Uruguai na rota do azeite: produção premium e experiências imperdíveis
Produção crescente, terroir atlântico e experiências de oleoturismo colocam o país entre os destaques mundiais sobre o tema

O Uruguai não é apenas conhecido pelo seu famoso assado e pelo Tannat. A geografia privilegiada, localizada entre os paralelos 30 e 35, coloca o país na "zona de ouro" da olivicultura, a mesma que abriga grandes produtores mediterrâneos. Focada em qualidade e não em volume, a produção de Azeite de Oliva Extra Virgem (AOEV) uruguaia tem ganhado destaque no cenário internacional.
Embora os primeiros olivais tenham sido estabelecidos na década de 1960, foi a partir de 2010, com a entrada de um grande player no mercado, a Agroland, responsável pela Bodega Garzón, que o Uruguai começou a se consolidar como um produtor reconhecido mundialmente.
A partir daí, foi acumulando medalhas de ouro em concursos prestigiados como o NYIOOC (Concurso Mundial de Azeite de Nova York), somando 15 de ouro e 14 de prata desde 2014.
Com cerca de 30 marcas de azeite de oliva, o Uruguai se posiciona entre os 10 maiores produtores do mundo, cultivando mais de 20 variedades de azeitonas. Entre as mais representativas, destacam-se a Arbequina, Picual, Leccino, Frantoio e Coratina.
Embora praticamente todas as regiões do país tenham olivais plantados, a região de Maldonado se destaca como uma das mais produtivas, beneficiada por um clima "temperado" pelo frescor do Atlântico. Nela, outros tantos produtores renomados fazem morada, como a Finca Babieca, Finca Cosima, Lote 8, Chacra La Anyta e Bodega José Ignácio O33.
Juan Pablo Clerici, proprietário dos restaurantes Café Mistério, Patria e Pompier, é também o responsável pela Finca Cosima. Um dos grandes entusiastas do azeite uruguaio, ele anteviu o futuro da região quando comprou uma propriedade entre as colinas de José Ignácio em 1998, já com o sonho de produzir cordeiro, vinho e azeite.
Hoje, completando 20 anos desde que plantou sua primeira oliveira, produz cerca de cinco mil litros de azeite por ano. Com cinco variedade de olivas em sua propriedade, onde as ovelhas circulam livremente, ele busca constantemente a produção de um azeite de alta qualidade com o menor impacto ambiental possível.
Com um processo cuidadoso, cerca de 50 mil kg de azeitonas proveniente de colheita "muito, muito verde", quase 70% da produção é considerada precoce, elas vão para um único tanque criando um "único blend assinatura que realmente representa a Finca Cosima e toda a região", explica Juan Pablo. "Escolhemos todos os dias o que vamos colher, provando o azeite de cada dia para manter o mesmo estilo", diz ele.
Juan também menciona que, devido à umidade, os manejos orgânicos ou biodinâmicos são inviáveis para ele, embora sua abordagem seja consciente: "Não usamos glifosato, praticamente não usamos inseticidas nem fungicidas. Se for necessário aplicar, aplicamos, pois prefiro tratar um problema uma vez por ano do que encher as plantas de cobre."
Embora a Finca Cosima ainda não esteja regularmente aberta ao oleoturismo, ela é um dos bons exemplos do nível de qualidade a qual o azeite uruguaio pode alcançar.
Para quem tiver curiosidade de conhecer de perto essa produção ou provar azeites locais, deixo aqui algumas sugestões para desfrutar da saborosa combinação de azeite, turismo, gastronomia e vinhos.
Na região de Maldonado
Bodega Oceânica José Ignacio (Azeites O'33)
Famosa tanto por seus excelentes vinhos quanto pela arquitetura premiada e design impecável, esta propriedade é também onde nascem os azeites da marca O’33, um projeto em que o oceano atua como parte viva do terroir.
Durante o verão, o espaço abriga um restaurante comandado por Fernando Trocca. Com a chegada do outono, o restaurante se despede, e é justamente nesse momento que começa o melhor da temporada para os azeites: a colheita, que varia conforme a variedade, mas geralmente acontece entre março e maio, quando é possível provar os azeites mais frescos, recém-prensados.
