Por que redes de hotéis de luxo estão apostando em iates
The Ritz-Carlton, Four Seasons, Orient Express e Aman estão levando sua experiência exclusiva aos mares

Uma competição amigável está em andamento entre algumas das marcas de hotelaria mais luxuosas do mundo. O prêmio? O domínio dos mares — ou, pelo menos, o direito de se gabar. Após o lançamento do serviço de iates do The Ritz-Carlton em 2022, as bandeiras Four Seasons, Orient Express e Aman estão se preparando para zarpar com suas próprias frotas de luxo.
O Four Seasons tem previsão de lançar o Four Seasons I em março do próximo ano; o primeiro navio da Orient Express, o Corinthian, em junho; e o Amangati, da Aman, na primavera de 2027. O Four Seasons tem mais duas embarcações em construção, a primeira com previsão de entrega para 2027, e a Orient Express tem seu segundo navio previsto para o mesmo ano.
Do maior iate à vela do mundo, com alfaiate a bordo, a chefs estrelados pelo Guia Michelin e suítes gigantescas, não faltam luxos. Mas o maior atrativo para os hóspedes pode ser o logotipo estampado no iate. Em resumo, as empresas apostam no poder de suas marcas para seduzir viajantes ricos a se aventurarem nas águas desconhecidas dos cruzeiros.
Cruzeiros para quem não faz cruzeiros
Enquanto as marcas reúnem equipes e os sommeliers vasculham suas adegas em busca do champanhe perfeito para harmonizar com o casco de um iate, a pergunta que não quer calar é: por que agora?
Os hoteleiros acompanharam o lançamento da The Ritz-Carlton Yacht Collection e tomaram nota. Os três navios do Ritz-Carlton, Evrima, Ilma e Luminara, foram lançados em 2022, 2024 e 2025, respectivamente.
Tina Edmundson, presidente da divisão de luxo da Marriott International, empresa controladora do The Ritz-Carlton, descreveu sua oferta como "um meio-termo entre cruzeiros de luxo e iates particulares — aquele espaço intermediário onde nossos hóspedes têm o melhor dos dois mundos".
O Evrima possui 149 suítes, enquanto os maiores, Ilma e Luminara, com 242 metros (794 pés) de comprimento, têm 224 e 226 suítes, respectivamente. Os dois últimos foram projetados em resposta ao feedback dos hóspedes. Mais piscinas foram um dos pedidos, disse Edmundson.
Desde o seu lançamento, os navios Evrima e Ilma têm navegado principalmente pelo Mediterrâneo e Caribe. “Estamos apresentando cruzeiros a pessoas que nunca os teriam considerado, porque elas têm uma percepção do que é, e não é o que elas querem”, disse Edmundson. “Mas elas querem fazer isso [conosco], porque é o Ritz-Carlton.”
Ela acrescentou que cerca de metade dos hóspedes dos iates da empresa são pessoas que fazem um cruzeiro pela primeira vez, embora muitos sejam hóspedes frequentes dos hotéis The Ritz-Carlton.

Outros hoteleiros também estão buscando aproveitar a fidelidade dos hóspedes. Ben Trodd, CEO da Four Seasons Yachts, afirma que os clientes habituais do Four Seasons “têm uma enorme paixão pela marca e realmente querem explorar outras oportunidades”.
Trodd afirmou que o Four Seasons quer que seus iates transmitam a sensação de "um hotel boutique de luxo", comparável ao Hotel George V em Paris ou ao The Surf Club em Miami. O Four Seasons I, com 207 metros (679 pés), terá 95 suítes, disse ele, com quase 100 configurações diferentes capazes de criar suítes de até quase 930 metros quadrados (quase cinco vezes o tamanho de uma casa média nos Estados Unidos).
Com seu segundo e terceiro iates, o Four Seasons pode optar por embarcações menores, observou Trodd, e a marca não tem planos de expandir rapidamente sua frota a partir daí.
“A escassez é obviamente muito importante quando se trata do verdadeiro segmento de luxo”, disse ele.

O Amangati, da Aman, será menor, com 183 metros de comprimento, e contará com 47 suítes e design de interiores inspirado em um ryokan japonês. Os toques asiáticos se estendem ao spa a bordo, que apresenta um jardim japonês.
Enquanto isso, o Orient Express está resgatando suas raízes com o Corinthian, um iate de estilo Art Déco de 220 metros (722 pés) que evoca a era de ouro das viagens. “O que queríamos fazer era celebrar esse período e tornar as viagens muito glamorosas”, disse a CEO Gilda Perez-Alvarado.
“Ao retrocedermos aos anos 1920, estamos também no processo de recuperação, preservação e conservação das artes e ofícios que existiam naquela época”, acrescentou. Para auxiliar neste processo está o historiador ferroviário interno da empresa, Arthur Mettetal, que possui um doutorado em história do Orient Express.
“Ele é extraordinário”, disse Perez-Alvarado. “Quando estamos analisando algo novo, seja um iate, um destino ou algo relacionado ao nosso hotel, o consultamos.”
Apesar da atenção aos detalhes de época, o iate em si não é uma antiguidade. A embarcação de 54 suítes será o maior iate à vela do mundo, afirma a Orient Express, com três mastros inclináveis que lhe permitirão passar por baixo de pontes e entrar em portos importantes — por exemplo, a Ponte Verrazano-Narrows, que fica entre o Oceano Atlântico e Manhattan, na cidade de Nova York.
À sua disposição
Os iates estão se inclinando para a identidade central da marca. A equipe do Ritz-Carlton segue o mesmo "princípio de empoderamento" que tem em terra, segundo o qual os funcionários podem gastar até US$ 2 mil (cerca de R$ 10.801) para resolver qualquer problema dos hóspedes, sem necessidade de aprovação da gerência.

