Slow travel: a nova maneira de pensar o tempo e as viagens

Viagens com menos lotação, hobbies, literatura e a busca por tempo de qualidade ajudam a desenhar um turismo cada vez mais guiado por propósitos

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Todo ano é a mesma coisa: pesquisas, relatórios e índices nos apontam uma série de tendências e previsões sobre o que está ou estará em alta no universo das viagens. Qual o destino da vez? Viajaremos só para dormir? Qual país é vendido como uma "descoberta", mas que já virou sensação nas redes sociais?

Os dados ajudam a enxergar o que está mudando na maneira como pesquisamos e planejamos nossas viagens. Funcionam mais como um norte, uma direção, uma intenção de comportamento. As tendências revelam sobre como queremos viajar e o que esperamos levar de volta na bagagem. Mas, afinal, o que de fato está se concretizando em 2026?

Para além dos números, tenho um "feeling" construído a partir das minhas próprias vivências e das conversas com dezenas de amigos e profissionais do setor. Algumas tendências anunciadas como novidade já fazem parte da maneira como viajamos e há aquelas ainda mais específicas, que não se traduzem em um comportamento massivo, mas que funcionam como inspirações dentro de uma jornada maior.

O "slow travel", por exemplo, não é exatamente um conceito novo, mas ganha uma importância fortíssima em tempos em que as telas dominaram o ritmo dos nossos pensamentos e ações. Vivemos acelerados, conectados o tempo todo, pulando de uma informação para outra, o que pode desencadear um efeito contrário: o corpo e a mente pedem, quase imploram, para desacelerar.

O que quero dizer é que não se trata de levar o "slow travel" ao pé da letra, como se fosse preciso viajar devagar o tempo todo. A questão está em passar mais tempo em um mesmo lugar e nos permitir viver o percurso com mais profundidade.

Isso pode acontecer tanto em uma estadia mais longa em um mesmo local quanto em uma jornada por vários destinos, de carro, trem ou cruzeiro fluvial, desde que o deslocamento não seja apenas uma sequência de pontos no mapa, mas uma oportunidade de conhecer melhor a cultura, a paisagem e a vida local.

Menos é mais? Depende do nosso interesse

Algumas perguntas que recebo com frequência são: como conhecer tudo em tão pouco tempo? Minha resposta é que talvez não precisemos conhecer tudo de uma vez. Uma viagem não precisa se transformar em uma maratona para dar conta de todos os endereços, de todas as atrações "obrigatórias" e de todos os restaurantes que aparecem nas listas.

Mesmo quando tenho pouco tempo, tento escolher onde quero estar e, principalmente, entender por que aquele lugar entrou no meu roteiro. Isso significa fazer escolhas e aceitar que alguns lugares ficarão para uma próxima viagem. Retribuo as perguntas: você prefere passar por uma cidade apenas para dizer que esteve lá ou realmente guardar alguma coisa dela?

Mesmo que se aprofundar na história de um lugar não seja a sua praia, há outras maneiras de entendê-lo. A gastronomia, como já escrevi tantas vezes por aqui, é uma delas, assim como a arquitetura, a moda, a arte e até os pequenos símbolos que aparecem pelo caminho. São diferentes portas de entrada para compreender uma cultura e sentir que, ainda que por alguns dias, fizemos parte daquele cenário.

Neste ano, tenho tentado viajar com um pouco mais de calma, mesmo quando o tempo é curto. Os sinais de que estamos procurando colocar o pé no freio aparecem nas pesquisas. No "Travel Trends Report 2025", da rede de hotéis Hilton, um em cada quatro viajantes a lazer afirmou que pretendia conhecer o mundo dentro do conceito de "slow travel", entendido pela empresa como "permanecer mais tempo em um destino e vivenciá-lo como um local". O levantamento ouviu 13 mil adultos de 13 países, incluindo o Brasil.

Já no "What the Future Report 2026", da Kayak, 67% dos entrevistados disseram que relaxamento e um "reset mental" estão entre suas prioridades nas viagens, enquanto 46% afirmam que viajar em um ritmo mais lento ajuda a arejar a cabeça. Para 29%, a ideia é priorizar qualidade em vez de quantidade. A pesquisa ouviu pouco mais de duas mil pessoas das gerações Z e Millennial no Canadá que haviam viajado nos dois anos anteriores.

Dar espaço para a viagem acontecer

Não acho que isso signifique necessariamente trocar cinco cidades em sete dias por uma semana inteira olhando para a mesma paisagem. Cada um tem uma disposição, um desejo e uma maneira de viajar. O que tenho percebido é que há uma diferença entre conhecer um destino e, de fato, vivê-lo, mesmo que rapidamente.

