O que é glamping? Conheça tipo de hospedagem que une conforto e natureza

Tendência entre viajantes, modalidade ganha força entre quem busca imersão na natureza sem abrir mão do conforto e das comodidades de um hotel

Mirella Cordeiro, do Viagem & Gastronomia
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Desconectar-se da rotina acelerada e estar em contato com a natureza estão entre os principais desejos dos viajantes de hoje. É nesse cenário que ganham espaço os glampings, hospedagens que proporcionam a sensação de acampar sem abrir mão do conforto e das comodidades de um hotel.

Dados da Grand View Research mostram que o mercado global de glamping deve chegar a US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 21,6 bilhões) em 2026, um crescimento de 10,5% em comparação com o ano passado. A consultoria também estima que a modalidade de hospedagem deve crescer a uma taxa de 9,5% de 2026 a 2033.

Só no Brasil, o mercado atingiu US$ 68 milhões (cerca de R$ 352,3 milhões) no ano passado, de acordo com o Imarc Group. A previsão é que o nicho de mercado chegue a US$ 175,9 milhões (cerca de R$ 911,3 milhões) em 2034, um crescimento de 158% em menos de uma década.

Especialistas argumentam que o aumento da procura por glamping está relacionado a uma mudança de comportamento dos viajantes pós-pandemia e a uma nova visão sobre o luxo.

Ao CNN Viagem & Gastronomia, Júlio Araújo Carneiro da Cunha, professor da área de Turismo da USP (Universidade de São Paulo) e da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), explica que esta modalidade de hospedagem já existia, mas foi acelerada com a pandemia de Covid-19.

"Muitas pessoas se voltaram para entender mais a si mesmas. O glamping é uma alternativa para quem busca calmaria, escapismo e reconexão interna. Esse perfil de comportamento agora está mais presente", afirma.

Melissa Fernandes, diretora de atendimento da Teresa Perez, agência de viagens de alto padrão, comenta que a tendência está ligada a uma mudança na forma como o viajante desse segmento entende o luxo. "Hoje, luxo não significa apenas um hotel cinco estrelas, mas também ter acesso a lugares únicos e exclusivos, tempo de qualidade e experiências que proporcionem conexão com o destino", diz.

Glamping: a origem da palavra

A palavra resulta da junção de "glam" com "camping", que, na tradução literal, seria acampamento glamoroso. Apesar disso, Cunha ressalta que o foco do glamping não é glamour, mas o "conforto em meio à natureza".

É um conceito que vem da ideia de ecoturismo, de quem faz o camping tradicional com trilha e banho de rio, mas que renova o significado para quem gosta de estar na natureza sem ser rústico demais
Júlio Araújo Carneiro da Cunha

Melissa reforça que o glamping consegue unir dois desejos que, até pouco tempo atrás, pareciam opostos: a imersão na natureza e o conforto. "Hoje em dia é possível dormir em uma tenda ou cabana no meio da natureza, mas ainda contar com o conforto que o viajante de alto padrão está acostumado a encontrar nos hotéis tradicionais."

O conceito dialoga com algumas das principais tendências do turismo atual, como relatado na Revista Tendências do Turismo 2026, do Ministério do Turismo. No turismo de saúde e bem-estar, por exemplo, as viagens de caráter recreativo passam a ser encaradas como experiências transformadoras. Na busca por conexão com a natureza, por sua vez, o viajante procura desacelerar o ritmo frenético da vida urbana e encontrar espaço para solitude e autodescoberta.

Glamping x hotel de natureza

Por oferecer comodidades e serviços aos hóspedes, o glamping pode ser confundido com hotéis de natureza ou até mesmo com resorts.

Entretanto, vale destacar que uma característica essencial do glamping, que o diferencia de outras modalidades de hospedagem, é a conexão integral com a natureza. "O glamping não é baseado na infraestrutura, mas sobretudo na imersão emocional que o indivíduo tem ligada à natureza. Isso não é obrigatório em um hotel", comenta o professor Cunha.

Outro fator é a própria estrutura da hospedagem. O glamping mantém a sensação de estar acampado, com acomodações distribuídas em tendas, domos, barracas ou estruturas semelhantes. Já o hotel costuma seguir um formato mais tradicional, com quartos e suítes em um mesmo edifício.

O Brasil diante da tendência

Alguns empreendimentos brasileiros apostam na tendência de glamping, como o Hidden Treasure - Glamping Chapada dos Veadeiros, que a apresentadora Daniela Filomeno visitou para a 6ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia.

Praticamente no quintal do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o espaço tem quatro quartos, também chamados de pods, que são acessados por um caminho suspenso de madeira. Isso faz com que as pessoas não pisem no chão, com o objetivo de atenuar a ação humana no Cerrado.

As acomodações comportam até três pessoas e, em uma delas, há até banheira. O proprietário e concierge do glamping, Duncan Egger Moellwald, desenha passeios sob medida para os hóspedes.