A visita oferece diferentes formatos, mas acompanhar a colheita e o processamento das azeitonas depende tanto de programação quanto de sorte, já que o clima também dita o ritmo. Ainda assim, o deleite é garantido. Além do passeio pelo olival, é possível fazer uma degustação de azeites a partir de US$ 45 (cerca de R$ 223) por pessoa, acompanhada de pães de fermentação natural e vinhos da casa.
Bodega Oceânica José Ignácio: Ruta 9, km 157.5, José Ignacio, Maldonado - Uruguai / Tel.: +598 92 840 033 / Confira todas as informações no site.
Colinas de Garzón
Com uma impressionante capacidade de processar até 130 toneladas de azeitonas por dia, a Colinas de Garzón, do mesmo grupo da Bodega Garzón, consolidou-se como uma potência também no universo dos azeites, levando sua produção para além das fronteiras uruguaias. É, hoje, a experiência de oleoturismo mais robusta e difundida do país.
A Colinas de Garzón oferece tours de trator pelos olivais, piqueniques sob as árvores e degustações técnicas em sua planta de produção de última geração, além da possibilidade de produzir e engarrafar o próprio azeite. Há ainda pacotes combinados que incluem almoço no restaurante Garzón ou visitas à vinícola.
As datas e programações estão disponíveis no site, e é necessário fazer reserva prévia.
Colinas de Garzón: Ruta 9, km 175, Garzón, Maldonado - Uruguai / E-mail: info@colinasdegarzon.com / Confira todas as informações no site.
Chacra La Anyta
A Chacra La Anyta está localizada na região de Pan de Azúcar, em Maldonado, estrategicamente posicionada entre serras, cursos d’água e a proximidade do litoral. Relativamente perto de Piriápolis e a cerca de 1h de José Ignacio, é aquele ponto raro onde você ainda sente o Uruguai rural antes da estética mais lapidada do turismo costeiro.
A paisagem é parte central da experiência: colinas suaves, vegetação nativa e a presença constante de um arroio que atravessa a propriedade, algo que não é só cenário, mas estrutura viva do lugar.
A Chacra La Anyta, longe das grandes estruturas industriais, tem a produção acontecendo em escala controlada e com forte presença dos próprios donos, Ale e Ana, casal de argentinos radicados no Uruguai, em um ambiente que mistura olival, arroio e serra. O passeio inclui caminhada pelos olivais, visita à almazara com explicação do processo e degustação dos azeites e produtos da casa.
Dependendo da época, a colheita entra em cena e adiciona outra camada à experiência. Outra opção é hospedar-se nas cabanas para desconectar na bela região em que se localiza a propriedade.
Chacra La Anyta: Camino Charles Darwin km 110, Pan de Azúcar, Departamento de Maldonado - Uruguai / Tel.: +59 8 9795-8550 / Mais informações e reservas pelo site.
Finca Babieca
Na Sierra de los Caracoles, em Maldonado, a Finca Babieca se instala em uma das paisagens mais emblemáticas e menos exploradas do sul do Uruguai. Entre elevações suaves, ventos constantes e uma sensação de isolamento que ainda preserva o caráter rural da região, o projeto se ancora em mais de 100 hectares de olivais fincados na antiga divisa entre os impérios Português e Espanhol, onde preservam antigas construções.
Fundada em 2003, a propriedade nasceu com o objetivo claro de produzir azeites de oliva extra virgem de alta qualidade, mas ao longo do tempo foi ajustando sua rota para algo mais contemporâneo: uma produção orientada por princípios orgânicos e respeito ao ritmo natural do cultivo. Aqui, a colheita segue manual, e o processamento mantém uma lógica mais artesanal, priorizando controle e integridade da fruta sobre escala.
O resultado são azeites que combinam consistência técnica com identidade própria, reconhecidos em competições internacionais como o EVOO California e o Los Angeles International Extra Virgin Olive Oil Competition, um indicativo de qualidade que, no caso da Babieca, não vem acompanhado de discurso inflado, mas de um trabalho contínuo e silencioso onde a serra não é apenas cenário: é condição. O solo, o clima e o isolamento moldam também a filosofia do projeto com menos intervenção e mais observação.