Para mim, viajar bem hoje é voltar diferente, ainda que seja só um pouquinho. É o que cada lugar provoca na nossa maneira de olhar o mundo, uma mudança às vezes sutil, que nem sempre sabemos explicar, mas que percebemos ter acrescentado alguma coisa ao nosso repertório.

Conversando com colegas e acompanhando o que circula nas redes sociais, tenho notado que há roteiros impecáveis no papel, mas que deixam uma sensação de que faltou algo. Eles incluem hotéis badalados, restaurantes estrelados e lugares que já chegamos conhecendo de tanto vê-los no feed, mas nem sempre deixam espaço para uma conexão genuinamente local, sem ter sido indicado pelo algoritmo.

A palavra "experiência" virou uma espécie de mantra no turismo, o que pode ser uma arapuca, já que a palavra também pode ser lida como sinônimo de agenda lotada. São passeios obrigatórios, os lugares "imperdíveis", tudo registrado e postado, como se fosse preciso preencher cada hora para provar que a viagem valeu a pena.

É nos intervalos que, muitas vezes, surgem as melhores surpresas, com momentos que não cabem na foto ou em na lista do que fazer. É aquele restaurante que os moradores frequentam, aquela capela escondida ou uma descoberta espontânea fora do roteiro que muda a forma como voltamos para a casa. A contemplação, o silêncio, a vista de uma janela, o café tomado sem pressa ou uma conversa inesperada também fazem a viagem acontecer.

Quando o caminho também é o destino

Curiosamente, uma das perguntas que mais respondo é: "Quantos países você conhece?" Já ouvi também, com certa estranheza, por que acabo retornando a alguns destinos. A Itália entra nessa lista, às vezes mais de uma vez no mesmo ano. Minha resposta é simples: se pudesse, iria ainda mais. As cidades que visito nunca são as mesmas, pois o meu olhar nunca é igual.

Posso retornar dezenas de vezes a um destino e, ainda assim, encontrar algo que não havia percebido antes. Isso porque minhas viagens têm propósito, mesmo que esse propósito seja aproveitar o ócio.

Viagens de trem são outros exemplos interessantes que podem misturar a passagem por vários locais em poucos dias. Elas, porém, não seguem a lógica de check list, já que o percurso não é apenas o meio para chegar a algum lugar, mas parte essencial da jornada. Nos trens de luxo, a paisagem, a gastronomia e o serviço fazem com que o caminho seja o próprio destino.

Para a 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia, embarquei em uma jornada de trem de 22 dias que percorreu 14 cidades de dez países, incluindo Suíça, Áustria, Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Sérvia, Kosovo, Macedônia do Norte, Bulgária e Turquia. Sai de Zurique em direção a Istambul por uma rota inspirada no antigo Expresso do Oriente, atravessando os Bálcãs e territórios marcados por impérios, guerras e fronteiras redesenhadas.

Seis daqueles países eram novidades para mim, mas, não era a quantidade de carimbos no passaporte que me atraía. Havia um intuito maior: entender como a história, a cultura e a geopolítica ajudaram a moldar aqueles lugares e como tudo isso ainda se manifesta nas ruas, na gastronomia, nas pessoas e na vida contemporânea.

O trem era o fio condutor de uma imersão cultural. Ao longo do caminho, especialistas nos ajudavam a compreender os contextos por trás de cada destino. Foi como ter aulas de história in loco, embaladas em uma viagem de conhecimento em que cada cidade, paisagem, refeição e conversa acrescentava uma camada àquilo que estava vendo.

Em outra viagem recente, dessa vez para a 13ª temporada da CNN Viagem & Gastronomia, percorri cerca de 600 km pelo Danúbio, entre Budapeste e Passau, atravessando cinco países da Europa Central: Hungria, Eslováquia, Áustria, República Tcheca e Alemanha. Pelo caminho, passei por capitais como Bratislava e Viena e por pequenos vilarejos e cidades medievais, como Dürnstein, Melk, Grein e Český Krumlov.

O propósito era experimentar uma outra forma de conhecer a região, tendo o rio como trajeto, a partir dele, mergulhar em diferentes capítulos da história, da cultura e da gastronomia europeias.

Faria esses roteiros novamente? Sem dúvida. Ficaria mais tempo em alguns lugares? Também. Não para cumprir mais itens de uma lista, mas para observar melhor e ter tempo de viver com mais profundidade aquilo que cada destino tinha para mostrar. Aqui está a diferença entre somente passar por vários lugares e realmente vivê-los.

