Cinco países, um rio: como é viajar de cruzeiro pelo Danúbio
Da grandiosidade de Budapeste aos vilarejos medievais da Áustria e da República Tcheca, uma jornada fluvial revela diferentes capítulos da Europa Central com muito conforto e gastronomia típica

Viajar pelo rio Danúbio é atravessar uma paisagem da Europa Central que nos surpreende a cada curva. Mais do que um simples curso d'água, o Danúbio é um fio condutor de uma história muito maior. Em poucos dias, podemos atravessar 600 quilômetros e cinco países, que se conectam por um mesmo caminho: Hungria, Eslováquia, Áustria, República Tcheca e Alemanha.
No percurso, capitais que foram palco de grandes impérios dividem espaço com vilarejos charmosos. Construções medievais preservadas e cidades que carregam as marcas das transformações políticas e sociais do continente esbanjam beleza e séculos de história ao nosso deleite.
A bordo do AmaSonata, cruzeiro fluvial da AmaWaterways, a 13ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia chegou ao fim. Depois de ter me encantado com o passado e o presente de Budapeste, além de percorrido o interior da Hungria em busca dos melhores vinhos do país, parti em uma expedição luxuosa pelo Danúbio a fim de me deliciar ainda mais com outros cenários e sabores.
Em poucas palavras, esse tipo de travessia, em que deslizamos suavemente pelas águas e desembarcamos literalmente no coração das cidades, combina cultura, história e gastronomia. Realizei a minha jornada no verão europeu, com partida em Budapeste, na Hungria, e ponto final em Passau, na Alemanha.
O Danúbio é apenas uma das possibilidades da AmaWaterways: novas travessias já estão no horizonte pelos próximos meses, com itinerários semelhantes por outras cidades e diferentes rios europeus, ampliando as possibilidades de descobrirmos o continente por suas águas.
Início da travessia
O Danúbio se estende por mais de 2.800 quilômetros e atravessa o coração da Europa, desaguando no Mar Negro. Foi um personagem central ao longo da história, servindo como fronteira do Império Romano, conectando o comércio da Europa Central e Oriental na Idade Média, e sendo vital para os Impérios Austro-Húngaro e o Otomano.
Partindo de Budapeste, podemos começar a entender todo esse peso. Na navegação noturna, passamos sob a Ponte das Correntes, literalmente debaixo da história, enquanto o Parlamento, todo iluminado, se impunha às margens do Danúbio. Foi uma daquelas imagens que ficam na memória e que ainda carrego com apreço. Mas Budapeste vai além disso: confira minhas colunas anteriores para um panorama completo do que fazer e onde comer na capital húngara.
A primeira da jornada parada foi Bratislava, capital da Eslováquia e a única no mundo que faz fronteira terrestre com dois países, a Hungria e a Áustria. É uma cidade de contrastes: de um lado, construções que remetem ao período soviético; do outro, ruas estreitas e edifícios barrocos e góticos. Andar por aqui é se deparar com algumas marcas de sua história política recente, marcada pelo socialismo e por um período de forte controle sobre a população.
Durante séculos, a região fez parte do Reino da Hungria, depois integrou a Tchecoslováquia e viveu sob um regime socialista, até surgirem a redemocratização e a independência do país, em 1993. Depois de um city tour breve, terminei o dia na Sladovňa, endereço ligado à tradição cervejeira instalado em um edifício com mais de um século.
O Danúbio então me levou à Áustria, com Viena no horizonte. A capital foi protegida por muralhas desde a Idade Média, até que, em 1857, começaram a ser demolidas para dar lugar a uma Viena mais moderna.
Um dos primeiros grandes símbolos dessa nova era foi a Ópera, inaugurada em 1869, construção que também revela a enorme importância que o Império Austro-Húngaro dava à música clássica. Hoje, a cidade mantém essa tradição viva, com cerca de 300 óperas e apresentações por ano, praticamente uma programação para cada noite.

Mas Viena também pode começar de uma maneira muito mais simples: com uma salsicha no café da manhã, comprada em uma das tradicionais barraquinhas de rua espalhadas pela cidade. Já o Museu de História da Arte é uma parada obrigatória para quem quer compreender a dimensão cultural da capital austríaca, um dos mais antigos museus do gênero no mundo, aberto em 1891.
E há ainda os parques e espaços públicos que nos convidam a desacelerar. Viena é uma cidade que merece ser degustada com muita calma, em um roteiro mais contemplativo e cultural. Nesta viagem, tive apenas um aperitivo do que ela oferece, atiçando a minha vontade de voltar mais vezes.
Vilarejos na Áustria e adiante
De Viena seguimos para Dürnstein, também na Áustria, um pequeno vilarejo construído sobre uma formação rochosa cujo nome remete à ideia de "rocha seca". As casas renascentistas, as ruas pequenas e as vistas para o rio criam uma paisagem de conto de fadas.
Aqui fica um dos mosteiros mais famosos da região, o Stift Dürnstein, às margens do Danúbio. Seu principal cartão-postal é a torre, que consiste em um campanário em tons de azul-claro e branco que se destaca na paisagem. É o tipo de parada que nos mostra como, em uma viagem fluvial, os menores lugares guardam algumas das maiores surpresas.
De Dürnstein, segui para Melk, ainda no interior da Áustria, em um passeio de um dia que nos levou à Abadia de Melk. O lugar é uma verdadeira viagem no tempo, somando mais de mil anos de história, e uma das joias mais impressionantes de todo o percurso. A biblioteca da abadia é uma das mais lindas do mundo, onde os afrescos de Paul Troger dialogam com os livros e a arquitetura. Há ainda portas secretas que ajudam a movimentar os livros e permitem a entrada de luz, já que velas são proibidas.