O Four Seasons irá operar dois "limo tenders" (pequenos barcos de luxo) construídos para transportar os hóspedes de e para o iate, replicando o seu serviço de limusine para hóspedes em terra.
O Corinthian do Orient Express contará com um speakeasy (bar secreto) e jantares de gala com temática de época. E se os hóspedes esquecerem seus trajes formais, não há problema — o iate tem seu próprio alfaiate a bordo. "Podemos inserir muita fantasia na experiência", disse Perez-Alvarado.
A gastronomia dos oito restaurantes e bares do Corinthian está sendo cuidadosamente elaborada pelo chef Yannick Alléno, cujo império gastronômico ostenta 17 estrelas Michelin. Para não ficar para trás, a frota do Four Seasons I e do The Ritz-Carlton (em determinados itinerários) convidará chefs dos restaurantes com estrelas Michelin de suas marcas para servir a bordo suas versões da culinária regional.
Como é comum na hotelaria de ultraluxo, as empresas entram em contato com seus hóspedes com bastante antecedência da viagem — até dois anos no caso do Four Seasons, disse Trodd — para personalizar a experiência a bordo.
“Estamos na era da hiperpersonalização”, disse Perez-Alvarado. Uma conversa inicial facilita um “nível mínimo de serviço”, mas que “nos permite surpreendê-lo e encantá-lo, porque agora sabemos exatamente em que estado de espírito, qual persona ou qual alter ego você estará”.
Os próximos itinerários dos iates da Four Seasons e da Orient Express navegarão pelo Mediterrâneo no verão e pelo Caribe no inverno, seguindo os passos de inúmeras outras companhias de cruzeiro, incluindo os iates do The Ritz-Carlton. Os representantes enfatizaram, porém, que suas embarcações visariam lugares que são joias escondidas e portos de difícil acesso, além dos destinos favoritos de sempre.
Edmundson observou que, com a adição de seu terceiro iate, The Ritz-Carlton está programando itinerários mais ambiciosos para o inverno de 2025 e ao longo de 2026, incluindo o Leste e Sudeste Asiático, o Pacífico Sul, o Alasca e a Escandinávia.
A Aman, por sua vez, está se concentrando em fretamentos privados e eventos para o Amangati (uma opção também oferecida pelo The Ritz-Carlton, Four Seasons e Orient Express).
Expandindo a marca
As marcas de luxo estão buscando explorar suas redes para proporcionar uma experiência perfeita aos hóspedes — e mantê-los dentro de seus serviços.
Por exemplo, Perez-Alvarado disse que um hóspede do Orient Express no próximo verão poderia passar uma noite em Veneza em seu hotel (o reformado Palazzo Donà Giovannelli), depois pegar o trem La Dolce Vita Orient Express rumo ao sul, para Roma, antes de embarcar em seu iate no porto de Civitavecchia para explorar o Mediterrâneo.
O Ritz-Carlton e o Four Seasons também podem encerrar os cruzeiros com estadias em seus hotéis. A possibilidade de embarcar e desembarcar de iates para se hospedar em hotéis em terra é "um pouco mais complicada", disse Edmundson, mas os próximos itinerários do Ritz-Carlton na Ásia podem permitir que os hóspedes façam isso em locais como as Maldivas.
A inclusão de iates em seus portfólios foi caracterizada por representantes como um próximo passo óbvio para as marcas de ultraluxo. Como observou Trodd, “o Four Seasons atua no segmento de jatos particulares há quase 10 anos. [Os iates] foram uma extensão natural disso.”
A quantidade de iates em construção em estaleiros por toda a Europa sugere que as marcas estão otimistas quanto às suas chances de sucesso.
“Outras marcas de hotéis estão vindo logo depois de nós, mas é emocionante para nós sermos os primeiros”, disse Edmundson, do Ritz-Carlton. “Existe um ótimo espírito de equipe e uma competitividade incrível entre todos”, disse Perez-Alvarado. “Todos têm se comportado bem.”
“O potencial é enorme”, acrescentou ela. “Provavelmente é o melhor momento para estar neste setor agora, do ponto de vista das conexões, da curiosidade, da ludicidade, dessa forma multimodal de viajar”, disse. “É um momento realmente fascinante — e o grande vencedor é o hóspede.”



