Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

CDB, firma de R$ 100 e crédito falso: pontos do rombo bilionário do Master

Investigação revela que banco percebeu problema há um ano e iniciou corrida desenfreada – e ilegal – atrás de R$ 12 bilhões para cobrir buraco

Fachada do Banco Master na cidade de São Paulo
O Banco Master parecia imparável, mas a direção já sabia que havia um rombo  • WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
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O segundo semestre de 2024 foi um período de festa para o Banco Master. Recorde em empréstimos, melhora do rating de crédito e até prêmio de melhor empresa para trabalhar. O Master parecia imparável, mas a direção já sabia que havia um rombo. Então, iniciaram uma corrida desenfreada – e ilegal – em busca de R$ 12 bilhões.

O plano envolveu a abertura de empresas fantasmas, criação de carteiras de crédito inexistentes e o envolvimento do BRB (Banco de Brasília). Os detalhes constam do processo que culminou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

A investigação cita que a bola de neve começou a crescer descontroladamente há exatamente um ano, em novembro de 2024. Na época, o banco conseguia conceder entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões em novos empréstimos consignados por mês. Além disso, o banco tinha investimentos em empresas e outros ativos financeiros.

Somadas, essas operações alcançavam cerca de R$ 38 bilhões. Esse era o dinheiro que o Master tinha a receber de quem pegou dinheiro emprestado no banco. No jargão financeiro, eram os ativos do banco.

O valor era expressivo, mas insuficiente para fazer frente ao total que investidores colocaram no Master. Na época, eram R$ 30 bilhões que o banco tinha a pagar em CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e quase R$ 20 bilhões em DIs (depósitos interfinanceiros).

Assim, o Master tinha obrigações de R$ 50 bilhões à frente. Esse era o total que o banco tinha de pagar aos investidores que colocaram dinheiro na instituição. No jargão contábil, eram os passivos do banco.

A partir daí, a conta é simples: é só subtrair um do outro. O resultado? Um rombo de R$ 12 bilhões.

"A solução do Master para aportar recursos muito superiores à sua produção histórica, e que fossem capazes de cobrir o rombo de R$ 12 bilhões, consistiu em se associar, ilicitamente, a uma Sociedade de Crédito Direto, com o objetivo de inflar seu patrimônio artificialmente, por meio da aquisição de carteiras de créditos inexistentes e revendê-las ao BRB", cita a decisão do juiz Ricardo Augusto Soares Leite.

O processo revela que essa corrida pelos bilhões começou com a abertura de várias empresas. Em 4 de novembro de 2024, uma delas foi a SX 016 Empreendimentos e Participações com capital de R$ 100.

Menos de mês depois, em 2 de dezembro, uma grande mudança: o nome muda para Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações e o capital social salta para R$ 30 milhões. A partir daquela data, André Felipe de Oliveira Seixas Maia, um ex-funcionário do Banco Master, passa a ser diretor da empresa.

Após três dias, em 5 de dezembro, é celebrado um acordo entre o Banco Master e essa nova empresa, a Tirreno, para venda de carteiras de crédito à instituição de Vorcaro.

A investigação indica, porém, que essas operações podem ter sido "inventadas" pelo esquema. O processo cita, ainda, que nunca houve pagamento do Master à Tirreno por essas operações.

De posse dessa carteira fictícia, o Master revende as operações para o Banco de Brasília. Em troca, o banco estatal brasiliense transfere R$ 12,2 bilhões ao caixa do banco de Vorcaro.

Era exatamente o dinheiro necessário para fechar o caixa.

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