Outra opção no Brasil é o Hotel Parador, em Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, que foi inspirado nos lodges africanos. Próxima aos parques nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral, a hospedagem oferece cerca de 20 opções de acomodações, divididas em categorias como casulos, bangalôs, barracas, suítes e chalé.

Algumas das atividades proporcionadas pelo glamping são churrasco campeiro, típico da cultura gaúcha, trilhas, caça aos cogumelos e observação de estrelas guiada por especialista em astronomia.

Em São Bento do Sapucaí, em São Paulo, o Nomad Place conta com sete cabanas construídas em quatro designs diferentes aos pés da Serra da Mantiqueira. A 1.670 metros de altitude, todas as acomodações foram projetadas para favorecer o distanciamento da vida urbana e a conexão com a natureza.

A hospedagem fica dentro de uma propriedade de 50 mil metros quadrados, a cerca de 190 km de São Paulo e a 18 km do centro de Campos do Jordão. Os hóspedes podem aproveitar trilhas, passeios a cavalo e de quadriciclo proporcionados por parceiros.

Outro exemplo no Brasil é o Korubo, que proporciona hospedagem em tendas em meio ao Jalapão, no Tocantins. O pacote do Korubo Safari Jalapão inclui transfer do aeroporto, pernoites em Palmas, estadia no glamping e passeios. As experiências incluem visitas ao Cânion do Sussuapara, dunas, chapadões, fervedouros, cachoeiras e rios de águas cristalinas.

O Korubo tem outra unidade nos mesmos moldes em Serras Gerais, no sudeste de Tocantins. Os passeios incluem parada na Lagoa do Japonês e na Cidade das Pedras.

Essas são apenas algumas propostas de glamping em diferentes regiões do país, mas o Brasil ainda tem um enorme potencial, tanto pela sua dimensão territorial quanto pela diversidade de paisagens naturais, comenta Cunha. Ainda é possível investir em glampings de praia, de montanha e de floresta, por exemplo.

"É necessário ter uma infraestrutura que permita que o indivíduo tenha conforto, calmaria e imersão para aproveitar a natureza", reforça o professor. "O que [os empreendimentos] têm que pensar é: como criar uma boa memória? Como surpreender o turista? Como ser autêntico? Como ajudar a pessoa que está imersa a se transformar enquanto indivíduo?", indaga.

Experiências no exterior

Fora do Brasil, uma grande variedade de hospedagens cumpre bem a proposta de glamping. Um exemplo inaugurado no começo do ano é o Unai Atacama Luxury Tents, a cerca de 5 km do centro de San Pedro de Atacama, porta de entrada e base para descobertas pelo Atacama, destino querido pelos brasileiros.

A hospedagem aposta em tendas de luxo de 40 e 60 metros quadrados com vista para o vulcão Licancabur. Todas as acomodações contam com terraço privativo e banheira. Entre as experiências, há massagens ao ar livre, ioga, terapia do som e acupuntura, além de passeios de bicicletas elétricas e guia para conhecer salares, lagoas e formações rochosas emblemáticas da região.

Já o Under Canvas West Yellowstone, nas redondezas do Parque Nacional de Yellowstone, no estado de Montana, nos EUA, é outra possibilidade para quem busca isolamento e conexão com a natureza. Recomendado pelo Guia Michelin, o acampamento apresenta suítes em barracas que oferecem o conforto de um hotel, com banheiro, camas king-size e fogões a lenha. Além disso, o glamping proporciona sessões de ioga pela manhã e música ao vivo à noite ao redor da fogueira.

Fora da rota tradicional, o The Ritz-Carlton Ras Al Khaimah, Al Wadi Desert, situado no emirado de Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, tem algumas villas com design inspirado na cultura beduína, com tendas luxuosas dotadas de piscinas privativas e vistas para o deserto, esbarrando no conceito de glamping.

Também recomendado pelo Guia Michelin, o hotel, que fica a cerca de 113 km de carro de Dubai, oferece experiências que vão desde aulas de arco e flecha até passeios personalizados no deserto.

Glamping levado ao extremo

Para quem busca uma experiência ainda mais exclusiva e fora da curva, o White Desert, na Antártida, prova que o glamping também pode estar nos ambientes mais inóspitos e inesperados do mundo. Ao todo, há três acampamentos com seis suítes e diferentes propostas: o Whichaway, com módulos que se integram ao terreno rochoso; o Echo Base, inspirado nas experiências dos astronautas fora da Terra; e o Explorer Camp, de estilo alpino.

Durante a estadia, o White Desert disponibiliza guias, médicos, fisioterapeutas e chefs. Para chegar até a hospedagem, é necessário pegar um voo privado de 5h30 que parte da Cidade do Cabo, na África do Sul, para pousar em uma pista de gelo em meio à Antártida.

A jornada de luxo e exclusividade no continente mais remoto da Terra custa a partir de US$ 45 mil (cerca de R$ 233 mil) para uma expedição de uma semana e chega a US$ 115.500 (cerca de R$ 598 mil) para viagens com visita a uma colônia de pinguins-imperadores e passeios até rios de água glacial.

 

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