Uma viagem por gêiseres e placas tectônicas do Círculo Dourado, rota cênica na Islândia

Trajeto de 300 km pelo Sul do país tem cachoeira cinematográfica, mergulho entre continentes, cratera vulcânica e ainda uma explosão literal da natureza em incrível gêiser

Daniela Filomeno na cachoeira Gullfoss, uma das mais famosas da Islândia e parte do Círculo Dourado
Daniela Filomeno na cachoeira Gullfoss, uma das mais famosas da Islândia e parte do Círculo Dourado CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia Círculo Dourado, Islândia

Mesmo pequena, a Islândia possui uma diversidade de paisagens e contrastes geológicos abundantes. Tal cenário é melhor apreciado no Sul, onde a atividade vulcânica única do país faz com que encontremos pelo caminho um vulcão ativo em uma geleira, praia de areia preta e cachoeiras cenográficas.

Porém os nossos deslumbramentos não param por aí. Para a quinta temporada do CNN Viagem & Gastronomia, percorremos ainda uma rota dentre as mais famosas do país: o Círculo Dourado, ou Golden Circle, em inglês.

É daqueles roteiros com paradinhas encantadoras que deixam qualquer olhar hipnotizado.

De Reykjavik para o Círculo Dourado

Os cenários pitorescos se alongam por um caminho de 300 km, em que podemos ver com nossos próprios olhos e sentir com nosso corpo a força da natureza nos gêiseres, no mergulho entre duas placas tectônicas, na cachoeira de água glaciar e ainda em uma milenar cratera vulcânica.

E o melhor: tudo bem perto da capital Reykjavik e do aeroporto internacional de Keflavík. Como já aconselhei previamente, a melhor opção para percorrer as maravilhas naturais da Islândia é alugando um carro.

Assim, a viagem no Círculo Dourado, que pode durar de um a três dias, pode ser combinada com passeios imperdíveis no Sul, como a praia de Reynisfjara, as cachoeiras de Skógafoss e Seljalandsfoss, o Lava Centre e até o glaciar Mýrdalsjökull e o vulcão Katla.

A rota pode ser aproveitada o ano todo, mas vale ressaltar que estive na Islândia no verão, ótima época para se visitar o país por conta da abundância de atividades, dos dias mais longos e do clima ligeiramente mais ameno do que nas outras estações.

O auge do verão, que compreende os meses de junho, julho e agosto, é a temporada turística mais popular do país – logo, não ficamos sozinhos nas paradinhas no Círculo Dourado ou na costa Sul.

A seguir, confira os três símbolos mais famosos da rota cênica do Círculo Dourado, em que passamos por quedas d’água, um vale com atividade geotérmica e até parque nacional com direito a mergulho entre placas tectônicas:

Gêiser: uma explosão da natureza

A começar, o Círculo Dourado guarda um dos poucos gêiseres que podemos ver pelo mundo. O vale geotérmico fica na área de Haukadalur e é onde podemos ver de perto uma explosão literal da natureza.

Em poucas palavras, um gêiser é um fenômeno onde a água é jorrada abaixo da superfície da terra e cria uma verdadeira explosão de água superaquecida para fora da câmara.

O vale é lar do Grande Geysir, com abertura de 18 metros de largura e câmara de 20 metros de profundidade. Embora ele seja hoje em dia pouco ativo, a área ao redor é bastante ativa.

Depois do próprio Geysir, o Strokkur é o gêiser mais impressionante da área. A 100 metros do gêiser maior, ele jorra água em média a cada 10 minutos que podem atingir entre 30 e 40 metros de altura, deixando também um rastro de vapor pelo caminho.

A dica é deixarmos nossa câmera preparada para qualquer explosão a qualquer instante. Vale lembrar que ficamos a uma distância segura do gêiser e – obviamente – não é permitido chegar muito perto de sua abertura.

O complexo geotérmico fica aberto ao longo do ano e não é cobrada taxa de entrada. O parque é situado no topo de um caldeirão fervente, onde podemos notar também poços de lama sulfurosa, saídas de vapor, fontes quentes e frias, riachos e plantas primitivas.

Gullfoss, a “cachoeira dourada”

A Gullfoss é uma das atrações naturais mais lembradas e visitadas da Islândia. São, na verdade, duas cachoeiras: uma superior com cerca de 11 metros de queda e outra inferior com 21 metros.

Sua forma incomum brilha nossos olhos e faz dela um ponto superfotogênico. É claro que sua força também é impactante: segundo o próprio órgão de turismo do país, em média 100 mil litros de água glacial correm no cânion a cada segundo e descem os 32 metros abaixo.

