Belém e arredores: conheça ilhas e ingredientes típicos da capital paraense

Territórios insulares têm praias de água doce e projetos que preservam a Amazônia, ao mesmo tempo em que artesanato e comidas típicas se entrelaçam nas vizinhanças do centro

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
Daniela Filomeno experimenta tacacá em Belém
Daniela Filomeno experimenta tacacá no Tacacá da Flávia, referência na comida de rua em Belém  • CNN Viagem & Gastronomia
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Além do seu vibrante centro urbano, Belém é formada por cerca de 42 ilhas, que são o lar de comunidades que carregam tradições próprias. Situadas entre as águas dos rios, as ilhas são tesouros pouco conhecidos dos visitantes, mas que nos oferecem sombra, água fresca e experiências autênticas que podem envolver até açaí e cacau.

Algumas grandes, outras menores, as ilhas nos revelam nuances de cultura, história e de gastronomia. Logo, são um convite para sairmos do óbvio e mergulharmos mais profundamente nas riquezas do Pará.

Mas nem é preciso pegar um barco para conhecer mais de Belém: os próprios arredores do centro nos reservam lojas de chocolate, ateliês de cerâmica, barracas de tacacá e diversos restaurantes, desde os mais "raiz" até os contemporâneos. Foi a partir desta mescla que percorri os limites da capital no quarto episódio da temporada especial do CNN Viagem & Gastronomia no Pará.

Como sede da COP30, Belém entrou no radar mundial. E um dos legados deixados pela cidade é justamente ir além, nos instigando a descobrir suas maravilhas, sejam elas populares ou um pouquinho mais "escondidas".

Almoço típico na Ilha do Combu

Daniela Filomeno na Ilha do Combu, que reúne comunidades ribeirinhas e restaurantes típicos • CNN Viagem & Gastronomia
Daniela Filomeno na Ilha do Combu, que reúne comunidades ribeirinhas e restaurantes típicos • CNN Viagem & Gastronomia

A cerca de 10 minutos de barco da cidade, saindo do centro, a Ilha do Combu é uma das ilhas mais próximas e conhecidas da capital. Mesmo pertinho, ela nos mostra um outro lado fascinante de Belém.

Aqui encontramos igarapés, comunidades ribeirinhas, restaurantes típicos e produção de chocolate artesanal. A ilha caiu nas graças dos viajantes e ganhou até um roteiro turístico a tempo da COP30, a Rota Combú, que estruturou os atrativos da ilha e estimula o ecoturismo e o turismo de base comunitária.

Eu já visitei a ilha em outras ocasiões e fiz um giro por seus deliciosos atrativos. Dessa vez, dei mais um "check": conheci o Porto Combú, restaurante em formato de barco à beira do Rio Guamá que estava há muito tempo na minha lista de desejos.

“A cozinha daqui tem uma série de formações que vem do Pará inteiro. Temos os mexilhões que vêm do Salgado Paraense e o queijo do Marajó, por exemplo”, conta Ana Luna Lopes, sommelière d'A Casa de Luna, que me acompanhou no almoço.

Na visita, experimentei pratos como purê de pupunha com caramelo de tucupi e ragu de pato, assim como filhote acompanhado de arroz de jasmim com coco, farofa, castanhas e vinagrete. O filhote é um peixe que não pode faltar na mesa do paraense, e o tucupi é usado de uma maneira tão versátil quanto suas impressões na boca.

Em resumo, foi um banquete generoso que abriu as portas para outras experiências autênticas ao redor da cidade.

Ilha do Mosqueiro e Cotijuba

Daniela Filomeno na varanda do Chalé Cardoso, na Ilha de Mosqueiro • CNN Viagem & Gastronomia
Daniela Filomeno na varanda do Chalé Cardoso, na Ilha de Mosqueiro • CNN Viagem & Gastronomia

Um pouco mais afastada do centro, a cerca de 70 quilômetros, a Ilha de Mosqueiro é queridinha dos paraenses e ideal para um bate e volta a partir da capital. Ela possui mais de 200 quilômetros quadrados e soma 17 quilômetros de praias de água doce. Entre os atrativos aparecem também trilhas e abundância de área verde.

A ilha era usada como um balneário dos barões da borracha entre o fim do século XIX e o início do XX. Um dos remanescentes mais simbólicos desse passado é o Chalé Cardoso, um casarão de 1923 à beira da Praia do Chapéu Virado. É um dos marcos da Belle Époque belenense e, após restauros, hoje abre suas portas para hospedagem, eventos e casamentos.

Erguido no estilo europeu, o chalé tem portas e janelões largos, piso acima do solo com porão e pé direito alto. São quatro quartos, com direito a móveis de época. O restauro revitalizou suas características mais emblemáticas e deu nova vida a este patrimônio, que ajuda a contar a história do Mosqueiro.

Chalé Cardoso remonta aos anos 1920 na Ilha de Mosqueiro, nos arredores de Belém • CNN Viagem & Gastronomia
Chalé Cardoso remonta aos anos 1920 na Ilha de Mosqueiro, nos arredores de Belém • CNN Viagem & Gastronomia

Partindo dali, uma boa pedida de almoço é na Casa Moqueio, espaço gastronômico próximo da Praia de São Francisco. “Moqueio é uma técnica indígena de conservação e preparo de alimentos”, resume Adriana Feitosa de Lima, chef e proprietária do local.

