro.

BioParque: educação ambiental e conservação

Também dentro da Flona de Carajás, o BioParque Vale Amazônia pode ser confundido com um zoológico à primeira vista, mas a presunção logo cai por terra. É, na verdade, um centro de espécies ameaçadas, que aqui ganham um lar e são reabilitadas.

O intuito é a preservação de espécies nativas. Por isso, nenhum animal foi capturado ou comprado. Há uma estrutura com hospital veterinário no local, além do setor de reprodução e de quarentena.

“O objetivo é receber o animal, fazer o diagnóstico completo e, quando estiver sadio, reincorporá-lo”, explica Edivaldo Araújo, técnico de meio-ambiente da Vale. A majestosa onça-pintada é uma das espécies ameaçadas de extinção que podemos ver de perto.

BioParque tem viveiro de imersão com mais de 100 aves de 24 espécies • CNN Viagem & Gastronomia
BioParque tem viveiro de imersão com mais de 100 aves de 24 espécies • CNN Viagem & Gastronomia

Outros moradores são os gaviões-reais, a coruja murucututu, o urubu-rei, certos primatas e algumas espécies de répteis. Antes de chegar aqui, vários deles já foram mantidos em cativeiros e maltratados, mas hoje, felizmente, ganharam uma vida digna. Com 30 hectares de mata nativa, o BioParque tem como prioridade manter a floresta do jeito que os animais estão acostumados a viver.

O bacana é que a imersão na biodiversidade amazônica vai além. Um dos pontos altos da visita é o viveiro, que abriga mais de 100 aves de 24 espécies, como a Arara-canindé, Arara-vermelha e o Papagaio-verdadeiro, que circulam livremente em uma área de 800 metros quadrados. Elas se sentem confortáveis para chegar pertinho de nós e nos agraciar com seus sons.

Há também um orquidário com 500 exemplares de orquídeas de 80 espécies e ainda uma coleção com 1.100 exemplares de insetos, a maioria preservada a seco. No final, o gostinho que fica é que, aqui, a vida selvagem não é só acompanhada, mas tratada, estudada e preservada. O BioParque fica aberto de terça a domingo, das 9h às 16h, com entrada gratuita.

Comunidades e projetos

O lado humano também dá as caras nos limites do Mosaico. Ao todo, há mais de 400 projetos em andamento apoiados pela Vale e mais de 140 iniciativas que beneficiam diretamente e indiretamente 60 mil produtores rurais e extrativistas.

Uma das iniciativas que pude conhecer é a Cooperativa Mulheres de Areia, cuja sede fica em Parauapebas, na Vila de Onalício Barros.

“A gente sofria muito. As estradas não prestavam e os alunos não iam para a escola porque o ônibus não passava. Um dia decidi: vou fechar essa estrada. Fui parar até na delegacia por causa disso”, lembra Antônia Neuman Alves da Silva, presidente da cooperativa.

Seu sonho era levar algum meio de renda para as mulheres da comunidade e garantir um futuro melhor. “Então me reuni com elas e cada uma apresentou um produto que sabia fazer. A partir daí, eu disse: vamos usar a areia da região para plantar macaxeira para fazer macarrão.”

E foi assim que surgiu o Mulheres de Areia, que hoje reúne 60 mulheres, algumas trabalhando dentro da cozinha e outras na terra, mexendo com agricultura.

Outro exemplo é a Coopmusa, projeto de agricultura familiar com 52 mulheres que trabalham com horticultura. Depois de acompanhar um dia na vida delas, comprovei o que imaginava: o trabalho digno tirou essas mulheres das agressões que sofriam dentro da própria casa e deu uma renda extra para a estabilidade financeira. E tudo isso em comunhão com a floresta.

 

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