É lindo estar aqui e ver o arco-íris formado na frente da cachoeira em dias mais limpos. Inclusive, vem daqui uma das lendas de seu nome.

Gullfoss quer dizer “cachoeira dourada”, e uma das teorias é que o título decorre do arco-íris formado pelas gotículas de água nos dias de sol. A outra mexe um pouco mais com nossa imaginação: reza a lenda que um antigo viking enterrou um tesouro na base da cachoeira.

Verdade ou não, ela é um presente da natureza. Há inclusive trilhas para caminhada e plataformas de observação que nos oferecem vistas privilegiadas da cachoeira e do cânion.

Importante lembrar que a melhor época para visitá-la é durante os meses de verão, com clima ameno e dias longos. O inverno exige cuidados: a cachoeira pode ficar parcialmente congelada e coberta de neve, em que os caminhos ficam escorregadios.

Antes de ir, é possível checar se as trilhas estão abertas no site do governo.

Não é cobrada entrada, mas há uma taxa de estacionamento no centro de visitantes.

Mergulho entre placas tectônicas no Parque Nacional Thingvellir

A maior atração em tamanho do Círculo Dourado é o Parque Nacional Thingvellir, que, além de penhascos, rios e desfiladeiros, guarda algumas curiosidades. Foi aqui que a Assembleia Nacional da Islândia, que evoluiu para um parlamento, foi fundada em 930 e permaneceu até o ano de 1798.

O local também foi palco para a declaração de independência da Islândia em 1944 e a nomeação do primeiro presidente do país. Hoje, o parque é um dos patrimônios mundiais da UNESCO.

Além de sua história, aqui convivem formações geológicas que nos impressionam: o parque fica em um vale de fenda bem na fronteira entre as placas tectônicas da América do Norte e da Eurásia. Aqui também há o Þingvallavatn, o maior lago natural da Islândia.

Além de nos impactarmos com as fissuras externas de Almannagjá, que marca a borda da placa tectônica norte-americana, e também com a cachoeira Öxaráfoss, temos a oportunidade ainda de praticar snorkel ou mergulho certificado numa rachadura chamada Silfra, aberta pelo movimento das duas placas tectônicas.

Esqueça as águas quentes geotérmicas tão famosas no país: aqui ficamos debaixo d’água entre as placas tectônicas a uma temperatura entre 2°C e 4°C. Digo por experiência própria: a aventura compensa! É daqueles programas e cenários únicos.

Vestimos roupas de proteção de mergulho apropriadas – algumas empresas oferecem tais atividades – e, junto de um profissional, entramos nas águas do lago, considerada uma das mais límpidas do mundo. A visibilidade pode chegar a 100 metros.

É uma experiência que fica para o resto da vida: estar nas águas, mesmo com o snorkel, e nadar entre as placas tectônicas da América do Norte e da Eurásia é, no mínimo, inesquecível.

Mesmo com o snorkel é possível ver formações rochosas incríveis e ter um gostinho da formação da Islândia – vale ressaltar que todos os anos as placas se movimentam cerca de dois centímetros.

Os preços para snorkel na rachadura Silfra tem valores médios de ISK 18.490 (cerca de R$ 687) e para mergulhos, feitos apenas com certificados internacionais, a partir de ISK 33.490 (cerca de R$ 1.240).

A entrada no parque não é cobrada, mas uma taxa pode ser cobrada para estacionar o carro.

Pelas redondezas: Cratera Kerið

Outro dos destaques pelo caminho é a cratera Kerið (Kerid, em inglês), que fica nas redondezas da rota e próxima dos três símbolos anteriores.

Aqui podemos ver a caldeira quase intacta de um antigo vulcão. A cratera tem uma idade estimada entre 3 e 6,5 mil anos, com 270 metros de circunferência, 170 de largura e 55 metros de profundidade.

É um dos pontos de parada interessante que vemos pela estrada, em que podemos seguir um caminho até sua borda e contorná-la. Também é possível caminhar por uma de suas paredes e admirar o lago azul-marinho, cor viva que se deve aos minerais do solo.

Notamos que suas encostas possuem uma cor avermelhada ao invés de um preto vulcânico, fato decorrente da sua idade – quase a metade de anos se formos comparar com a idade de outras caldeiras pelo país.

A cratera faz parte da Zona Vulcânica Ocidental da Islândia, que inclui a península de Reykjanes e a geleira Langjökull.

Para ver o local de perto há uma taxa de ISK 450 (cerca de R$ 16) – a cratera fica aberta até quando a luz do sol se põe.