O moqueio consiste em assar ou defumar uma carne ou peixe em uma grelha feita de varas, chamada de moquém. O processo é lento, já que usa o calor indireto para secar e defumar o alimento. Para o almoço, Adriana me serviu um filhote que ficou quatro horas no fogo. Finalizado na manteiga e mergulhado no creme de tucupi, foi uma ótima maneira de celebrar minha visita por ali.

A Ilha de Cotijuba é outra que pode entrar no roteiro. Partindo do porto do distrito de Icoaraci, a travessia leva cerca de 40 minutos. Depois, somos presenteados com praias de areias claras e de água doce, como da Praia Vai-Quem-Quer, uma das mais famosas.

Além das maravilhas naturais, a ilha também é peça fundamental na atuação da marca Da Tribu, um dos projetos mais interessantes de bioeconomia amazônica. Nascida em 2009 pelas mãos da artesã Kátia Fagundes, a marca cria moda respeitando os saberes tradicionais dos povos da floresta, cruzando conhecimentos indígenas e inovação.

“A gente traz o ciclo da economia circular. Todo processo tem começo, meio e um fim responsável. A argila que sai da ilha, por exemplo, vira um tingimento mineral para coloração dos biomateriais”, explica Tainah Fagundes, CEO da Da Tribu.

A marca tem como base o fio de algodão ecológico banhado em látex, extraído a partir de parcerias com famílias de comunidades ribeirinhas. É uma forma de gerar renda, envolver a comunidade e deixar a floresta em pé.

Descobertas dentro da própria Belém

Cultura e gastronomia também se entrelaçam de maneira única dentro da área continental de Belém. Para quem ama cerâmica, minha dica é a visita ao distrito de Icoaraci, a cerca de 20 quilômetros do centro, conhecido como um importante polo de artesanato. Aqui fica a lojinha Marivaldo Arte Cerâmica, liderada por Marivaldo Costa, que faz arte desde os 15 anos.

“Cerâmica é minha vida. Sou a terceira geração trabalhando com isso. Tudo que tenho hoje foi através dela”, conta o dono, que produz desde cerâmicas tradicionais até as mais modernas, algumas inspiradas nos grafismos marajoaras.

Junto do artesanato, o chocolate é um dos símbolos da cultura local. O Pará, inclusive, é o estado que mais produz cacau no Brasil, com cerca de 150 mil toneladas ao ano, segundo dados do governo estadual. Para provar toda essa história, vale a ida até a Gaudens Chocolate, que mantém um empório e café no bairro do Reduto e uma loja na área de Batista Campos.

“O nome significa conexão com o divino, alegria plena e felicidade em latim. É o que representa o chocolate para mim”, diz Fabio Sicilia, chef chocolatier e fundador da Gaudens. Com chocolates de excelência, a marca angariou prêmios até em Londres, como a medalha de bronze na premiação Academy of Chocolate de 2023 com a barra de chocolate branco com cupuaçu.

Fabio foi um dos pioneiros a colocar cupuaçu, bacuri e tapioca nas barras, agregando valor com ingredientes da cultura paraense.

Por falar em matérias-primas emblemáticas do estado, impossível não falar da mandioca, a "rainha do Brasil", como defende Alex Atala. Ela é a base para muitos pratos tradicionais, como o tacacá, feito de tucupi, o caldo da mandioca-brava.

Para experimentar um tacacá de respeito, nada melhor do que incluir uma barraca de rua no roteiro por Belém. Uma das minhas dicas é o Tacacá da Flávia, negócio é familiar que produz o tucupi do zero. Na cuia, a junção do camarão seco, do jambu e do tucupi revelam a potência do sabor local. É cultura pura e patrimônio do Pará!

Gastronomia típica

Honrando o título de Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, as descobertas gastronômicas em Belém podem ir além. Para começar, a dica é reservar uma refeição na Casa Igá, no bairro de Campina, onde a comida saborosa se junta a um ambiente de design.

Na casa histórica, a chef Oriana Bittar nos serve refeições cheias de alma que podem ir desde a salada de pirarucu com tucupi e azeite aromatizado com chicória até filhote na brasa e bacuri.

Depois de um belo almoço, nada melhor do que um digestivo: minha dica é emendar uma paradinha no Boteco Meu Garoto, a alguns passos da Casa Igá, onde a cachaça de jambu é soberana. O dono Leodoro Porto abriu o bar há mais de 30 anos e criou a cachaça de jambu aproximadamente em 2010. Foi sucesso absoluto e continua como carro-chefe de sua marca. Desde então, outras criações vieram, como misturas com cravinho, jenipapo, cupuaçu e até açaí.

Para um peixe frito e uma cerveja gelada, vá ao Bira's Bar, no Umarizal, onde a dourada é tão saborosa quanto o filhote. Ela é servida com cumari paraense, uma pimenta amarelinha ardida, mas extremamente perfumada. O peixe frito chega à nossa mesa quase como um torresmo, com uma crosta deliciosa por fora e carne molhadinha por dentro.

O dia pode terminar no Santa Chicória, no mesmo bairro, pilotado pelo chef Paulo Anijar. O filhote e o tucupi aparecem mais uma vez no cardápio, mas trabalhados sob diferentes óticas. O tucupi vem junto do guioza, prato icônico do restaurante, que entra em ação para equilibrar gordura e acidez.

De principal, um filhote com um interessante coulis de taperebá é pedida certa. “O filhote tem uma godura muito peculiar. Se partirmos ele no meio, vemos o quanto é suculento e ao mesmo tempo macio, com uma textura especial”, finaliza o chef. Viva Belém!

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