Na paisagem tranquila se observam cordeiros, curvas suaves de colinas e, entre as oliveiras, pastam os cavalos do responsável pela finca, Vasco Echevarría.
As visitas são pontuais. Os eventos acontecem por ali no decorrer do ano quando encontros gastronômicos são organizados e divulgados pelo Instagram. Este semestre, aproveitando a colheita, alguns encontros aos sábados, no final de abril e em maio já estão programados. O público poderá ver o processamento das azeitonas e colhê-las para levar e curá-las.
Finca Babieca: Ruta 12, km 16.5 (próximo a Pueblo Edén) – Camino Sierra de los Caracoles, Uruguai / Tel.: +598 94 456 507 / Mais informações no Instagram.
Em Colônia do Sacramento
Viñedos y Olivares del Quintón
Localizado a cerca de 25 quilômetros do centro histórico de Colônia do Sacramento, o Viñedos y Olivares del Quintón é uma boa opção de passeio para quem está por essa região. Fundado em 2010, o empreendimento nasceu com três pilares claros: azeites, vinhos e turismo. Os olivais, alguns com árvores já maduras, ocupam boa parte da propriedade, que soma mais de 100 hectares, e dão origem a extra virgens produzidos com controle integral do processo, da colheita à extração.
A produção acontece na almazara própria, onde se prensa o azeite, equipada com tecnologia moderna que permite acompanhar todo o percurso da azeitona até o azeite final. Variedades como Arbequina, Frantoio, Picual e Barnea compõem blends e monovarietais de perfil limpo, com foco em frescor e estabilidade.
Há também um cuidado evidente com sustentabilidade: subprodutos da extração são reaproveitados dentro do próprio ciclo produtivo. O projeto se completa com os vinhos da casa elaborados principalmente a partir da cepas Malbec. Por trás de tudo estão os argentinos Marcelo Álvarez e Virginia Chivetti.
A visita começa com uma imersão na propriedade, segue pelos olivais e vinhedos e avança para a almazara e a bodega, onde é possível acompanhar de forma didática todo o processo produtivo. Ao final, degustações de azeites e vinhos são conduzidas com apoio gastronômico, que vai de tábuas com produtos regionais até experiências mais completas com almoço típico, incluindo carnes, vegetais e preparações locais.
Não por acaso, o espaço também incorpora áreas de convivência, piscina e até estrutura para eventos e estadias para quem quer tempo para desfrutar a região.
Viñedos y Olivares del Quintón: 70000 Quinton, Departamento de Colonia, Uruguai / Tel.: +598 96 118 192 / Mais informações no site.
Em Montevidéu
Café Mistério

Não vai sair da capital? Não se preocupe. Você pode fazer uma visita ao Café Mistério, do produtor da Finca Cosima.
Em seu restaurante, no elegante bairro de Carrasco, Juan Pablo Clerici, que é também chef de cozinha, completa o ciclo "da terra à mesa" (farm-to-table), onde os ingredientes frescos e locais ganham ainda mais brilho. O azeite usado na casa é 100% de sua produção.
Juan conta que não chegou a fazer um prato icônico para o azeite, pois de qualquer formar ele é uma estrela em seu menu. E há vantagens de "beber direto da fonte", embora a alguns quilômetros dela. Sempre que possível, Juan traz para sua cozinha alguns litros de azeite recém-extraídos, recém-moídos, superfrescos, que o chef já avisa: o aroma é incomparável.
Café Mistério: Costa Rica 1700, 11500 Montevidéu, Departamento de Montevidéu - Uruguai / Tel.: +598 2601 8765 / Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 12h às 15h e das 19h à 00h, sábado, das 19h à 00h, e fechado aos domingos / Mais informações no Instagram.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Giuliana Nogueira

Giuliana Nogueira é brasileira, psicóloga, fotógrafa e assessora de comunicação. Não é enóloga nem sommelierè, mas é enófila, apaixonada especialmente por vinhos uruguaios e pelo Uruguai. Mantém o Instragram @Instatannat, falando mais de vinhos uruguaios do que os próprios uruguaios. Sempre que pode viaja até a terra dos nossos vizinhos, que sabem receber muito bem.