Participar das missas e acompanhar a rotina de oração também foi uma forma de me aproximar desse universo. Foi um baita um privilégio estar ali.
De Melk, voltei ao navio e parti em direção a Grein, um vilarejo pequeno em uma das curvas do Danúbio, não muito longe da República Tcheca. A cidade guarda um dos castelos mais bonitos da Áustria e também o Old Theatre of Grein, um dos teatros mais antigos ainda em funcionamento no continente, de 1791 e com apenas 130 lugares.

Há histórias curiosas por todos os lados, inclusive sobre como homens e mulheres tinham lugares cativos no teatro. E há também pessoas que ajudam a manter vivas essas narrativas. Grein abriga um dos cafés mais antigos do país, o Kaffeesiederei Blumensträußl, chamado também de Kablu, ligado à mesma família há cerca de 150 anos. A casa tem quase quatro séculos e conserva um teto de madeira de 1642.
Depos, a parada aconteceu em Linz, cujo roteiro tem a opção de um bate e volta até Český Krumlov, uma das joias medievais da República Tcheca. A cidade parece ter parado no tempo, com seu centro histórico intacto, ruas estreitas e construções que acompanham as curvas do rio Vltava.
A cidade de apenas 15 mil habitantes tem um centrinho histórico tombado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco e um castelo entre os mais importantes de todo o continetne. O Castelo de Český Krumlov é também um dos maiores da Europa Central, composto por 41 construções palacianas e um jardim ornamental de 12 hectares.

E, claro, há gastronomia de sobra pelos restaurantes locais: batatas com páprica, porco, schnitzel e cerveja formam um verdadeiro banquete que traduz, à mesa, parte da cultura da região.
Última parada: Alemanha
A quinta e última fronteira dessa viagem foi a Alemanha, na cidade de Passau. Fundada pelos celtas e posteriormente ocupada pelos romanos, sua localização na confluência do Danúbio, do rio Inn e do rio Ilz teve importância estratégica para a segurança do território durante a Idade Média.
No centrinho, até uma fonte de cerveja ajuda a contar a história local: ligada a um restaurante da praça, essa "fonte da felicidade", como batizei, se tornou ponto de celebrações, grandes festas e casamentos.

No alto da colina, a fortaleza de Veste Oberhaus reúne diferentes períodos arquitetônicos, com partes medievais, góticas e barrocas, como um quebra-cabeça construído ao longo de séculos.
Ao mesmo tempo, as águas dos rios podem fazer a cidade conviver com as cheias pelo menos uma vez por ano. O calçadão pode ser tomado pela água, e há registros de enchentes desde 1501. É um lembrete de que o Danúbio e seus afluentes ajudaram a determinar onde as cidades nasceram, como cresceram e até os desafios que enfrentam hoje.
Comodidades do navio: como é um cruzeiro fluvial
Imagine percorrer todo esse roteiro com direito a paradinhas estratégicas, imersão cultural e refeições embaladas por música clássica. Esse é um gostinho do que vivi a bordo do AmaSonata, cruzeiro da AmaWaterways pelo Rio Danúbio.
A embarcação tem 135 metros de comprimento e acomoda 164 passageiros em 81 cabines. Ao todo, são 51 tripulantes. Esses números são semelhantes às outras embarcações da empresa e nos dão a noção de exclusividade e calmaria que reinam pela travessia.
Além do tamanho e da personalização, um dos diferenciais das viagens fluviais é a proposta mais tranquila, sem a sensação de balanço dos grandes navios e do fluxo intenso de passageiros. O foco está na história, na cultura e nas cidades charmosas. O que mais gosto nas viagens fluviais é a possibilidade de chegar praticamente ao coração dos destinos. O navio para perto das cidades, descemos e, muitas vezes, seguimos tudo a pé.
Outro diferencial é que as cabines são amplas, com direito a varanda e banheiros espaçosos com box de vidro. Dois restaurantes e bares dão conta de nos satisfazer: todas as refeições estão inclusas, assim como vinhos e cervejas no almoço e no jantar. Ao longo do dia há chá da tarde, happy hour e snacks. O cardápio do navio é adaptado aos países por onde passamos, criando uma extensão da experiência que acontece em terra firme.
A cobertura acomoda um deque externo com piscina aquecida, pista de caminhada e estação de bikes. Em terra firme, os passeios também estão inclusos, todos com guias locais. Há algo para todos os gostos: uma caminhada mais robusta, passeios de bike às margens do rio, city tour, visitas a castelos e degustações.
As viagens pelo Danúbio duram geralmente sete dias. Recomendo deixar a jornada para perto do verão, quando os dias são mais longos e os encontros e passeios ao ar livre são mais proveitosos.