Da meia-estação aos livros: outras tendências

Além do "slow travel", outras tendências que pipocaram em 2026 merecem ser pontuadas. A vontade de escapar das multidões, quebrar a rotina e transformar interesses pessoais, hobbies e paixões em motivos para viajar estão em alta. Mesmo que as pesquisas falem sobre intenções de busca, precisamos prestar atenção quando diferentes fontes começam a apontar para uma mesma direção

Na pesquisa de sustentabilidade de 2026 da Booking.com, 43% dos viajantes globais disseram que pretendem evitar destinos superlotados, enquanto 42% planejam viajar fora da alta temporada e 25% procuram lugares com temperaturas mais amenas. O levantamento ouviu 32,5 mil viajantes de 35 países e territórios, incluindo mil brasileiros, em janeiro de 2026.

Em outras palavras, a "shoulder season", ou a "meia-estação", que antes era uma espécie de segredo para quem queria economizar e fugir das filas, é também uma forma de experimentar melhor um lugar.

Também entra em cena a busca por cidades menores, regiões rurais e destinos que são como um desvio da rota principal. Não significa deixar de querer conhecer Paris, Roma ou Barcelona. Pode significar escolher outra época, ficar mais tempo ou combinar a viagem com lugares próximos e menos disputados. A Expedia, por exemplo, colocou entre suas tendências de 2026 as chamadas "Slow Down Towns" e "Farm Charm", esta última associada ao "slow travel" e à busca por natureza.

Essa mudança também aparece na valorização de viagens curtas para destinos próximos, especialmente fora dos grandes centros. Feriados e fins de semana prolongados se tornam oportunidades para conhecer lugares a poucas horas de casa. No Airbnb, as buscas por viagens em família dentro do Brasil cresceram 40% entre setembro e novembro, enquanto a procura por destinos fora dos grandes centros aumentou 31%. Relaxar e quebrar a rotina são as principais motivações.

Em 2026, uma das tendências mais interessantes e menos óbvias apontadas pela Expedia são as viagens que colocam livros, descanso e tempo de qualidade no foco das atenções. Mas o turismo literário não precisa se resumir a um retiro, já que pode funcionar quase como o "set-jetting", só que guiado pelos livros. Podemos seguir os passos de Hemingway em Paris, percorrer Dublin pelas histórias de James Joyce ou enxergar Cartagena a partir do universo de Gabriel García Márquez, algo que já fiz, inclusive, unindo literatura e gastronomia.

Pode também ser uma porta de entrada para destinos que ainda não conhecíamos tão bem. Em 2026, Rabat foi eleita pela Unesco Capital Mundial do Livro, reconhecimento que joga luz sobre a cena literária e cultural da capital marroquina.

Hobbies e paixões pessoais

Também vejo cada vez mais viagens organizadas a partir de paixões pessoais. O esporte ficou evidente em 2026, ano marcado pelos Jogos Olímpicos de Inverno na Itália, pela Copa do Mundo na América do Norte e por uma verdadeira profusão de corridas de rua — quem nunca se deparou com a foto de um amigo cruzando a linha de chegada que atire a primeira pedra. Até o US Open, um dos torneios de tênis mais comentados do mundo, virou assunto recorrente no começo de setembro.

Mas não é preciso esperar por um grande evento esportivo para transformar uma paixão em motivo de viagem. Pode ser pedalar por uma região, surfar com colegas ou mergulhar em um destino propício.

O movimento aparece também fora do turismo propriamente dito. Um estudo recente do Bank of America Institute mostrou que os gastos com hobbies nos EUA cresceram 7,9% em agosto desse ano, enquanto o número de transações avançou 3,4%. O dado não fala diretamente de viagens, mas revela que os indivíduos continuam destinando dinheiro e tempo àquilo que lhes dá prazer e identidade. Entre os mais jovens, isso inclui desde jogos e atividades manuais até experiências ao ar livre.

De diferentes maneiras, as tendências falam sobre como estamos buscando eleger um destino ou planejar uma viagem pelos seus motivos, e não somente pelo local.

O próprio Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo 2026, do Fórum Econômico Mundial, ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. O estudo mostra que o crescimento do turismo não significa necessariamente mais benefícios para os destinos e aponta que pressões como a concentração de visitantes, a superlotação e eventos climáticos já fazem parte dos desafios do setor. Para um futuro não tão distante, a atração de viajantes também passa pela questão de saber como distribuir esses fluxos e tornar o crescimento mais sustentável.

Temos cada vez mais ferramentas para descobrir destinos e montar roteiros, mas nenhuma delas responde uma pergunta essencial: por que quero estar aqui? Em vez de pensar quantos lugares ainda preciso conhecer, penso no que quero encontrar quando chegar e no que quero levar comigo quando voltar. Enquanto descobrimos o que veio para ficar em 2026, já podemos começar a nos perguntar o que 2027 nos reserva.

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